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Fake news: como distinguir conteúdos credíveis de lixo informativo

Movimentos antivacinas, terapias alternativas, promoção da anorexia como estilo de vida: a desinformação nas redes sociais estava a crescer antes do novo coronavírus, e não dá sinais de abrandar. Um cocktail que pode ter consequências graves para a saúde. 

  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Inês Lourinho
31 março 2020
  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Inês Lourinho
frasco de medicamentos com rótulo a indicar fake news

iStock

Há as incorretas, mas sem intenção de causar dano, as propositadamente falsas e com o objetivo de prejudicar, e as verdadeiras, ainda que divulgadas de forma a provocar pânico. A complexidade das fake news é tal que alguns especialistas lhes rejeitam o nome e falam em “poluição informativa”, que conduz a uma information disorder. Não existe uma tradução perfeita, mas podemos chamar-lhe “distúrbio provocado pela informação”. Outra objeção de peso quanto ao termo fake news: ser usado por certos políticos para desqualificar a imprensa livre, os cientistas e até as entidades oficiais. O objetivo é pôr todos os produtores de conteúdos, sejam sérios, desonestos ou apenas mal informados, no mesmo patamar de credibilidade.

Se algumas informações, ainda que absurdas, são benignas, outras podem ter consequências funestas. As alegações dos movimentos antivacinas, de que causam autismo, já foram mais do que desmontadas pela ciência. Mas os seus seguidores preferem acreditar numa falácia, com isso arriscando a segurança da comunidade. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde classificou a recusa das vacinas como uma das 10 ameaças globais mais graves.

Perante a epidemia de covid-19, que origina sentimentos de incerteza e reações mais emotivas, há sempre a tentação de explorar o lado mórbido e sensacionalista, nomeadamente através da fabricação de notícias. E a lista de exemplos de desinformação já vai longa. 

Fake_news_Ilustacao

Procuramos informação que confirme a nossa visão do mundo

Também devastadora pode ser a troca das terapias convencionais por abordagens alternativas, na luta contra o cancro. Plantas, vitaminas, minerais, homeopatia e acupuntura estão entre uma lista infinita de possibilidades. A evidência científica quanto à eficácia destas terapias no tratamento do cancro é zero. Abandonar a medicina convencional implica, ao invés, um aumento exponencial no risco de morte.

Steve Jobs, fundador da Apple, que sofria de cancro do pâncreas, adiou por nove meses a cirurgia aconselhável no seu caso, para seguir estas abordagens. Não é certo que a cirurgia e a medicina convencional tivessem salvado Steve Jobs, mas o recurso às terapias alternativas também não. Contribuiu, pelo contrário, para confundir a opinião pública. Jobs era um homem inteligente, rico e com contactos. Por que razão terá recusado a abordagem baseada na melhor evidência científica?

A resposta pode estar naquilo que um relatório sobre “poluição informativa” preparado para o Conselho da Europa, em 2017, caracteriza como a tendência do ser humano para procurar informação que confirme a sua visão do mundo. Jobs seguia o frugivorismo, ramo do veganismo que opta por consumir sobretudo fruta e alguns legumes, logo, estaria, em princípio, mais recetivo a terapias alternativas. Por isso, o relatório defende que, embora a educação seja imprescindível, não é suficiente. Os factos são valorizados, mas nem sempre considerados na tomada de decisões, que, como bem sabem os fabricantes de desinformação, depende muito de um lado emotivo.

Conscientes de que a solução exige a articulação de várias armas, formulámos as nossas recomendações. Queremos, com uma experiência de 25 anos na construção de um discurso científico acessível, mas rigoroso, fazer a nossa parte no ataque a um problema com impacto na saúde pública.

Educação é importante para travar fake news, mas não basta

As notícias sobre temas relacionados com a saúde afetam a vida de milhões de pessoas: daí terem grande difusão na internet. A Health Feedback, rede de cientistas, analisou os 100 conteúdos que mais interações suscitaram em 2018, e que incluíam tópicos como vacinas, doenças, vírus e sistema imunitário. Concluiu que três quartos dos mais populares induziam em erro ou continham informação falsa.

