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Cuidado com os conselhos dos bancos

Há 10 dias - quinta-feira, 6 de dezembro de 2018
Ainda confia nas sugestões do gestor de conta? Fomos aos balcões dos cinco maiores bancos para conhecer as ofertas para poupança. E, para não variar, saímos desiludidos.
O nosso cliente-mistério revelou que nem sempre os bancos são bons conselheiros.

O nosso cliente-mistério revelou que nem sempre os bancos são bons conselheiros.

Em meados de outubro fizemos um teste em que dois inquiridores anónimos perguntavam, em balcões dos cinco maiores bancos portugueses (dois balcões por banco, em agências de Lisboa), o que fazer com uma quantia inicial de 5 mil euros. Traçámos então dois cenários, muito comuns ao perfil dos nossos subscritores, a partir desta premissa. 

No primeiro, o visitante tem 45 anos, poucos conhecimentos em produtos financeiros e não é cliente do banco. Pretende, com esse montante, fazer uma poupança de longo prazo. O nosso cliente-mistério tinha, ainda, a indicação para referir durante a conversa com o funcionário do banco: “Ouvi dizer que os depósitos rendem pouco, não sei se haverá outras aplicações”. 

Deveria ainda dizer que os 5 mil euros iniciais são as únicas poupanças (não tem um fundo para uma eventual emergência) e pretende fazer uma poupança de longo prazo e reforçar sempre que possível. E evitou falar de risco, já que tinha poucos conhecimentos na matéria. Ou seja, é um cliente típico, de poupanças modestas, ainda jovem, mas já a pensar na incerteza do futuro. 

No segundo cenário, o ponto de partida financeiro é o mesmo, mas as soluções muito diferentes. O visitante dispunha dos mesmos 5 mil euros, das mesmas instruções e da mesma iliteracia sobre produtos financeiros bancários, mas tinha 65 anos. 

PPR e companhia (muito) limitada 

As visitas começaram mal. E, na verdade, também terminaram mal. Quase todos os bancos sugeriram depósitos a prazo, algo que, como sabemos, garante um rendimento que andará perto do zero ou mesmo em cima deste número “redondo”. 

O aforrador de 45 anos foi agraciado por PPR em todos os balcões, o que até, dependendo do produto, poderia ser positivo. Em todos? Não. Como na aldeia dos gauleses de Astérix, o Banco BPI foi irredutível e sugeriu ao incauto cliente potencial do nosso teste que investisse a totalidade dos seus cinco mil euros num fundo imobiliário sem capital garantido.

Foi um mau conselho: apesar de este fundo ter obtido um rendimento superior a 7% em 2017, o aforrador não estaria a diversificar e iria depositar todas as suas poupanças num produto sem garantias de capital. Há muito que alertamos para a prática perigosa de pôr todos os ovos no mesmo cesto, quando se trata de poupanças ou de outros investimentos. 

Os outros bancos também sugeriram PPR ao nosso cliente-mistério, mas sob a forma de seguro, com capital garantido, que são mais adequados a quem já está perto da reforma. Mais um tiro ao lado. Quem está, como o investidor do nosso primeiro cenário, a mais de 10 anos da reforma, deve investir num PPR com mais risco e potencialmente mais rentável no longo prazo.

O Novo Banco foi arrojado, e apresentou a este cliente um produto financeiro complexo sob a forma de depósito estruturado indexado à cotação de quatro ações. Ainda que tenham o capital garantido, os depósitos estruturados raramente são boas escolhas: o seu rendimento depende de uma fórmula de cálculo e do desempenho de outras variáveis, quase nunca favoráveis ao investidor. Além disso, não são mobilizáveis num prazo de dois anos.

Fundos e produtos complexos 

A nossa segunda “cobaia” do teste tinha 65 anos. Estava, portanto, próxima da reforma e queria sossego. Mas quase todos os bancos recomendaram um fundo de investimento. Só a categoria do fundo variava, e ainda que o risco, neste caso, seja baixo ou moderado, os fundos não têm capital garantido. Em caso de hecatombe financeira, já conhecemos o fim da história. 

A exceção à regra foi o Millennium bcp, que não sugeriu um fundo, mas nem por isso deixou a onda de maus conselhos. Apresentou ao aforrador produtos financeiros complexos, apesar de a Diretiva dos Mercados de Instrumentos Financeiros (DMIF) obrigar a atribuir um perfil a cada cliente e apenas ser possível sugerir estes produtos complexos aos perfis com maior grau de conhecimento financeiro. 

Houve, porém, neste caso, um lado positivo: a maior parte dos bancos referiu a necessidade de diversificar as aplicações (CGD, BPI e Santander). E a funcionária do Santander Totta referiu a este cliente que o que lhe apresentava era meramente indicativo. Seria necessário conhecer o perfil do investidor para poder avançar nestes mergulhos no escuro.

Ponha os ovos em cestos diferentes

No primeiro cenário (visitante com 45 anos), o mais sensato seria aplicar 4 mil euros em produtos de capital garantido e com liquidez (para constituir um fundo de maneio) e uma pequena parte num fundo de investimento misto (multiativo) ou num PPR  em forma de fundo, que investe em ações (máximo de 1000 euros). 

No segundo caso (visitante com 65 anos), o risco também deve ser doseado: títulos de dívida pública, seguros de capitalização e os melhores depósitos a prazo são, para nós, os produtos mais adequados. Deveria repartir o dinheiro e aplicar de forma diversificada nestas três categorias de produtos.

 

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