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SARS-CoV-2: o que são e qual o impacto das variantes do novo coronavírus

A variante Delta anda nas bocas do mundo. Mas o que são, por onde andam e o que escondem as mutações do novo coronavírus? Isabel Gordo, investigadora principal do Instituto Gulbenkian de Ciência, revela a importância da sequenciação do genoma do SARS-CoV-2 para travar a disseminação da pandemia.

  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Alda Mota
25 junho 2021
  • Dossiê técnico
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  • Alda Mota
Estudo do coronavírus em laboratório

iStock

A prevalência em Portugal da variante Delta, identificada pela primeira vez na Índia, está a ser, de acordo com as autoridades de saúde, a principal causa do novo aumento de casos de covid-19 no País. As notícias que revelam que há novas variantes do SARS-CoV-2 a espalhar-se pelo mundo, que se arrastam há meses, têm levantado dúvidas sobre se estas mutações poderão não só ser mais contagiosas como provocar doença severa e também afetar a eficácia das vacinas. A comunidade científica mantém-se incansável, a inquietação na sociedade é evidente e as medidas restritivas para o controlo pandémico têm-se agravado.

Em Portugal, a sequenciação do genoma do SARS-CoV-2 – que é a única forma de se descobrirem as novas variantes do novo coronavírus – é assegurada por um programa do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, com a colaboração do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC). Segundo Isabel Gordo, investigadora principal do IGC, “agora, o que foi decidido é que a sequenciação vai deixar de ser quinzenal para passar a ser feita de semana a semana, exatamente por causa desta variante Delta e de não sabermos se podem surgir mais variantes. Vai-se começar a sequenciar mais. Temos de reagir a como estará a infeção. Quando a infeção está muito baixa, sequencia-se menos, porque a maior parte das pessoas que são testadas não estão infetadas – quem dera que fosse assim sempre, não é?"

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Isabel Gordo, do Instituto Gulbenkian da Ciência, explica que o crescimento do número de infeções faz aumentar a cadência da sequenciação, porque a probabilidade de aparecerem novas mutações é maior. (Fotografia: 4See/Raquel Wise).

Como surgem e se detetam as variantes do SARS-CoV-2?

Os coronavírus (CoV) constituem uma grande família de vírus com o potencial de causar doenças respiratórias, que podem ir desde uma simples constipação a situações mais graves como a síndrome respiratória do Médio Oriente (MERS-CoV) e a síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV). Trata-se de doenças zoonóticas, ou seja, transmissíveis entre animais e pessoas. O SARS-CoV-2 (que provoca a covid-19) é uma nova estirpe que nunca tinha sido anteriormente identificada nos seres humanos. As novas variantes que se têm observado ao nível mundial são mutações do SARS-CoV-2.

As mutações dos vírus são comuns, em particular nos vírus de RNA – que têm ácido ribonucleico como material genético (como os coronavírus) –, e a maioria não tem impacto significativo. Contudo, algumas mutações podem proporcionar ao vírus uma vantagem em relação aos outros vírus que não sofreram essa mutação, tal como uma maior transmissibilidade. São estas mutações que geram preocupação e precisam de ser acompanhadas de perto. Além disso, quanto maior a transmissibilidade e a circulação do vírus, maior é a probabilidade de ocorrerem novas mutações.

Sequenciar o genoma de um vírus ajuda a entender o percurso da transmissão e o tempo em que ele está presente em determinada região ou país. Obter a sequenciação do genoma do SARS-CoV-2 é essencial para o rápido rastreio dos vírus em circulação e a única forma de descobrir novas variantes, ajustar estratégias no sentido de tentar travar a disseminação do vírus e conter cadeias de transmissão das variantes de maior preocupação.

No âmbito do programa de sequenciação desenvolvido pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge com a colaboração do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), já foram realizadas mais de 9000 sequências do genoma do SARS-CoV-2, obtidas de amostras colhidas em laboratórios, hospitais e instituições. Segundo a investigadora Isabel Gordo, “o programa é complementado com reforço de sequenciações, de outras amostras, promovidas pelo IGC em conjunto com os laboratórios Germano de Sousa”.

Variantes do SARS-CoV-2 identificadas em Portugal

Segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), existem no mundo cinco variantes do SARS-CoV-2 com maior importância epidemiológica e clínica. Para evitar o estigma contra países, a Organização Mundial de Saúde (OMS) atribuiu denominações simples, fáceis de dizer e lembrar para as principais variantes do SARS-CoV-2, usando letras do alfabeto grego.

