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5 produtos prometem melhor saúde mas são ineficazes

Prometem repelir piolhos, insetos ou enjoos, mas são produtos sem vantagens para o consumidor, à venda nas lojas mais insuspeitas.

  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Fátima Ramos
12 junho 2019
  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Fátima Ramos
pessoa a aplicar repelente no braço

iStock

Repelentes de piolhos, braceletes contra enjoos, pulseiras para manter os mosquitos à distância... Tudo isto existe. Nada disto funciona. Todos os dias os consumidores são confrontados com a publicidade a produtos com potencialidades extraordinárias, milagrosos até. Mas o único milagre que conseguem operar, e muito bem, é o da subtração de uns bons euros ao bolso de quem vai à aventura, porque “mal não faz”. Nalguns casos, os pacientes perdem tempo precioso a tentar curar-se com produtos sem validade e, quando procuram a via adequada, o problema de saúde pode ser mais difícil (ou impossível) de atacar. Na área dos tratamentos, há ainda a possibilidade de produzirem efeitos secundários graves ou de interferirem na ação de medicamentos que eventualmente estejam a tomar.

Não é difícil ser-se apanhado pelas promessas destes produtos milagrosos, sobretudo quando os tratamentos e medidas tradicionais não funcionam. É frequente vermos testemunhos com “histórias de sucesso” a promovê-los, muitas vezes, encenados.

A velha máxima “quando a esmola é muita, o pobre desconfia” continua a ser boa conselheira: se parece demasiado bom para ser verdade, provavelmente não é. O “radar charlatão” deve ser ativado sempre que um produto seja promovido como cura rápida e eficaz para uma panóplia de doenças e, mais ainda, se surgirem expressões como “avanço científico”, “cura milagrosa”, “produto exclusivo”, “ingrediente secreto” ou “remédio ancestral”. A linguagem emotiva, pouco objetiva, e a disponibilização do produto através de um único canal (por exemplo, num site da internet), com pagamento adiantado, e o recurso a técnicas de vitimização, como indicar que as autoridades e profissionais de saúde conspiraram para aniquilar o produto, são outros sinais de alarme.

Proibido enganar na publicidade

A publicidade a produtos que exageram as suas capacidades é condenada pela diretiva europeia relativa às práticas desleais, transposta para a lei nacional há mais de 11 anos. Estão proibidas práticas que prejudiquem os interesses económicos dos consumidores, como “ações enganosas”, que “contenham informações falsas ou que, mesmo sendo factualmente corretas, [...] induzam ou sejam suscetíveis de induzir em erro o consumidor”, nomeadamente, em relação aos “resultados que podem ser esperados da sua utilização, ou aos resultados e às características substanciais dos testes ou controlos efetuados ao bem”.

Apesar das proibições e recomendações, muitas são as charlatanices promovidas através da televisão e da internet e que também podem ser encontradas em estabelecimentos conceituados, como farmácias. Em geral, são produtos que dizem resolver ou evitar problemas de saúde ou transtornos que afetam o bem-estar, mas que, na verdade, não têm provas dadas ao nível da eficácia, embora, na maioria dos casos, também não se lhes conheçam efeitos negativos de maior.

O Infarmed, no que respeita a cosméticos e a produtos de saúde, a Direção-Geral da Saúde, no caso dos biocidas, como as pulseiras antimosquitos, e a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), para os restantes, deveriam prestar mais atenção a este tipo de produtos.

Verificámos os estudos científicos existentes para cinco categorias:

  • repelentes de piolhos;
  • pulseiras e ultrassons contra mosquitos;
  • braceletes antienjoo;
  • dilatadores nasais, adesivos e sprays para evitar ressonar;
  • purificadores de ar por ionização, que se dizem benéficos para quem sofre de asma crónica.

Nenhum é recomendado, por não estar suficientemente estudado ou porque as investigações existentes não comprovam os efeitos apregoados ou têm qualidade. E por que razão estas investigações não passam no crivo da qualidade? Na maioria dos casos, porque incluem poucos pacientes, não comparam os resultados com os efeitos de um placebo (produto sem substância ativa) ou são realizadas pelos próprios fabricantes, juízes que julgam em causa própria e poderão ter uma visão toldada dos factos.

 

Adesivos, clipes e sprays antirronco

Quando o ar não flui suavemente pelo nariz e garganta, devido a alterações estruturais ou obstruções das vias respiratórias, a pessoa pode ressonar. A válvula nasal interna é a zona mais estreita do nariz. Se estiver obstruída, dificulta a passagem do ar. A utilização de dilatadores mecânicos internos ou externos no nariz, incluindo os adesivos, melhora a respiração, mas não está provado que diminua o ronco. Os sprays lubrificantes para o nariz e a garganta não estão bem estudados: a maioria dos dados existentes foram fornecidos pelos fabricantes e as investigações não contemplam populações diversificadas.

Como suavizar o ronco

Os ruídos durante o sono podem ter diversas causas, pelo que os tratamentos têm de ser adaptados. À partida, há vantagem em perder o peso a mais. Deixar de fumar e não ingerir bebidas alcoólicas, sobretudo antes de ir para a cama, também pode ajudar. É ainda recomendável não tomar medicamentos sedativos para dormir - porque relaxam os músculos, incluindo os das vias respiratórias, dificultando a passagem do ar - e dormir de barriga para baixo. Se estas medidas não resultarem, convém consultar o médico.

