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AVC: entrevista a Castro Lopes, presidente da Sociedade Portuguesa de Acidente Vascular Cerebral

10 julho 2012 Arquivado

10 julho 2012 Arquivado

O AVC é a primeira causa de morte em Portugal e o principal fator de incapacidade dos adultos. Prevenir e tratar são palavras-chave no combate à doença.

“É fundamental que as pessoas tenham um papel proativo, conhecendo e tratando os fatores de risco da doença e identificando os seus sinais de alerta.”

Portugal tem uma taxa de incidência e prevalência do AVC acima da média europeia, mas tem-se registado uma redução nos últimos anos. A que se deve esta melhoria?
O AVC é uma das principais causas de morte e de invalidez em todo o mundo. Em Portugal, embora a taxa de mortalidade esteja a diminuir, é a primeira causa de mortalidade e de incapacidade, com números que nos envergonham. Até há pouco tempo, apontávamos para uma mortalidade de 200 por 100 mil habitantes por ano, o que significa o dobro da média europeia e o dobro de Espanha. Neste momento, podemos apontar para cerca de 160 por 100 mil habitantes. Os portugueses estão a ficar mais despertos para a doença, começam a conhecer os seus sinais de alerta e fatores de risco, mas ainda existe um longo caminho a percorrer.

De que forma se pode minimizar o enorme impacto social e económico do AVC?
Esta doença tem um peso social muito grande por ser a terceira causa de morte nos países mais evoluídos e a primeira em Portugal. Em 2006, na Cidade do Cabo, foi proclamado como catástrofe mundial pela Organização Mundial de Saúde. Mas pode ser prevenido e tratado. Se soubermos como fazê-lo, é possível reduzir o número de casos e o grau de incapacidade dos doentes. Para isso, é fundamental que as pessoas tenham um papel proativo, o que ainda não acontece.

Neste sentido, a Sociedade Portuguesa de Acidente Vascular Cerebral (SPAVC) tem vindo a promover o ensino do AVC nas suas diversas componentes de prevenção, tratamento e prevenção secundária junto da população.

No caso da prevenção, é necessário a população conhecer e tratar os fatores de risco. São eles a hipertensão, o tabaco, a diabetes, a fibrilação auricular [forma particular de arritmia cardíaca com formação de coágulos que podem obstruir uma artéria cerebral], o colesterol elevado e o sedentarismo.

Uma vez conhecidos os fatores de risco, as pessoas têm de seguir um estilo de vida saudável, através da prática de exercício físico, como a caminhada, de uma alimentação equilibrada e, no caso dos fumadores, do abandono do hábito tabágico. Importa, também, conhecer os sinais de alerta: menos força num braço, face desviada ou fala perturbada. Daí dizer-se também que o AVC é uma catástrofe que pode ser prevenida e tratada. Quando se fala em “tratar”, fala-se em reconhecer um AVC: perante um dos três principais sinais, chame o 112 e exija ser levado para um hospital com unidade de tratamento de AVC. 

Além do impacto negativo na saúde e dos custos que acarreta, o AVC afeta também a qualidade de vida dos doentes e dos seus familiares. Como é que este impacto se manifesta nas suas vidas?
Hoje em dia, devido ao nosso estilo de vida, em que tanto o marido como a mulher trabalham, ter um pai ou uma mãe em casa doentes é um grande problema. As unidades de trabalhos continuados surgem assim como uma hipótese para estes doentes. No entanto, esta alternativa tem de ser cada vez mais estimulada porque não existem unidades de cuidados continuados suficientes e devidamente preparadas para dar resposta a tantos doentes.

O doente deve frequentar um centro de dia, com serviços de fisioterapia, terapia da fala e assistência social, mas deve ser-lhe permitido regressar a casa à noite, ao seu espaço e à sua família. Além disso, o doente aceita mais facilmente frequentar um centro de dia, onde pode fazer reabilitação, do que a hospitalização permanente num lar.

O AVC afeta pessoas cada vez mais jovens. A que se deve este facto?
Sendo uma doença do envelhecimento, o AVC também é uma doença de todas as idades. O estilo de vida é um dos grandes responsáveis pela ocorrência de acidentes vasculares cerebrais na população mais jovem, que tem vidas desregradas, com uma alimentação inadequada e hábitos prejudiciais. Quanto mais nova for a pessoa, mais difícil é a realização do diagnóstico de AVC e a deteção das suas causas.

