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Como lidar com as emoções durante a covid-19

Sentir ansiedade, insegurança, tristeza e medo, entre outros, é normal neste período de pandemia. Conheça os conselhos dos psicólogos. O SNS24 também disponibiliza uma linha de apoio psicológico.

  • Dossiê técnico
  • Joana Almeida
  • Texto
  • Fátima Ramos
22 abril 2020
  • Dossiê técnico
  • Joana Almeida
  • Texto
  • Fátima Ramos
mulher triste encostada a uma janela

iStock

A situação de incerteza em que vivemos, tanto no que respeita à evolução da pandemia e ao surgimento de tratamentos e vacinas, como à forma de vida que teremos após o isolamento, tem necessariamente impacto ao nível psicológico. Se a tudo isto juntarmos o confinamento a casa e a perda de rendimentos, obtemos o ambiente propício ao aparecimento de emoções negativas em catadupa, que temos de aprender a gerir, para mantermos o equilíbrio.

Num inquérito que realizámos no início do estado de emergência, um quinto da população já revelava sentir medo ou ansiedade com frequência e 12% queixavam-se de problemas de sono. Uma revisão de 24 estudos sobre o impacto psicológico da quarentena, publicada na revista médica The Lancet, em fevereiro, revela que os efeitos, como stresse pós-traumático, confusão e raiva, são “substanciais, abrangentes” e, segundo algumas investigações, podem perdurar por meses ou anos.

Os estudos analisados incluíram doentes com infeções contagiosas, inclusive, provocadas por outros membros da família coronavírus, e pessoas que contactaram com os mesmos. Estas reportaram, sobretudo, medo, nervosismo e tristeza. Nas semanas a seguir à quarentena, metade dos que estiveram isolados evitava contactos com quem tossia ou espirrava, um quarto, fugia de espaços fechados, e um quinto, de todos os espaços públicos.

As circunstâncias em que ocorreram estes estudos são diferentes das atuais, pelo que é preciso cautela na extrapolação das conclusões. Por exemplo, o período máximo registado de quarentena foi 21 dias e, em nenhuma situação, houve um isolamento tão abrangente como o que estamos a viver, em termos territoriais. Ainda assim, os autores deixam recomendações: a informação clara e rigorosa, sem contradições, e a garantia da satisfação das necessidades básicas da população, como comida, bebida e medicamentos, são fundamentais para minimizar os efeitos psicológicos negativos. Alertam também para a necessidade de combater a monotonia e o isolamento.

Aceitar a tristeza favorece

Miguel Ricou, presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), considera normal que, nesta altura, nos sintamos mais irritados, tristes e angustiados, entre outras emoções desagradáveis. Aceitar que esta é uma experiência difícil e que nos vamos sentir mal com alguma frequência é o primeiro passo contra o desequilíbrio mental. Não é fácil, pois “a situação, além de perigosa, está constantemente a mudar e não sabemos bem o que esperar”, explica o psicólogo. A OPP avisa que “estes sentimentos e desafios podem aumentar com o prolongar do tempo de isolamento”. E, ainda, que “podem diminuir a nossa motivação, a qualidade do nosso sono, a nossa vontade de fazer exercício e comer saudavelmente. E contribuir para aumentar sentimentos de ameaça, ansiedade, frustração e falta de esperança.”

O que fazer segundo os psicológos

Devemos concentrar-nos na ideia de que tudo o que nos vai na alma é normal, desviando, depois, o foco para “outras coisas que nos interessem, em relação às quais sintamos maior controlo, que nos deem satisfação ou que simplesmente nos ocupem. Quando nos distraímos, deixamos de estar atentos ao que sentimos, e a intensidade diminui”, acrescenta o nosso entrevistado. Cozinhar, ler, fazer trabalhos manuais, pintar ou brincar com as crianças podem ser bons escapes. É importante também manter algumas rotinas diárias, como levantar-se e fazer as refeições às horas habituais, e, se possível, trabalhar a partir de casa.

Uma das melhores formas de reduzir a ansiedade, a solidão e o aborrecimento é manter o contacto com as pessoas de quem se gosta. Se não é possível estar com a família e os amigos, telefone, faça videochamadas ou use as redes sociais. Aproveite para falar com quem não contacta há tempo. Se puder, dê preferência às videochamadas “pois permitem ver as expressões faciais da outra pessoa, minimizando mal-entendidos e aumentando a sensação de proximidade”, explica a OPP.

