Dicas

Como escolher um champô pouco poluente

Quer um champô mais ecológico? Faça opções sustentáveis e saiba como evitar os ingredientes mais poluentes do produto que usa para lavar o cabelo.

 

  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Alda Mota
30 setembro 2020
  • Dossiê técnico
  • Susana Santos
  • Texto
  • Alda Mota
mulher a lavar o cabelo com champô

iStock

Se quer minimizar o impacto ambiental dos produtos que utiliza para lavar o cabelo, há duas coisas a que precisa de prestar atenção: a embalagem e o rótulo.

Comecemos pela embalagem, para saber onde deve agarrar quando for às compras. Apesar de o plástico poder ser reciclado, a sua utilização em larga escala dá origem a uma elevada quantidade de embalagens que se torna um problema quando estas não são depositadas no local apropriado para serem tratadas e recicladas. Para uma escolha mais sustentável, quanto menos plástico levar para casa por causa do champô que utiliza, melhor. Embalagens maiores são, então, preferíveis às mais pequenas, e bisnagas e garrafas com dispensador devem ser evitadasAssim, não só há um menor recurso a plástico, como é possível, por exemplo, inverter a embalagem com facilidade para evitar desperdício de champô quando o produto se aproxima do final. Se houver recargas para o seu champô, é ouro sobre azul. Em princípio, ainda reduz a sua pegada ecológica de uma forma mais substancial.

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Agora passemos aos ingredientes. A melhor forma de distinguir os champôs com um impacto ambiental menor é prestar atenção ao rótulo e escolher os ingredientes menos nocivos. Aqui, três problemas se colocam: regra geral, a lista dos ingredientes é longa, está de acordo com a nomenclatura internacional dos ingredientes cosméticos (INCI), sendo as designações por vezes difíceis de entender, e os carateres usados são por vezes tão pequenos, que poderá será necessário munir-se de uma lupa para os conseguir decifrar.

Atenção aos ingredientes poluentes 

Um aspeto muito importante que diferencia os champôs dos restantes produtos de higiene e cosmética que usamos no dia-a-dia é o facto de os seus resíduos, na grande maioria, irem pelo cano abaixo. Isto leva a que o impacto ambiental do uso dos champôs seja muito superior ao de um creme de rosto, por exemplo. A solução passa por optar por um mal menor: na falta de produtos para lavar o cabelo que não poluam de todo, escolha champôs que contenham o mínimo de substâncias nocivas possível para o ambiente.

Abaixo, apresentamos os principais poluentes presentes na listagem dos ingredientes da maioria dos champôs e algumas substâncias que podem constituir uma alternativa mais sustentável.

Os conservantes e os antioxidantes

Apesar de serem utilizados em quantidades inferiores aos tensioativos (os ingredientes com ação detergente que abordamos no ponto seguinte), os conservantes e os antioxidantes são as substâncias que, nos champôs, têm o maior impacto ambiental, pois o efeito antibacteriano requerido para manter a estabilidade microbiológica do champô interfere com as bactérias “boas” do meio ambiente. Os resíduos destas substâncias resultantes da lavagem tornam a água tóxica para algas, peixes e outros organismos e mantêm-se no meio aquático, uma vez que são muito pouco biodegradáveis.

Deste grupo, são de evitar o butylated hydroxytoluene (ou BHT), o methylchloroisothiazolinone e o methyltiazolinone (MIT), a DMDM hydantoin e a dyazolidynil urea (ou DIAZ urea).

Os parabenos, apesar de poluírem menos do que os conservantes apresentados anteriormente, também têm um grau de degradabilidade baixo e, logo, também contaminam o meio aquático de uma forma considerável.

Para substituir estes ingredientes, entre as substâncias detetadas nos champôs que são periodicamente alvo de testes, as que garantem o melhor compromisso entre uma boa qualidade de um champô e um menor impacto ecológico são os compostos de benzoato (benzoate) e sorbato (sorbate).

Os tensioativos

Dentro do frasco, 80 a 90 por cento do champô é constituído por água. Os restantes 10 a 20 por cento são, essencialmente, tensioativos.

Servem para remover a sujidade e fazer espuma. O seu impacto negativo revela-se porque muitos deles são persistentes no meio ambiente e dificilmente biodegradáveis. Acresce que enquanto a legislação europeia determina que os tensioativos presentes nos detergentes devem ser pelo menos 90 por cento biodegradáveis ao fim de 28 dias, nada é referido em relação aos produtos de higiene pessoal.

sodium lauryl sulphate (laurilsulfato de sódio) é o tensioativo mais famoso, mas a verdade é que não é muito nocivo para o meio aquático, especialmente se o seu efeito for mitigado pelo uso de betaine (betaína), o que o torna menos agressivo. Os tensioativos mais nocivos e para que deve estar alerta são os que têm as expressões “pareth”, “laureth” ou “trideceth” na sua denominação, porque se trata de constituintes com um grau de biodegradabilidade difícil.

Os tensioativos que poluem menos são produzidos a partir de substâncias naturais (apesar de terem de ser quimicamente transformados para poderem servir o seu propósito). Este é o caso de ingredientes cujo nome contenha as expressões “cocoate” (do inglês coconut, coco), “olivate” (olive, ou azeitona) ou “palmate” (palm, ou palma).

Os alergenos (fragrâncias e óleos essenciais)

As fragrâncias, tanto as de origem sintética como os chamados “óleos essenciais”, além de serem uma fonte potencial de alergenos, também têm um impacto negativo para o ambiente.

