Notícias

Entrevista a Margarida Martins, presidente da Abraço

28 novembro 2012 Arquivado

28 novembro 2012 Arquivado

Com cerca de 20 anos na luta contra a sida, a Abraço é uma referência. Falámos com a sua presidente, no seguimento do inquérito que realizámos para investigar, entre outros, medidas de prevenção e comportamentos de risco, e publicámos na TESTE SAÚDE n.º 100.

Através da sua experiência, Margarida Martins lançou pistas para compreender alguns resultados do estudo. Falou ainda das campanhas de prevenção e deixou o desafio de um rastreio a nível nacional. Muitos portugueses, lamenta, não fazem o teste de despistagem e desconhecem que são portadores do vírus, pelo que continuam a chegar tarde ao hospital. Os números de um tal rastreio, na sua opinião, assustariam o País.
As pessoas têm dificuldade em perceber que se podem infetar facilmente.
As pessoas têm dificuldade em perceber que se podem infetar facilmente.

No nosso inquérito, verificámos que os portugueses sabem o que fazer para evitar a doença. Mas continuam a manifestar comportamentos de risco. Como explica esta atitude?
As pessoas têm dificuldade em perceber que se podem infetar facilmente. Apesar de saberem como se infetam, tanto no caso do vírus da sida como das doenças sexualmente transmissíveis, têm dificuldade em dizer “não”, sobretudo os homens.

Isso também está em linha com os resultados do inquérito.
As mulheres têm o subterfúgio de não quererem engravidar e isso, infelizmente, assusta mais os parceiros do que o risco da doença. As mulheres também são mais vulneráveis devido à condição económica. Muitas, apesar de saberem que os parceiros têm comportamentos de risco ou outras relações, por não serem economicamente independentes, não exigem o preservativo. É um problema grave. Tentamos que as pessoas conheçam o seu estado de saúde e façam o teste. Quando tal acontece, por um lado, têm mais cuidado e, por outro, acedem a um melhor tratamento.

Outro resultado mostra que as pessoas, no geral, não fazem o teste, a não ser que esteja, por exemplo, incluído numa bateria de exames ou em caso de gravidez.
Lamentavelmente, em muitas situações, aparecem com sintomas comuns a outro tipo de doenças e os médicos não insistem para que façam o teste. Já nos aconteceram situações de andarem meses e anos a fazer baterias de análises que não incluíam o teste do VIH.

Mas, no caso das grávidas, é obrigatório.
Sim, agora, é obrigatório. Mas, noutros casos, não é. E têm-nos aparecido pessoas com muitos anos de infeção que nunca fizeram o teste. Quando chegam pela primeira vez ao hospital, por vezes, já é muito tarde.

E também andaram a infetar outras pessoas.
Porque não sabiam. Não tiveram cuidados com a sua própria saúde ou pensavam que os parceiros não tinham problemas.

É uma doença sexualmente transmissível. Por isso, ainda está associada a tabus, que interferem com o nosso espírito e a nossa vida.
É uma doença sexualmente transmissível. Por isso, ainda está associada a tabus, que interferem com o nosso espírito e a nossa vida.

Da sua experiência, acha que este teste provoca medo, que é uma sentença de morte?
As pessoas ficam aflitas. Ainda há dias, apareceu um jovem que fez o teste por ter tido um comportamento de risco. Estava completamente assustado, a pensar que ia morrer. E, hoje, isso já não acontece. Interrogava-se sobre como ia ser a sua vida afetiva. Tinha pânico de informar os amigos e a família.

Acha que, apesar da evolução nos medicamentos, o diagnóstico provoca hoje o mesmo pânico do que há 20 anos?
Em muitas situações, provoca o mesmo pânico, apesar de haver muito mais informação e formas de prevenir. É uma doença sexualmente transmissível. Por isso, ainda está associada a tabus, que interferem com o nosso espírito e a nossa vida.

É uma doença associada a julgamentos morais.
Há um julgamento da própria pessoa. Somos educados para assumirmos esta forma de estar. Culpamos muito os outros pelas questões do sexo e isso ainda é grave.

Portanto, acha que temos de desmistificar o teste de despistagem.
Sim. Andamos a tentar, com o movimento É Melhor Saber, que as pessoas façam análises e conheçam o seu estado, porque é muito mais fácil tratar. Cerca de 40% dos que entram nos hospitais chegam muito tarde.

E já têm complicações de saúde.
Sim, já têm complicações graves, que, no início, seriam mais fáceis de tratar. A Abraço tem 20 anos, mas há pessoas que conseguiram superar e têm 30 anos de infeção. É preciso que não haja medo. A discriminação também existe por causa do medo do contágio.

O tratamento antirretroviral para as primeiras horas de exposição é uma medida viável para quem teve um comportamento de risco?
Essa medicação é sobretudo administrada a médicos, enfermeiros e profissionais de saúde que tenham sido expostos ao vírus na sua atividade. Os outros cidadãos não a procuram muito, até porque nem sempre estão dispostos a assumir que tiveram comportamentos de risco. Houve pessoas que o fizeram e tiveram acesso, mas é raro. Podem deparar com dificuldades, porque os hospitais estão muito reticentes face aos custos. Por isso, a única coisa que aconselhamos é a prevenção. Hoje em dia, há muitos cortes e nem todos os hospitais estão preparados, até porque Portugal nunca estimulou muito a política da pós-exposição: para os profissionais de saúde, sim; mas, para a população em geral, não. Na prática não é fácil, pois não existe nenhuma associação ou entidade a mediar.