Pulseiras antienjoo

Estas pulseiras dirigem-se a quem sente mal-estar no estômago, náuseas e vómitos, muitas vezes acompanhados por palidez e transpiração, aquando de uma viagem ou devido ao movimento visual. Baseiam-se na teoria chinesa da acupuntura, segundo a qual o equilíbrio se obtém através da estimulação de certos pontos, com agulhas ou por pressão. Em geral, estas pulseiras são feitas de tecido elástico e incluem botões cuja função será pressionar os tais pontos. Mas não há evidência de que este sistema funcione contra enjoos, tal como sucede com a acupuntura.

Como contrariar os enjoos associados ao movimento

O foco deve estar na prevenção. Como? Olhe para o horizonte ou para um ponto fixo distante. Evite ler ou olhar para o ecrã enquanto estiver em movimento. Se possível, escolha lugares onde sinta menos a deslocação: no barco, os lugares do meio, no convés, são os mais recomendados; no carro, é mais confortável viajar à frente, de preferência, assumindo a função de condutor; no autocarro e no comboio, é importante seguir virado para a frente; e, no avião, os lugares à frente da asa são os mais indicados. Nos casos mais difíceis de controlar, os medicamentos ajudam, mas podem causar sonolência.

Pulseiras antimosquitos

As pulseiras impregnadas com substâncias repelentes, como DEET (N, N-diethyl-metatoluamide), citronela ou icaridina, conferem alguma proteção, mas apenas nos centímetros de pele junto à zona em que são usadas. Os ultrassons, emitidos por aparelhos específicos ou por apps de telemóvel, não têm efeito. Esta foi a conclusão do nosso teste de junho de 2015 (TESTE SAÚDE n.º 115) e, também, de vários estudos científicos, incluindo uma revisão publicada na Cochrane, organização internacional independente que avalia e promove a medicina baseada na evidência.

Como afastar os mosquitos

Os repelentes para aplicar na pele são seguros e eficazes. Prefira os que incluem ingredientes conhecidos, como o DEET, a icaridina, o IR3535 e o PMD. Aplique o repelente numa pequena parte da pele, para verificar se tem alergia. Se houver reação, não use. Caso não haja sinais de alergia, aplique apenas na pele exposta, conforme as indicações do fabricante. Se deixar alguma pele sem repelente, o inseto vai atacá-la. Volte a aplicar depois de tomar banho ou transpirar. Se também precisar de protetor solar, saiba que o DEET reduz a sua eficácia. Escolha um protetor com um fator de proteção elevado e aplique o repelente em último lugar. Faça-o ao ar livre ou numa área ventilada e nunca perto de comida. Ao regressar a casa, retire o repelente com água e sabonete.

Purificadores de ar por ionização para a asma

Teoricamente, o sistema injeta no ar iões com carga elétrica negativa, neutralizando alguns poluentes, como pó ou fumo do tabaco, que, depois, se depositam numa superfície. Além de se tratar de um método com eficácia duvidosa, basta algum movimento do ar para que os poluentes voltem a circular. A maioria dos estudos revela que os sintomas associados à asma não melhoram significativamente com o uso destes sistemas.

Como reduzir os sintomas da asma

O mais importante é procurar identificar os fatores que desencadeiam os sintomas e evitá-los tanto quanto possível. Também pode ser necessário tomar medicamentos. Para reduzir as crises, convém deixar de lado materiais que acumulem pó e são difíceis de limpar, como alcatifas, cortinas e carpetes. Os tapetes devem ser frequentemente lavados. Dormir num quarto sem sinais de humidade, arejar bem a casa todos os dias e manter os animais domésticos fora de casa são outras medidas. É ainda desaconselhável usar produtos de limpeza com substâncias e cheiros muito ativos e agressivos, fumar ou permanecer em locais com muito fumo.

Repelentes de piolhos

Imagina um piolho a tentar ganhar espaço numa qualquer cabeça e não o conseguir, por não suportar o cheiro ou porque os cabelos são demasiado escorregadios? É o que promete a maioria dos produtos que se dizem preventivos, feitos, sobretudo, à base de óleos de plantas, com destaque para os da árvore do chá (Tea tree oil ou melalueca). A ciência ainda não comprovou a sua eficácia.

Como prevenir os piolhos

Nenhum método permite afastar os piolhos, mas é possível reduzir a possibilidade de se instalarem. Insista com as crianças para que evitem encostar as cabeças durante as brincadeiras. Explique-lhes que não devem partilhar roupa, chapéus, bandoletes, escovas ou pentes.

Depois de fazer um tratamento contra piolhos, lave a roupa usada nos dois dias anteriores, incluindo toalhas, lençóis e fronhas, pentes e escovas a, pelo menos, 55ºC. Se a roupa não suportar esta temperatura, pode optar pela limpeza a seco. Outra solução é fechar os objetos num saco de plástico selado durante duas semanas.

Os piolhos sobrevivem um ou dois dias fora da cabeça. Um exame regular à cabeça também é útil: não impede que os piolhos apareçam, mas permite atuar antes que se multipliquem.

 

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