A tolerância consigo e com os demais é outra qualidade a cultivar. Viver dias a fio dentro de casa, sozinho ou acompanhado, é um desafio. É preciso dar espaço ao erro, ao medo e à frustração.

Como explicar a covid-19 às crianças

Se os adultos sofrem com a alteração das rotinas, as crianças veem desaparecer o seu porto seguro. Daí poderem ficar confusas, ansiosas e com tendência para acentuar as birras. Mesmo as mais pequenas notam as alterações na vida familiar. O nervosismo e a preocupação dos adultos deixam-nas inseguras, podendo mesmo levá-las a pensar que são culpadas.

O caminho é explicar o que está a acontecer, porque têm todos de ficar em casa e não podem estar com os avós, em linguagem adaptada ao nível de compreensão. E, sobretudo, é importante transmitir-lhes a esperança de que tudo se vai resolver. Exprima os seus sentimentos, sem mostrar demasiada preocupação ou receio, e incentive as crianças a partilharem os delas.

Os pais devem ainda contrariarem a tentação de entregar os mais novos à televisão e a outras tecnologias. Incentive-os a realizar atividades, como jogos de tabuleiro ou trabalhos manuais, desenhar, ler ou escrever um diário, e tente fazê-los entender que não estão de férias, que é preciso continuar a fazer os trabalhos escolares, embora de forma diferente.

Dar informação credível sobre a pandemia

As crianças são facilmente impressionáveis. Não as deixe sozinhas a assistir aos noticiários, fale sobre o que estão a ver e procure conhecer as suas opiniões. Proteja-as de imagens chocantes.

No caso dos adultos, a exposição consecutiva ao tema também pode aumentar o medo e a ansiedade. Escolha fontes de informação credíveis e consulte-as uma a duas vezes por dia, para evitar o excesso. “Desconfie das pessoas que têm a certeza de tudo, ou que têm uma solução para tudo”, recomenda o presidente da Comissão de Ética da OPP e, acrescentamos nós, não partilhe informação, por exemplo, sobre soluções para prevenir ou tratar a covid-19 sem a confirmar.

O psicólogo recomenda ainda uma análise individual às próprias crenças e a busca de informação plural. “As pessoas têm mecanismos de simplificação que as faz valorizar ou desvalorizar as informações consoante aquilo que sentem sobre o problema”, explica. Tendemos a concordar e a aceitar mais facilmente os dados que confirmem as nossas crenças do que os que as contrariem. Por isso, é importante predispor-se também a escutar os argumentos contrários (de fontes credíveis). É a melhor forma de ficar informado e obter respostas mais protetoras.

Quando procurar ajuda?

Os tempos são difíceis, mas não podemos baixar a guarda. Manter uma atitude positiva e lembrar-se de que este isolamento não durará para sempre são posturas que ajudam a focar-se no essencial. Caso sinta que está a perder o controlo das suas emoções e estas começam a determinar o comportamento, pode ser altura de pedir ajuda. Em termos práticos, se, por exemplo, pensa constantemente na situação que envolve a pandemia e imagina cenários catastróficos, tem sentimentos intensos de tristeza, zanga, irritabilidade ou frustração, dorme mal e/ou perdeu o interesse ou sente que não é capaz de realizar as suas tarefas habituais, convém procurar apoio psicológico. A linha SNS24 (808 24 24 24) integrou este serviço, que está disponível todos os dias, durante 24 horas, e é gratuito.

Muitos psicólogos e psiquiatras, tanto do setor privado como público, estão a trabalhar à distância. No caso dos privados, bastará marcar uma consulta, como faria noutras circunstâncias. Caso não tenha possibilidade (ou não queira) pagar, tente ligar para o centro de saúde para saber como aceder a uma consulta. Alguns (poucos) têm psicólogo. Se não tiverem, o médico de família poderá indicar o serviço hospitalar. Algumas juntas de freguesia, câmaras municipais e universidades também oferecem serviços de apoio psicológico nesta fase.

As consultas podem ser telefónicas, mas a videochamada é preferível, por ser mais próxima da consulta presencial. Caso não conheça o profissional, peça o nome e o número da cédula profissional e verifique as credenciais junto da Ordem dos Psicólogos ou da Ordem dos Médicos (psiquiatras), para não correr o risco de ser enganado.

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