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Imunoterapias contra o cancro: preços dificultam o acesso

Pressão sobre os sistemas de saúde

Apesar de o INFARMED comparticipar muitos destes fármacos, o acesso, por vezes, é dificultado por uma rede de autorizações. É certo que há que procurar a racionalidade do sistema. Mas trata-se de um equilíbrio difícil, pois, do outro lado, está a possibilidade de salvar uma vida. Ainda assim, é preciso saber que muitos tratamentos continuam a ser experimentais e funcionam melhor em cancros como os da pele e do pulmão. Em tumores mais frequentes (mama, próstata, etc.), o tratamento preferencial é o clássico. Mais: a taxa de sucesso da imunoterapia ainda é inferior a 50 por cento.

Mas o principal problema é o preço. Para dar uma ideia, em 2014, todos os novos medicamentos contra o cancro aprovados nos EUA custavam acima de 100 mil euros por ano, por doente. E há mais. Um estudo publicado no British Medical Journal aponta o dedo: 57% dos novos fármacos para o cancro autorizados pela Agência Europeia do Medicamento entre 2009 e 2013 não deram provas de melhoria da esperança ou da qualidade de vida. Também a Lancet Oncology tem publicado estudos mostrando que os novos fármacos, apesar de caros, nem sempre trazem valor acrescentado.

O problema é, pois, global. O sistema de inovação parece mais interessado em proteger a propriedade intelectual do que em garantir o interesse público. A indústria justifica os preços com a necessidade de cobrir os custos da investigação. Mas não só estes são desconhecidos, como muita investigação é financiada pelos estados.

Para retirar o maior benefício e evitar que o preço de referência baixe, a indústria começa por negociar com grandes mercados, como os EUA. Mercados mais pequenos, como o português, tendem a ficar para trás. As oscilações entre países podem ir de 28% a 388 por cento. E, como, por vezes, não há concorrência, uma só farmacêutica pode encostar os estados à parede.

Em conjunto com os nossos parceiros europeus, exigimos transparência na fixação dos preços. Com os novos casos de cancro em curva ascendente, o setor tornou-se muito apetecível para a indústria. É legítimo e expectável. Mas algo vai mal quando 70% das mortes ocorrem nos países que menos podem pagar.