Variantes do SARS-CoV-2 identificadas em Portugal
Nome Alfa (B.1.1.7 ou N501Y.V1) Beta (B.1.351 ou N501Y.V2) Gama (P.1 ou N501Y.V3) Delta (B.1.617.2)
País onde foi detetado pela primeira vez Reino Unido África do Sul Brasil Índia
Primeira vez detetado em Portugal Dezembro de 2020 Janeiro de 2021 Fevereiro de 2021 Junho de 2021
Transmissibilidade Cerca de 50% mais transmissível. Estima-se um aumento de transmissibilidade de 50% face às outras variantes que circulam na África do Sul. Estudos indicam um aumento de transmissibilidade de 1,7 a 2,4 vezes. É 40 a 60% mais transmissível que a variante Alfa.
Severidade Aumento do risco de hospitalizações e admissões em cuidados intensivos. Poderá estar associada a maior risco de hospitalizações.
Impacto nas vacinas Sem impacto. Análises a pessoas vacinadas com as vacinas da BioNTech/Pfizer e da Moderna indiciam uma redução em seis vezes da neutralização contra as mutações presentes no vírus.
Dados referentes à vacina da AstraZeneca mostraram uma eficácia limitada da vacina (de cerca de 10%) contra doença média ou moderada causada por esta variante.
É significativamente menos resistente às respostas de anticorpos naturalmente adquiridos ou induzidos por vacina do que a variante Beta. Baixa eficácia vacinal para doenças sintomáticas após vacinação parcial (apenas uma dose). A vacinação completa proporciona uma proteção quase equivalente à obtida contra a variante Alfa.

Variante Delta é a mais preocupante 

Segundo o mais recente relatório do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), a variante do Reino Unido encontra-se presente em 138 países do mundo, onde se incluem todos os países da União Europeia. Mas é a variante Delta que está a ser alvo de maior preocupação: é 40% a 60% mais transmissível do que a Alfa e pode estar associada a um maior risco de hospitalização. De acordo com as projeções do ECDC, estima-se que no início de agosto 70% das novas infeções na União Europeia e Estados-membros sejam causadas por esta variante, prevendo-se que esta percentagem possa atingir 90% das infeções no final desse mês.

Isabel Gordo esclarece que "a grande preocupação é a velocidade de disseminação da Delta. Tal como em fevereiro estava a acontecer com a Alfa [a variante inicialmente detetada no Reino Unido], a Delta está a espalhar-se muito depressa. E os cálculos indicam que ela tem uma taxa de transmissão 50% superior à do Reino Unido. Assim, se a Alfa tem uma taxa de transmissão 50% superior face ao vírus inicial, a variante Delta tem 100% mais! Trata-se de uma mutação nova. Tem uma taxa de transmissão duas vezes mais alta do que o vírus original e 50% mais do que a do Reino Unido!".

Quando questionada para a razão que explica a força da variante Delta, a investigadora do Instituto Gulbenkian de Ciência hesita: "Há duas possíveis respostas a essa pergunta, e ainda não sabemos qual a correta; se uma, se outra, se as duas. Uma hipótese é aguentar-se mais num ambiente mais quente – ou seja, mesmo que a temperatura suba, como é o verão, a variante aguenta-se mais do que a antiga, isso é uma possibilidade. A outra possibilidade é a natureza das duas mutações na proteína Spike: este vírus entrar para dentro das células, ligar-se às células e entrar mais facilmente, porque se agarra melhor e então dá mais vírus. Ou seja, uma pessoa, quando é infetada, os vírus reproduzem-se dentro dela e então a carga viral, o número de vírus no indivíduo, aumenta." A cientista afirma que estão a fazer-se estudos para tentar perceber qual a resposta a esta dúvida, e acrescenta: "Basicamente, quando o número de vírus aumenta, também a probabilidade de transmitir um vírus a outra pessoa também aumenta. Isto representa um aumento do número de casos no tempo, com uma velocidade de aumento no número de casos superior ao passado."

Já quanto à mais recente variante Delta Plus, Isabel Gordo diz que a comunidade científica está atenta, mas explica: "Trata-se da Delta com uma mutação adicional." A investigadora esclarece que há apenas oito casos detetados em Portugal à data de hoje num total de 479 vírus sequenciados em junho, face à incidência da variante Delta original, de 217 casos em 479 sequenciados neste mês.

Como travar a disseminação das novas variantes?

Face à emergência das novas variantes, e tendo em conta o seu potencial de transmissibilidade, o ECDC esclarece que o argumento da maior eficiência de filtração das partículas das máscaras respiratórias tem levado a que sejam recomendadas para travar a disseminação da doença. Contudo, revela que ainda há muito pouca evidência científica de que estas sejam vantajosas em relação aos outros tipos de máscaras. As dificuldades de assegurar um correto ajustamento ao rosto, bem como os potenciais efeitos adversos ao nível da menor respirabilidade devem, segundo o ECDC, ser tidos em conta, antes de tornar o seu uso obrigatório.