Alguns alergenos estão classificados como nocivos para o meio aquático (como o limonene, o geraniol, e o butylphenyl methylpropional). Outros não têm uma classificação específica, mas podem prejudicar seriamente o desenvolvimento de algas, peixes e outros organismos do meio aquático, por serem muito pouco biodegradáveis e gerarem acumulação de substâncias nocivas (bioacumulação): é o caso do citronellol e do linalool, entre outros.

No fundo, qualquer produto que tenha perfume na sua constituição tem impacto ambiental, mas é muito difícil evitar totalmente o uso de fragrâncias, pois elas são essenciais para dissimular o mau odor de alguns ingredientes, sobretudo alguns surfactantes e solventes. A alternativa passa por os fabricantes optarem por substâncias menos alergénicas e com uma constituição menos nociva. 

Os corantes

São usados para dar uma cor mais “natural” ao produto ou aproximá-la à de algum ingrediente "especial" indicado no rótulo.

Regra geral, mesmo se se trata de substâncias pouco biodegradáveis, os corantes não são os mais nocivos para o ambiente quando comparados com os tensioativos ou os conservantes. Contudo, enquanto os restantes ingredientes são essenciais para a formulação de um champô, o uso de corantes é absolutamente desnecessário e deveria ser evitado para se reduzir a pegada ambiental.

Componentes com MEA, DEA, TEA e EDTA

Entre os ingredientes emulsionantes usados no fabrico de champôs encontram-se os derivados de MEA, DEA e TEA. Baseiam-se em diferentes tipos de etanolaminas (EA), que podem apresentar propriedades cancerígenas, mutagénicas e tóxicas. EDTA é uma substância que pode ser facilmente substituída por ácido cítrico (citric acid), este que tem um impacto ambiental praticamente nulo.

Todas estas substâncias disponibilizam metais pesados no meio ambiente, tornando os champôs mais tóxicos para os organismos aquáticos.

Os derivados do petróleo

PEG, PPG, polyquaternium, copolymerpropylene glicol são ingredientes com baixo grau de biodegradabilidade e que, por serem derivados de petróleo, não advêm de fontes renováveis. São usados pelos produtores para dar viscosidade e consistência ao champô.

Apesar de haver alternativas à sua utilização, trata-se de substâncias com um custo reduzido, o que as torna menos apetecíveis de serem substituídas pelos fabricantes.

Os ingredientes hidrolisados (palma, seda, leite, soja, etc.)

Todos os ingredientes hidrolisados, como a palma (palm), a seda (silk), o leite (milk), entre outros, mesmo provenientes de fontes naturais, são alvo de tratamento químico.

Servem, por exemplo, para evitar o efeito de anti-estático no cabelo depois do uso dos champôs. Alguns são de origem animal e podem ter um grande impacto na sua reprodução; outros, como a soja (soy), podem advir de organismos geneticamente modificados.

O impacto ambiental do recurso a estes ingredientes não está relacionado com o uso do champô em si, mas com as substâncias usadas no seu fabrico.

Os filtros ultravioletas

Segundo muitos estudos, os filtros ultravioletas (UV) presentes nos produtos de cosmética acumulam-se nos mares e têm efeitos potencialmente tóxicos em organismos marinhos, porque perturbam o crescimento do fitoplâncton, além de conterem muitos ingredientes nocivos que podem levar ao desenvolvimento excessivo de matéria orgânica no meio aquático (a chamada “eutrofização”).

Enquanto nos protetores solares o impacto ambiental é contrabalançado pelos benefícios que advêm da proteção contra os raios UV, no caso dos champôs estes ingredientes são sobretudo adicionados para manter a cor do champô ou evitar a sua degradação, se a embalagem for transparente.

Rótulo Ecológico: que garantia dá a EU Ecolabel?

Atribuído pela União Europeia a produtos cosméticos usados para lavagem e tratamento do corpo e cabelo, como é o caso dos champôs, o Rótulo Ecológico Europeu, ou EU Ecolabel, distingue não só produtos que se comprove que tenham um reduzido impacto no consumo de recursos, como também um baixo uso de substâncias nocivas para o ambiente. No que diz respeito aos champôs, a sua atribuição depende de muito mais do que a avaliação dos ingredientes: tem em conta a sustentabilidade da produção (como acontece com o uso do óleo de palma), os materiais utilizados, o rácio entre a embalagem e o produto, entre outros aspetos.

Infelizmente, os critérios para a atribuição desta distinção são de tal forma restritivos que poucos são os champôs que ostentam a EU Ecolabel. Logo, é difícil o consumidor encontrar estes produtos.

Rótulo Ecológico Europeu Ecolabel

Reduzir o impacto ambiental dos champôs em 6 passos 

Como não há como fugir a algum impacto ambiental dos champôs no meio ambiente, eis alguns passos para fazer uma escolha mais sustentável.

  1. Opte por embalagens maiores e sem dispensador, de forma a reduzir a quantidade de plástico que traz para casa e, consequentemente, o plástico que põe em circulação no meio ambiente.
  2. Antes de comprar, dedique algum tempo a ler o rótulo. Evite os ingredientes mais nocivos para o ambiente.
  3. Molhe bem o cabelo antes de juntar o champô; isto permite reduzir a quantidade de produto utilizado.
  4. Em vez de aplicar o produto diretamente no cabelo, ponha uma noz de champô na palma da mão. Assim, controlará mais facilmente a quantidade usada por lavagem.
  5. Quando lhe parecer que o champô está a acabar, retire a tampa, adicione um pouco de água, feche, agite ligeiramente e inverta a embalagem. Irá fazer render o champô para um número superior de lavagens, evitando resíduos de produto na embalagem. 
  6. Separe sempre a embalagem vazia do lixo indiferenciado e coloque-a no ecoponto amarelo para que seja reciclada. 
 

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