Artigo

Já nasceu a “primeira criptomoeda portuguesa” e é um token

Há um ano - quinta-feira, 24 de maio de 2018
A primeira criptomoeda portuguesa chama-se Bityond mas nada tem a ver com a bitcoin. Trata-se na verdade de uma startup portuguesa que se financia através da emissão de moedas virtuais. Conheça os nossos conselhos sobre o investimento neste mercado.

A comunicação social noticiou nas últimas semanas o lançamento da “primeira criptomoeda portuguesa”, que inclusivamente teria tido a aprovação da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. Mais exatamente, trata-se da primeira vez que uma empresa sedeada em Portugal se financia através da emissão de moedas virtuais. A empresa chama-se Bityond e é uma jovem startup portuguesa.

 

O produto da Bityond é uma plataforma de recrutamento para profissionais de IT (Tecnologias de Informação). Podemos descrevê-la como inspirada no Linkedin, nomeadamente na sua função de recrutamento.

 

Os candidatos preenchem na plataforma as suas competências, os empregadores preenchem, por sua vez, as competências necessárias para os postos de trabalho que pretendem preencher, e a plataforma faz um match. A plataforma terá receitas sobretudo através do pagamento de uma subscrição mensal pelos empregadores.

 

Não é imediatamente óbvio o que é que a plataforma beneficia em estar numa blockchain em vez de simplesmente numa base de dados da empresa, como é o caso do Linkedin. Não pretendemos contudo aqui analisar a plataforma da Bityond enquanto produto, que aliás está ainda numa fase incipiente. Vamos apenas analisar a posição de um investidor.

 

Desde logo, um esclarecimento: a Bityond não está a lançar uma verdadeira criptomoeda, assente numa blockchain própria. Está simplesmente a usar um standard técnico (ERC20) para criar um token, uma “ficha” própria que usa a blockchain da rede Ethereum (provavelmente a criptomoeda tecnologicamente mais interessante). Lembra-se quando ia aos carrinhos de choque e pagava 50 cêntimos por uma ficha, que podia depois trocar por uma volta nos carros? É mais ou menos essa a ideia.

 

Criar um token é muito mais simples. Desde que tenha alguns conhecimentos técnicos, há tutoriais no Youtube que explicam como criar um token ERC20 em 15 minutos.

 
 

Tokens: para que servem?

A questão que nos temos colocado face aos ICO (Initial Coin Offerings), é: mas que direitos tem o investidor em tokens? Porque é que estes hão-de valorizar?

 

Se investir numa empresa através de ações (ou outra forma de associação, quotas, etc.), tem direito aos lucros distribuídos pela empresa (dividendos, por exemplo) e direitos de voto sobre a mesma.

 

Se investir numa empresa através de obrigações (ou, mais genericamente, fizer um empréstimo), tem direito a receber os juros desse empréstimo.

 

E os tokens, para que servem? Que direitos conferem para que tenha valor?

 

Note-se que os tokens estão proibidos de dar ao seu detentor o direito a receber lucros ou algum tipo de rendimento. Essa foi uma exigência da CMVM, pois nesse caso teriam de obedecer às regras dos valores mobiliários, tal como as ações ou obrigações.

 

De acordo com o White Paper (documento técnico) da Bityond, o investidor em tokens poderá: 1) receber mais tokens ao usar a plataforma, 2) participar em sondagens sobre a direção futura do desenvolvimento da plataforma e 3) investir em desenvolvimentos futuros da plataforma.

 

Ora, considerando que 1) se aplica a todos os utilizadores da plataforma (é um chamariz para incentivar o uso), que a empresa não garante que 2) seja vinculativo, a vantagem concreta de investir em tokens é 3) poder investir ainda mais no futuro. A vantagem para a Bityond é óbvia, para o investidor é que é mais difícil de perceber.

 

É aliás isto mesmo que a CMVM se refere em comunicado sobre a criptomoeda Bityond.