Para prevenir a disseminação e controlo da transmissão das novas variantes do SARS-CoV-2, o ECDC defende, sim, a importância de reforçar, no seu conjunto, as medidas para evitar a disseminação e controlo da transmissão da doença, tais como:

  • manter o distanciamento físico entre as pessoas e limitar ao máximo os ajuntamentos;
  • promover a boa higiene das mãos (lavagem frequente com água e sabão ou, na falta desta, desinfeção com solução hidroalcoólica) e a etiqueta respiratória (uso de máscara facial, tossir para o braço, etc.);
  • providenciar o uso de máscara facial, sempre que necessário;
  • manter o rastreamento de contactos, o respeito pela quarentena em caso de contactos de risco e o isolamento de casos covid-19 positivos;
  • desenvolver medidas para limitar a transmissão do vírus no local de trabalho, encorajando o teletrabalho sempre que compatível com as funções desempenhadas;
  • implementar medidas para manter a prevenção e o controlo da infeção em instalações de saúde e apoio social;
  • aconselhar a população a evitar viagens não-essenciais;
  • fortalecer as medidas de mitigação nas escolas, podendo, como último recurso, ser considerado o encerramento parcial ou total das escolas durante um curto período.

Vacinação é essencial para evitar o contágio

A Johnson & Johnson, a Moderna e a Pfizer estão já a trabalhar para tornar as suas vacinas mais eficazes contra as novas mutações do vírus. A propósito das vacinas, Isabel Gordo sublinha que é necessário continuar a acompanhar a efetividade da vacina e a sua introdução no “mundo real”. A investigadora esclarece: “Sabemos que as vacinas são seguras, depois dos ensaios e aprovações a que foram sujeitas, mas é necessário acompanhar as pessoas vacinadas e o desenvolvimento de anticorpos (e durante quanto tempo). Por isso, o Instituto Gulbenkian de Ciência tem realizado vários estudos de efetividade das vacinas.” E acrescenta: "Do que leio até agora e dos estudos que estão na literatura, as vacinas são eficazes. Agora, se me pergunta se na minha opinião vamos precisar de uma nova vacina, é-me difícil dizer que sim, embora possa dizer que o vírus está de facto a mudar. E creio que é melhor prevenir do que remediar. E o que sei é que as companhias que estão a fazer as vacinas já estão a fazer updates [atualizações] relacionados com a forma como o vírus vai evoluir. A investigadora explica que "a plataforma das vacinas é facilmente modificável para uma variante. Do ponto de vista científico, não há aqui problema nenhum. Só temos é de, ao seguir e ver se é necessário, começar a produzir uma nova vacina. Eu nem chamava nova, é um update que responde às circunstâncias se as variantes que aparecerem baixarem a eficácia das vacinas existentes. Eu acho que isto é capaz de funcionar, porque as vacinas existentes levam a uma resposta muito forte e protegem muito. Estas vacinas despoletam nas pessoas uma resposta de anticorpos muito forte e protegem, têm uma eficácia muito alta. Portanto, mesmo que o vírus mude, é muito pouco provável que essa eficácia vá para menos de 50%. Desce, mas desce ainda de um número bastante alto. Mas se houver alguma variação disto, então, acho que é fácil modificar para produzir uma nova vacina usando estas mesmas plataformas."

A investigadora sublinha a importância da vacinação e do distanciamento social para combater as novas variantes. (Fotografia: 4See/Raquel Wise)

A investigadora do Instituto Gulbenkian de Ciência destaca dois aspetos essenciais para evitar o contágio: "É essencial que as camadas mais jovens percebam uma coisa importante. Temos duas armas poderosíssimas: o nosso comportamento social – e não nos podemos esquecer que a pandemia não desapareceu ainda – e a vacina. A vacina é a outra arma poderosíssima que está a demonstrar funcionar e baixar o nível de transmissão e de basicamente nos proteger deste vírus. As camadas jovens têm de pensar que, apesar de a mortalidade nessas faixas etárias ser baixa, não é zero. E é importante, no caso de o plano de vacinação abrir a vacinação para faixas mais novas, que as pessoas adiram a isto. Isto é um problema populacional, não é só do indivíduo. É da população inteira, neste caso do mundo inteiro. É preciso as pessoas perceberem que não estamos sozinhos no planeta e que estamos fartos de estar em pandemia… Somos animais sociais e é muito chato ter de reduzir o contacto, mas se não o fizermos, não nos protegemos nem a nós nem aos outros. Quem me dera a mim estar-lhe a dizer que temos aqui um antiviral que mata isto, mas não tenho, não lhe posso dizer isso."

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