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Medicamentos inovadores abrem caminho para derrotar o cancro

18 novembro 2016
O cancro está cada vez mais perto de se transformar numa doença crónica.

18 novembro 2016
O cancro está cada vez mais perto de se transformar numa doença crónica. Há novos tratamentos, capazes de detetar, bloquear e destruir apenas as células malignas. Alguns medicamentos já são comparticipados.

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A incidência crescente de cancro transforma-o atualmente na causa de um quarto das mortes no mundo. Porém, a derrota do cancro parece estar cada vez mais próxima e em muitos casos já é tratada como doença crónica, graças a tratamentos inovadores, mais precisos e eficazes: a terapia de alvo molecular e a imunoterapia, dois campos em ascensão.

Estas terapêuticas consistem em medicamentos e outras substâncias capazes de detetar, bloquear e destruir apenas as células malignas. São, por isso, opções menos agressivas e tóxicas do que a quimio e a radioterapia, que têm impacto noutros elementos do corpo humano e o debilitam fortemente. A par de uma taxa de sucesso mais elevada, garantem mais qualidade de vida para o doente.

Por enquanto, os medicamentos inovadores são usados sobretudo em fases avançadas da doença (cancros com metástases). Para tentar perceber que até que ponto estão a chegar aos doentes, realizámos no início do ano um inquérito de preenchimento anónimo em cinco países: Bélgica, Brasil, Espanha, Itália e Portugal. Obtivemos 3226 respostas de pacientes e cuidadores portugueses.

Em paralelo, criámos um inquérito para oncologistas. Recebemos 53 respostas, o que corresponde a um quarto dos médicos com esta especialidade no País. A maioria dos profissionais que participou tem mais de 5 anos de carreira e trabalha no setor público.

Para investigar a experiência dos oncologistas, concebemos três cenários. Perguntámos com que medicamentos tratariam três tipos de cancro em fase avançada, todos elegíveis para tratamentos inovadores (como por exemplo, um caso de tumor colorretal num homem de 75 anos). Conheça aqui as respostas e os números completos do inquérito.

Tratamentos que ainda não chegam a todos

O conjunto dos dois inquéritos fez-nos concluir que os tratamentos inovadores ainda só chegam a uma minoria. Apenas 5% dos pacientes em fase avançada acederam a tratamentos inovadores: participaram em ensaios clínicos ou receberam terapia de alvo molecular ou imunoterapia.

Estas questões de acesso são condicionadas pelo custo dos fármacos, que pode chegar às dezenas de milhar de euros por ciclo de tratamento. “No ano passado, a Agência Europeia do Medicamento aprovou 39 moléculas, um terço dedicado ao tratamento do cancro, e isto traz encargos para o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Os fármacos inovadores entram pela porta estreita da doença avançada e, depois, face aos resultados, são puxados para fases mais precoces”, explica Gabriela Sousa, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia, em entrevista à Teste Saúde.

Como esclarece a especialista, estas dificuldades de acesso são relativas aos fármacos não comparticipados. A sua aplicação no âmbito de tratamentos no SNS está sujeita a pedidos de autorização especial, feitos pelos médicos e depois sujeitos ao parecer de várias entidades até à decisão final do Infarmed. “Nisto, perdemos um mês na melhor das situações.”

A principal consequência é a potencial perda da “janela de oportunidade” e eficácia do tratamento. Como ilustra a especialista: “Se tivermos um doente com uma afetação do fígado, por exemplo, é muito fácil que o seu funcionamento se desregule rapidamente e que perca condições para ser tratado.”

Quase metade dos médicos inquiridos já deixou de administrar um tratamento inovador por ausência, racionamento ou dificuldade financeira. Em alguns dos casos, o medicamento estava disponível, mas não foi aplicado, sobretudo por atrasos na autorização.