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Incensos tão maus como cigarros

Os incensos testados anunciam bem-estar, mas contêm substâncias tão nocivas como um cigarro, pelo que devem ser retirados do mercado.

  • Dossiê técnico
  • Antonieta Duarte e Sílvia Menezes
  • Texto
  • Inês Lourinho
23 janeiro 2020
  • Dossiê técnico
  • Antonieta Duarte e Sílvia Menezes
  • Texto
  • Inês Lourinho
incenso

iStock

Acender um pau de incenso para relaxar e difundir um agradável odor pela casa? Talvez não seja boa ideia. O fumo liberta uma série de substâncias nocivas, que nada têm de “natural” ou “purificante”, nem tão-pouco trazem “energia positiva”: apenas contribuem para degradar o ar do espaço interior, já de si nem sempre recomendável.

Em laboratório, detetámos acetaldeído, acetona, acroleína, benzeno, etilbenzeno, formaldeído, monóxido de carbono, naftaleno e, não perca o fôlego, ainda outros compostos orgânicos voláteis, tudo isto em seis amostras de incenso. Todas elas substâncias irritantes para os olhos, o nariz e as vias respiratórias. Algumas comprovadamente cancerígenas, outras com essa suspeita associada.

Os resultados vêm confirmar as conclusões do nosso último estudo, publicado em outubro de 2013, mostrando que, em quase sete anos, nada foi feito para controlar a segurança destes produtos. Mas não estamos sozinhos. Em 2017, a agência francesa do Ambiente e Gestão da Energia chegou a conclusões idênticas. Escrevemos, por isso, à Direção-Geral da Saúde e à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, a exigir que sejam retirados do mercado. Já as sete velas testadas emitem poucas ou nenhumas destas substâncias, pelo que podem ser consideradas seguras.

Os produtos testados foram os encontrados à venda nas várias lojas que visitámos, em agosto de 2019. Selecionámos os seguintes incensos:

  • Satya Sai Baba Nag Champa Cônes d’Encens (2,25 euros);
  • Satya Sai Baba Nag Champa Agarbatti Incense Sticks (2,25 euros);
  • Zara Home Encens (3,99 euros);
  • Eurescents Sensations (4,90 euros);
  • Green Tree 7 Chakras (1,95 euros);
  • Casa Escape Black Oudh (3,99 euros).

A lista de velas:

  • Yankee Candle (13 euros);
  • Airwick Anti-tabaco (3,50 euros);
  • Kasa Vermelho (1,95 euros);
  • A Loja do Gato Preto Vela Verde (2,95 euros);
  • Arte Regal Vela Antiolor Ref. 28395 (2,49 euros);
  • Glade Relaxing Zen (3,99 euros);
  • Casa Wood Rustic (1,79 euros).

Incensos queimados libertam poluentes cancerígenos

Dois tipos de paus de incenso são vendidos em lojas de decoração e produtos esotéricos. Os ditos “naturais” são fabricados com uma mistura prensada de pós aromáticos, resinas, seiva de flores e arbustos, por vezes, com a adição de óleos perfumados. Também se junta à receita um pó facilitador da combustão, como o carvão ou o salitre. Já para fabricar a versão “química”, adiciona-se carvão ou restos de madeira a uma haste, e em seguida passa-se por um corante e um perfume com solventes. Os cones são talhados a partir de restos de madeira e depois embebidos nestas substâncias. As velas também não têm nada que saber. Parafina, cera de abelha e estearina, a que se somam corantes e perfumes, são os ingredientes.

Mas “naturais” ou “químicos”, pouco importa. Será que a combustão de todas estas substâncias é prejudicial para a saúde, quando muitos produtos, ainda na caixa, já exalam um odor irritante para as vias respiratórias?

Verificámos em laboratório que, quando queimados, os incensos libertam poluentes cancerígenos, como o benzeno e o formaldeído, além de substâncias muito irritantes, caso da acroleína. Um pau de incenso, apenas, pode libertar tanto benzeno como cinco cigarros. Não admira que os utilizadores intensivos deste tipo de incenso corram risco aumentado de cancro a longo prazo. Apesar de prometer um ambiente zen, polui fortemente o ar interior e, a ser usado, pelo menos, deve ser aberta uma janela.

As velas libertam algumas destas substâncias, mas as concentrações são muito inferiores, podendo ser consideradas seguras. Ainda assim, devem ser seguidas precauções, como o arejamento do local de utilização e a restrição do número de horas de exposição.

Retire-se do mercado

Em sete anos, as nossas reivindicações não mudaram. Se, em 2013, criticávamos a ausência de uma lei que regulamentasse a venda de ambientadores do ar, brecha que permitia a disseminação de produtos tóxicos, tanto em Portugal, como noutros países europeus, não recuamos uma vírgula. Só podemos aumentar a intensidade da crítica face à inação das autoridades e exigir legislação europeia, acompanhada de uma fiscalização eficaz, que abranja também os produtos importados. O problema é de todos, tal como constatamos, entre outros, através dos estudos da agência ambiental francesa. As orientações formuladas pela Associação Internacional de Sabões, Detergentes e Produtos de Conservação e Limpeza, que os fabricantes de velas parecem seguir, são um bom ponto de partida, mas requerem força de lei.

Além de regras quanto à composição, e limites de segurança para a presença de certos ingredientes e produtos da combustão, este corpo legislativo não pode esquecer a rotulagem. Indicações para um uso seguro, com o tempo de exposição máximo admissível, a obrigatoriedade de mencionar as substâncias agressivas e cuidados a seguir por indivíduos sensíveis, deverão ser contemplados. A maioria das velas e incensos testados nem sequer aconselha a ventilação da casa ou o armazenamento fora do alcance das crianças.

Não basta que, após o nosso teste de 2013, a Comissão Internacional de Normalização tenha produzido normas a contemplar estes aspetos: os legisladores têm de acordar e torná-las obrigatórias. Por se tratar de produtos tóxicos, cujo perigo é reforçado pela ausência de informações fiáveis na rotulagem, exigimos que as autoridades os retirem do mercado. E, já agora, que não tenhamos de esperar mais sete anos por uma ação efetiva.

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