A grande maioria dos inquiridos não tinha problemas em aceitar um seropositivo como amigo. Ainda assim, uma pequena parte afirmou que nunca o faria ou teria dúvidas.
Muitos dos que dizem que aceitam pretendem ser politicamente corretos, porque, na prática, não convidam. Também há pessoas com a mente aberta, que até namoram com um seropositivo. Sabem quais são os riscos e que têm de exigir um preservativo. Mas, no geral, estas situações não são fáceis para os seropositivos, sobretudo nas relações afetivas. Às vezes, não é o parceiro, mas a pressão familiar.

Ainda há muita discriminação?
Há uma grande mudança. Hoje, ninguém sabe quem está infetado, não está na cara de ninguém, porque a maior parte das pessoas não assume. E não há apoios para estas situações. Para ter apoio psicológico, há meia dúzia de associações que não chegam para todos os doentes. Por isso, é preciso pagar e as pessoas não têm dinheiro.

Então, ainda se sente discriminação.
Sente-se, mesmo em crianças na escola. Quando sabem, os pais de alguns colegas não querem que os miúdos estejam juntos em piscinas, algo completamente estúpido. Ainda se sente discriminação, mas, muitas vezes, as coisas são feitas de forma mais subtil.

Mesmo quando ambas as pessoas são seropositivas, devem ser evitadas as relações não protegidas, por causa das reinfeções.
Mesmo quando ambas as pessoas são seropositivas, devem ser evitadas as relações não protegidas, por causa das reinfeções.

Um dado que nos surpreendeu foi o facto de algumas pessoas dizerem que não se importavam de ter relações sexuais desprotegidas com um seropositivo. Como explica isto?
Pode ser uma questão de cumplicidade. Mas é preciso alertar essas pessoas que tal não deve acontecer. Mesmo quando ambas são seropositivas, devem ser evitadas as relações não protegidas, por causa das reinfeções. De qualquer maneira, há muita gente que o faz. A probabilidade de infeções é menor, mas é um risco que não se deve correr. Ainda assim, é muito mais fácil ser uma mulher a fazer isso do que um homem. A cabeça da mulher funciona de outra maneira. Também há muito mais mulheres a viver com seropositivos do que homens a viver com mulheres seropositivas. As mulheres, quando se apaixonam, não são tão calculistas. São mais compreensivas. São mais mães.

As campanhas de informação ao longo dos anos têm provado resultados. O que acha que, mesmo assim, falta fazer para evitar mais infeções?
As campanhas deixaram de ser feitas. Por exemplo, a Abraço realizou das melhores campanhas de prevenção ao longo dos anos. Quando mudou a Lei da Televisão, deixámos de ter acesso gratuito ao horário nobre. Tínhamos campanhas feitas gratuitamente pelas maiores agências de publicidade, que eram um alerta importante. Não vale a pena empenhar pessoas para depois a campanha passar às 3 da manhã. Não é esse o público que pretendo atingir: é o público em geral. Também não é feito um trabalho com os jovens nas escolas. Abrangemos uns mil alunos ao nível do País, mas é por pura carolice. Este trabalho é feito com o empenho da escola e de alguns professores e não dos organismos oficiais, pois não há verbas. Também não há o hábito de as empresas, através dos recursos humanos, fazerem campanhas internas. Não basta ir à Net: temos de ser interpelados pelas campanhas e bombardeados com informação. Acho que, se fizéssemos um rastreio nacional, nos assustaríamos.

Esse rastreio depende de meios financeiros elevados?
Não, não depende de meios financeiros elevados. Acho que o País apanharia um susto com a quantidade de pessoas infetadas. O rastreio incluiria a estatística e o acompanhamento médico. Não é preciso tomar logo medicamentos: é preciso haver acompanhamento. Muita gente não necessita de medicamentos durante anos. Acho que seria uma surpresa pela negativa.

Pensa que as autoridades estão convencidas de que as campanhas são suficientes ou simplesmente cortaram porque não há dinheiro?
Acho que cortaram porque não há dinheiro. Eles sabem que as campanhas são importantes. Agora, não havendo verbas, não se podem fazer campanhas. Aconselhamos as pessoas a fazerem o teste da sida. Pode ser feito em qualquer lugar e há sítios em que é anónimo.

A tipologia dos infetados tem mudado. No início, as pessoas tinham a ideia de que a doença estava associada a homossexuais e toxicodependentes. Mas os dados oficiais mostram que, em 2011, 60% dos infetados eram heterossexuais. O que mudou nas populações infetadas?
Mudou muito. Também houve uma mudança na idade. Há muita gente com idade superior a 60 anos que está infetada, sobretudo homens e, por vezes, viúvos e divorciados. Mas também há mulheres contaminadas através dos maridos. As pessoas têm sexo até mais tarde. E muitas, infelizmente, pensam “tenho 60 anos, se tiver mais 20 anos de vida, não estou preocupado”. Ainda há dias apareceu uma senhora no hospital com 85 anos. Já deveria estar infetada há muito tempo, mas não sabia. É uma situação angustiante.

Talvez as pessoas pensem “não pertenço a nenhum grupo de risco, nada me vai acontecer”.
Mas também há quem chegue a uma determinada idade e diga “tenho mais 20 anos de vida, não me importo”. Não querem saber, sobretudo os mais velhos. Por isso, é preciso fazer campanhas e alertar essas pessoas. Podem ter a sua vida sexual, mas não vale a pena correr riscos.