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Gestores ganham até 90 vezes mais do que média dos trabalhadores

Há 3 anos - terça-feira, 17 de maio de 2016
Jerónimo Martins e Galp Energia são as empresas onde a disparidade salarial é maior. E tem vindo a aumentar. O presidente da Galp viu, por exemplo, o seu salário crescer 67,3% em 2015.

Em 2015, o presidente da Comissão Executiva (CEO) da Jerónimo Martins, Pedro Soares dos Santos, arrecadou 865 660 euros de remuneração total, ao passo que os 87 404 colaboradores do grupo receberam em média 9589 euros, uma disparidade superior a 90 vezes.

 

Pode argumentar-se que o salário médio no setor da distribuição é particularmente baixo, dado que emprega muitas pessoas com baixas qualificações. De qualquer forma, são 90 vezes e este não é caso único.

 

Os dois CEO que a Galp Energia teve no ano passado, Manuel Ferreira de Oliveira e Carlos Gomes da Silva (seu substituto desde abril de 2015) receberam um total de 2 556 186 euros, ao passo que a remuneração média dos trabalhadores da petrolífera foi de 35 482 euros. Ou seja, receberam 72 vezes mais do que o salário médio da empresa que, neste caso, nem é baixo (o oitavo mais alto entre as 26 empresas portuguesas analisadas).

 

Estas são as duas empresas nacionais em que a disparidade salarial entre quem ganhou mais e a média dos trabalhadores foi mais elevada em 2015. Contudo, há 10 empresas em que esse rácio foi superior a 30 vezes. Além da Jerónimo Martins e da Galp Energia, foram os casos da Sonae, da Semapa, da Ibersol, dos CTT, da EDP, da Mota-Engil, da Portucel e da NOS. Em média, os presidentes da Comissão Executiva das empresas nacionais ganharam 23,5 vezes mais do que a média dos trabalhadores das respetivas empresas.

 

Rácio aumentou em 2015

Se fizermos uma comparação com o que aconteceu em 2014, verificamos que, em vez de diminuir, a disparidade entre a remuneração dos CEO e a média dos trabalhadores aumentou em 2015.

 

Em termos globais, a remuneração dos CEO das empresas analisadas subiu 14,2% face a 2014, ao passo que as remunerações médias dos trabalhadores cresceram apenas 3,6%. Isto levou a que o rácio passasse de 21,3 vezes em 2014 para 23,5 vezes em 2015.

 

As empresas em que houve um maior agravamento deste rácio foram a Galp (passou de 44,2 para 72), os CTT (de 21,8 para 45,3), a Jerónimo Martins (de 72,7 para 90,3) e a EDP (de 27,9 para 44,9). E, em todos estes casos, além de já terem um rácio superior à média, o agravamento deveu-se quase exclusivamente a um significativo aumento do salário recebido pelo presidente executivo de um ano para o outro: 67,3% no caso da Galp; 109,7% nos CTT; 29,5% na Jerónimo Martins e 58,2% na EDP. E, no caso da Galp, o valor criado para os acionistas nos últimos cinco anos até foi negativo, sendo mais uma razão para que houvesse maior contenção salarial na cúpula da petrolífera.

 

Obviamente que na Proteste Investe acreditamos na livre concorrência e na liberdade para empregadores e empregados fazerem acordos entre si. Além disso, compreende-se que os profissionais mais qualificados e que assumem maiores responsabilidades sejam compensados por isso.

 

No entanto, não nos parece tão correto, que nas sociedades cotadas e para os cargos em que não existem acordos de trabalho, como nos casos dos administradores, as remunerações sejam definidas sem que haja um verdadeiro empregador, neste caso os acionistas, a definir valores ou, em última análise, a estabelecer limites para as remunerações.

 

Apesar das políticas de remuneração serem, por força da lei, objeto de votação anual em assembleia geral de acionistas, na maioria dos casos, o que é votado são princípios gerais muito vagos. Além disso, não é aceitável que, nos casos em que os resultados são negativos, não aconteça nada e se mantenham na mesma os prémios, que, como o próprio nome indica, deveriam premiar algo e não ser atribuídos independentemente de os resultados serem ou não alcançados.

 

Um exemplo claro desta situação foi o que aconteceu na antiga Portugal Telecom. Mesmo após o descalabro que levou a cotação da empresa a descer dos 4 euros no início de 2013 para valores inferiores a 1 euro no final de 2014, Henrique Granadeiro, presidente da Comissão Executiva até agosto de 2014, recebeu um total de 1 847 028 euros em 2014, que inclui um prémio de 800 000 euros pela venda da Vivo em 2010, operação que marcou o início de um ciclo negativo para a operadora de telecomunicações.

 

Há vários anos que a Proteste Investe defende que o rácio entre a remuneração do presidente da Comissão Executiva e a média dos trabalhadores não deve ultrapassar as 20 vezes e que a remuneração individualizada dos órgãos sociais, sobretudo do CEO, deve ser objeto do voto dos acionistas. Devem ser usados métodos mais transparentes no cálculo da remuneração dos administradores, sendo que o recebimento da parte variável dos administradores executivos deve estar dependente do alcance de objetivos claros.

 

Consulte o estudo completo aqui.

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