 

Deve investir em tokens?

Sejamos claros: não questionamos a legalidade ou sequer a viabilidade do produto da Bityond. E reconhecemos as vantagens óbvias para uma empresa se financiar através da emissão de tokens.

 

Na prática, trata-se de receber dinheiro em troca de (praticamente) nada. Os tokens não obrigam a pagar nada aos investidores (exceto eventualmente mais tokens, mas esses não custam nada); não dão direitos sobre a empresa aos investidores; não obrigam a respeitar todas as regras e burocracia necessários para obter financiamento pelos canais habituais nem suportar os custos inerentes (o custo da criação dos tokens, por comparação, é irrisório).

 

Já o investidor em tokens está na posição inversa: por comparação com a entrada no capital de uma empresa ou emprestar-lhe dinheiro, a empresa não tem de lhe pagar nada; não tem qualquer direito de voto sobre a gestão; não tem nenhuma das proteções que a lei dá a quem investe nas formas tradicionais, e a única forma de ganhar dinheiro é esperar que os tokens valorizem por motivos necessariamente especulativos, já que como vimos os tokens em si mesmos não prometem nada. Assim, o nosso conselho é que fique afastado, não invista.

 

Este modelo só faz sentido se assumirmos que, levados pela euforia em torno das criptomoedas, os tokens se valorizem e portanto os investidores ganhem dinheiro ao vender no futuro os seus tokens.

 

Como noutros ICO, parece-nos que a “carroça” está a ser posta à frente dos “bois”: a valorização dos tokens é assumida como um pressuposto inicial, não como uma consequência de um bom modelo económico.

 

É preciso estar ciente de que esta é uma área onde as fraudes ou, menos grave, ideias de negócio inviáveis, são frequentes. A Satis Group, empresa que acompanha e procura avaliar a qualidade dos ICO, qualificou como “fraudes” 81% dos ICO lançados que recolheram fundos acima dos 50 milhões de dólares, com os proponentes a não exibirem nenhuma atividade no sentido de desenvolver o projeto, depois de recolher os fundos. Apenas 3,8% foram considerados um sucesso.

 

Nota final para um aspeto prático. Como estamos a falar de um token construído sobre uma criptomoeda, o investidor depende na prática de dois preços.

 

Para que um investidor ganhe com o seu “investimento” em tokens Bityond, é necessário que alguém lhe dê em troca mais ethereum (a criptomoeda mais avançada em termos tecnológicos) do que os que entregou para receber os tokens, e que os próprios ethereum não valham menos euros do que valiam no momento do investimento.

 

Por outras palavras, é preciso que os Bityond valorizem face ao ethereum e que este valorize (ou pelo menos não desvalorize) face ao euro. O risco é muito elevado.

 

ICOs: um desafio ao setor financeiro

O desafio que as ICO (e de um modo mais geral, outras fintech – empresas do setor tecnológico financeiro) colocam ao setor financeiro é de certa forma análogo ao da Uber e o setor dos transportes. Sim, tiram vantagem do facto de não terem de respeitar as regras impostas pelos governos ao setor, e esse é um fator que precisa de ser equilibrado a prazo.

 

Mas é inegável a atração que a acessibilidade e simplicidade destes investimentos exerce sobre o público, mesmo descontando alguma euforia e ingenuidade em torno das criptomoedas.

 

Num momento em que a bolsa nacional se esvazia de empresas, é altura de os reguladores e principais agentes do setor renovarem esforços no sentido de equilibrar a defesa dos investidores com a redução das barreiras de acesso aos mercados de capitais, quer do lado das empresas (menores custos financeiros e burocráticos para emitir valores mobiliários) quer do lado dos investidores (porque não tokenizar as ações)? A disrupção no setor é uma realidade, e lidar com ela vai exigir flexibilidade e celeridade de todas as partes.

Partilhe este artigo