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Asma: entrevista a Elsa Caiado, alergologista

30 março 2012 Arquivado

30 março 2012 Arquivado

A asma é uma doença crónica que afeta cerca de 150 milhões de pessoas em todo o mundo, um milhão das quais em Portugal. Esta patologia tem maior prevalência entre a população infantil e juvenil. Subestimar a gravidade da doença e suspender a medicação são, segundo Elsa Caiado, dois dos principais erros dos doentes asmáticos.

“A asma é um problema de saúde pública em todo o mundo.”

“A asma é um problema de saúde pública em todo o mundo.”

Além do impacto negativo na saúde, a asma afeta a qualidade de vida e acarreta custos económicos elevados. De que forma é que este impacto se manifesta na vida dos doentes?
A asma é, de facto, um importante problema de saúde pública em todo o mundo. Além de ter sido por várias vezes referida como a principal causa de absentismo escolar, é um importante fator de absentismo laboral com consequente diminuição de produtividade, podendo trazer sérias consequências sociais e económicas. Quando não controlada, é responsável pela frequente utilização dos serviços de urgência e medicação chamada de emergência, aumento das hospitalizações, levando assim a despesas elevadas para seus portadores e para a comunidade.

A incidência e a prevalência da asma tem vindo a aumentar. A que se deve?
A asma é uma doença multifatorial, dependendo de fatores genéticos e ambientais. Sabe-se que a hereditariedade desempenha um papel importante, mas existem outros agentes ambientais, como casas e locais de trabalho, os quais são propícios para reprodução de ácaros.

Outro aspeto relevante é a poluição ambiental, responsável quer pela lesão da mucosa nasal e brônquica, quer pela transformação dos pólenes, tornando-os mais alergénicos. A utilização inapropriada de antibióticos também ocupa um lugar relevante no que toca ao aumento da incidência da asma. Com o uso exagerado destes medicamentos, o nosso organismo “desaprende” a defender-se dos microrganismos e o sistema imunológico começa a reagir exageradamente a estímulos comuns do ambiente, como ácaros, pólenes, fungos e medicamentos, confundindo substâncias inofensivas com substâncias nocivas.

Existe alguma evidência de que o crescimento em ambientes asséticos contribua para o aparecimento de asma. Devemos evitá-los?
De facto, crê-se que os ambientes asséticos são um fator importante do aumento da prevalência da asma. Tal como o uso inapropriado dos antibióticos, a vacinação e o menor contacto com microrganismos banais leva a que o sistema imunitário deixe de produzir anticorpos protetores, sendo desviado no sentido da hipersensibilidade alérgica. É um “mal” dos países desenvolvidos e principalmente dos centros urbanos. Julgo ser difícil inverter este facto, mas podemos e devemos ser mais rigorosos na utilização dos antibióticos, usando-os apenas nas infeções bacterianas comprovadas pelo médico.

Quais os erros geralmente cometidos pelos doentes asmáticos? E como evitá-los?
A asma é uma doença crónica pelo que o doente deve fazer medicação preventiva diária a longo prazo. Muitas pessoas subestimam a gravidade da sua doença e suspendem a medicação quando se sentem melhor; alguns evitam-na devido ao receio de possíveis efeitos secundários; outros, não sabem utilizar os inaladores corretamente e, portanto, o tratamento não é eficaz.

Os elementos desencadeantes conhecidos e a exposição a ambientes poluídos e/ou com fumo de tabaco devem ser evitados ou reduzidos, por serem fatores que agravam frequentemente a asma. Para uma abordagem mais completa e global, é essencial a orientação de um especialista, que lhe proporcione um plano educacional e farmacológico adequado, minimizando, assim, os efeitos adversos da terapêutica.

“Muitas pessoas subestimam a gravidade da sua doença e suspendem a  medicação quando se sentem melhor.”

“Muitas pessoas subestimam a gravidade da sua doença e suspendem a medicação quando se sentem melhor.”

A imunoterapia, também conhecida por “vacinas antialérgicas”, é uma solução eficaz para o controlo da asma e de outras alergias? Quais são os resultados?
A imunoterapia específica, geralmente chamada “vacina de alergia”, consiste na administração, injetável ou sublingual, de doses progressivamente crescentes de um extrato alergénico, composto de acordo com o resultado dos testes cutâneos e doseamento dos anticorpos específicos. Este é o único tratamento capaz de alterar o curso natural da doença alérgica (rinite e asma), sendo possível obter benefícios que se mantêm por vários anos após a suspensão das vacinas. Estas deverão ser mantidas por 3 a 5 anos. Os resultados da imunoterapia são bastante bons nas alergias a pólenes de gramíneas, ervas ou árvores, venenos de abelha ou vespa, e no caso de ácaros e alguns fungos.

Como a vacina contém as substâncias às quais a pessoa é alérgica, existe o risco de desencadear uma reação alérgica eventualmente grave, pelo que deve ser apenas prescrita e vigiada por especialistas.

Os testes alérgicos continuam a ter valor de diagnóstico?
Os testes cutâneos de alergia por picada são métodos diagnósticos com elevada sensibilidade e especificidade, que permitem avaliar uma reação cutânea às substâncias que frequentemente causam alergia (alergénios). O facto de identificar com rigor qual o agente responsável pela doença alérgica permite evitá-lo e dar a conhecer ao paciente a substância que lhe está a provocar sintomas.

Os testes cutâneos por picada têm elevada fiabilidade e são fundamentais no diagnóstico de doença alérgica. Para além disso, são simples, rápidos, pouco dispendiosos e comportam poucos riscos.

Estudos demonstram uma relação entre o uso regular de paracetamol e a severidade da asma. Qual o seu parecer sobre o assunto? Recomenda a toma de paracetamol aos seus doentes?
É uma realidade que a incidência e prevalência da asma tem vindo a aumentar nos últimos 30 anos e é necessário identificar possíveis causas e, quando possível, evitá-las. Têm surgido alguns trabalhos de metanálise onde parece haver relação entre a frequente toma de paracetamol e o agravamento da asma. No entanto, não existe nenhum estudo randomizado que demonstre uma relação de causa-efeito entre a toma regular de paracetamol e a asma. Se não houver antecedentes de qualquer reação alérgica ao paracetamol, nomeadamente pieira, urticária ou angioedema, penso não haver qualquer contraindicação em prescrever o paracetamol como antipirético.