Os especialistas têm reportado um aumento exponencial da desinformação em quase todas as vertentes da saúde, desde as vacinas aos medicamentos contra o cancro, passando pelas dietas para emagrecer ou para “purificar” o organismo. Ao mesmo tempo, a melhor pesquisa científica não chega ao grande público, seja porque, depois de editada nas revistas da especialidade, não existe um trabalho de simplificação da mensagem, seja por uma deficiente interpretação da parte da imprensa tradicional. Surge então um vazio que é ocupado por mitos, teorias da conspiração e poluição informativa em geral. E a tentação da imprensa tradicional de competir com as redes sociais também não ajuda. O resultado é um declínio da confiança na ciência e o nivelamento de todas as fontes de informação. Evidência científica, notícias falsas, boatos e simples opiniões passam a valer o mesmo no tribunal das redes sociais.

A resposta pode começar na educação, como mostram os estudos. O sistema de ensino da Finlândia, que inclui matérias relacionadas com pensamento crítico, privilegia as ferramentas para detetar desinformação nas redes sociais. As consequências estão à vista. O índice de resiliência à pós-verdade online, criado pelo Open Society Institute, da Bulgária, posiciona a Finlândia no topo do ranking de 35 países europeus, com 76 por cento. Este índice sintetiza vários indicadores: liberdade de imprensa, literacia da população na leitura, na interpretação da ciência e no cálculo matemático, percentagem de cidadãos com estudos superiores, confiança nas instituições e participação nas plataformas digitais. Portugal surge em 15.º lugar, com os mesmos 59% que o 14.º, o Luxemburgo. O estudo conclui que mais educação e mais imprensa livre conduzem a mais resiliência.

As nossas recomendações

A história de Steve Jobs mostra que mesmo indivíduos com um elevado nível educacional podem ser permeáveis a desinformação. Ferramentas de pensamento crítico, como prescreve o sistema de ensino finlandês, são remédios indispensáveis na criação de uma cidadania ativa e esclarecida.

Mas, além destas medidas de longo prazo, exigem-se ações imediatas. As plataformas digitais têm responsabilidades. Em 2018, a Comissão Europeia promoveu um acordo entre aquelas e a indústria publicitária, para que fosse adotado um código de boas práticas. Facebook, Twitter, Google e YouTube assinaram. Contudo, não passámos das boas intenções. Por exemplo, ainda é possível promover uma página ou conteúdos antivacinas no Facebook.

A comunicação social tradicional é também parte da solução. Mais rigor a redigir as notícias, uso de títulos que não sejam apenas armadilhas para levar o leitor a abrir um conteúdo (clickbaits) e serviços de verificação de factos (fact-checking), como o Polígrafo, são armas na construção de confiança.

Sem beliscarem as liberdades de expressão e de imprensa e, assim, os princípios democráticos, os governos nacionais e as autoridades europeias devem avançar com medidas legislativas. Alemanha, França, Reino Unido e Suécia já seguiram este caminho. Por exemplo, na Alemanha, as plataformas têm 24 horas para remover conteúdos desinformativos, sob pena de multas até 50 milhões de euros. Mas o sistema tem sido acusado de atacar a liberdade de expressão política. Em França, existe um sistema idêntico, também criticado. Portanto, é preciso calibrar estas soluções.

A União Europeia, por sua vez, tem de agir contra a publicidade a produtos enganadores ou perigosos. Como? Procurando um equilíbrio entre a publicidade canalizada para as redes sociais e a que se destina à comunicação social: o estatuto das primeiras tem de ser revisto, já que se tornaram produtoras e distribuidoras de informação. Devem, por isso, ficar sujeitas às regras que se aplicam à comunicação social. Mais: se a esta se aplicam leis antimonopólio, o mesmo deverá ser verdade para as redes sociais.

Mas a publicidade não é o único problema. Um dos modelos de negócio que alimentam as fake news é o sistema de rendimento em função da quantidade de interações de um conteúdo: quanto mais cliques, mais dinheiro recebe o seu autor. Não pode valer tudo: estes sistemas carecem de controlo.

Também deve ser travada a disseminação viral. Não só os utilizadores devem abster-se de partilhar notícias sobre as quais tenham dúvidas, como têm de existir regras de transparência. Existem meios técnicos para localizar perfis falsos e detratores profissionais (troll farms). Que sejam implementados. Que seja ainda regulada a propriedade intelectual dos conteúdos, como forma de evitar a propagação viral.

E não há volta a dar: se comunicação social forte é condição para democracia robusta, é preciso desenhar medidas que lhe permitam viver, sem comprometer a sua independência.

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