Como se deve agir perante um ou vários sinais de alarme?
Perante a manifestação de qualquer um dos sinais de alerta já mencionados, deve partir do princípio de que está a sofrer um AVC e chamar o 112. Não disfarce nem minimize os sintomas. Se sentir menos força de um lado do corpo ou a boca ao lado, não arranje desculpas, não diga que foi por dormir sobre esse lado ou que se deve um abcesso dentário, nem espere para ver se os sintomas vão desaparecer. O AVC é uma urgência. Não é para telefonar ao médico de família, mas para chamar o 112 e exigir ser conduzido a um hospital com unidade de tratamento de AVC, ativando, deste modo, a Via Verde intra-hospitalar.

“Se sente menos força de um lado do corpo ou a boca ao lado, não arranje desculpas, nem espere para ver se os sintomas vão desaparecer.”

A rápida intervenção médica especializada é importante para o sucesso do tratamento e posterior recuperação do doente?
O rápido socorro do doente com AVC é fundamental para o sucesso do tratamento e para o prognóstico do doente. Quando se liga para o 122, é acionada a Via Verde intra-hospitalar e o doente é encaminhado para o hospital mais próximo com uma unidade de tratamento de AVC, onde já aguardam a sua chegada. Assim, quando chega ao hospital, já tem alguém à sua espera e inicia-se a realização de análises e de uma TAC (tomografia axial computorizada), com o intuito de avaliar que tipo de AVC ocorreu e o tratamento adequado. É crucial que o doente chegue ao hospital nas primeiras três horas após o início dos sintomas. Se se tratar de um AVC isquémico, é possível administrar uma injeção chamada fibrinólise. Esta tem ajudado a salvar muitas vidas e diminui em grande escala as sequelas do AVC. Além disso, quanto mais cedo for diagnosticado o AVC, menor será a extensão das lesões.

O tratamento das vítimas é mais eficaz quando são atendidas em unidades especializadas?
As unidades especializadas de tratamento de AVC desempenham um papel muito importante no tratamento das vítimas de AVC, pois reúnem todas as condições e todos os equipamentos para prestar os cuidados imediatos e necessários. Os doentes são acompanhados por uma equipa multidisciplinar constituída por neurologistas, médicos de medicina interna, fisiatras e enfermeiros.

As unidades especializadas de tratamento de AVC existentes conseguem dar resposta às necessidades dos doentes?
O País tem unidades de tratamento de AVC suficientes para atender as necessidades dos doentes, permitindo que cheguem até elas dentro das 3 horas recomendadas. No entanto, é preciso que estas unidades funcionem bem. Se isso acontecer, não necessitaremos de muitas mais. Agora é necessário categorizá-las de acordo com as redes europeias, fazendo uma distinção entre as unidades mais especializadas.

Neste momento, parece-me que não devemos estar preocupados com o número de unidades existentes, mas com a lotação de pessoal e o horário de funcionamento em pleno da unidade de AVC. Isto subtende a realização de TAC’s 24 horas por dia 7 dias por semana, bem como a existência de uma equipa multidisciplinar, com neurologistas, especialistas de medicina interna e enfermagem, preparada para o tratamento do AVC na fase aguda. Estas unidades, em termos de instrumentalização, não são muito dispendiosas, pois os hospitais têm de as ter. Mas é preciso que funcionem e não fechem às 20 horas.  

“São necessários mais centros de reabilitação devidamente apetrechados, mais pessoal e mais acesso aos tratamentos.”

A medicina de reabilitação consegue dar resposta à procura dos doentes? Como se pode melhorar o tratamento e o acesso aos serviços de reabilitação? As novas normas clínicas da Direção-Geral de Saúde podem ajudar nesse sentido?
É preciso melhorar a capacidade de atender os doentes, pois é diminuta e os serviços nesta área são deficitários. Não há unidades de reabilitação que cheguem para um tratamento adequado a longo prazo. São necessários mais centros de reabilitação devidamente apetrechados, mais pessoal e mais acesso aos tratamentos. Os doentes dizem muitas vezes que lhes dão esmolas, pois têm direito a 30 dias de fisioterapia. Depois, têm de parar por causa de outros doentes que também estão a aguardar a sua vez para realizar tratamentos de reabilitação. A fisioterapia deve ser um direito do doente enquanto este tiver qualquer tipo de limitação causada pelo AVC.


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