Este website utiliza cookies que facilitam a navegação, o registo e a recolha de dados estatísticos.
A informação armazenada nos cookies é utilizada exclusivamente pela PROTESTE INVESTE. Ao navegar com os cookies ativos consente a sua utilização.
1.º MÊS GRATUITO
Conselhos independentes de investimento

A chamada “guerra comercial” de Trump já vem de trás!

Data da publicação: 12/03/2018

Com o recente anúncio de aumento dos impostos sobre as importações, Donald Trump enviou uma "declaração de guerra" aos parceiros do seu país. Mas na realidade, a "guerra comercial" começou há dez anos, na sequência da crise de 2008.

A premissa do Presidente americano é simples: o recorrente défice comercial resulta de maus acordos e distorções da concorrência. Reequilibrar estas contas do comércio foi um dos temas preferidos de Trump durante a campanha presidencial.

Assim que chegou à Casa Branca, atacou o défice, incentivando as empresas a produzir no solo americano, renegociando o Nafta (acordo de livre comércio da América do Norte), abandonando acordos ambientais, denunciando as práticas chinesas e agora taxando as importações de aço e alumínio.

 

Note-se que, neste último capítulo, Trump não é inovador. Há muito que as práticas comerciais chinesas foram denunciadas por Washington: Barack Obama e George Bush tomaram medidas para proteger a indústria siderúrgica americana.

 

Consequências da crise

 

A magnitude dos desequilíbrios comerciais atuais provém da crise global de 2008. Há dez anos, a maioria dos países, incluindo os Estados Unidos, quiseram aumentar as exportações para superar a recessão. Medidas protecionistas proliferaram em todo o mundo, mas foi sobretudo de forma indireta, com as políticas monetárias que os países quiseram favorecer as vendas ao exterior.

 

As autoridades chinesas abriram grandes linhas de crédito, especialmente para as empresas exportadoras, mas também concedendo empréstimos vantajosos para que alguns países estrangeiros pudessem comprar produtos chineses.

Graças a uma política monetária ultra expansionista, o Japão enfraqueceu deliberadamente o valor do iene no mercado cambial. Oficialmente para fomentar pressões inflacionistas, através de preços mais altos para os produtos importados, esta política é realmente uma forma de ajudar as empresas exportadoras nipónicas. A zona euro, e a Alemanha em particular, também beneficia da política do Banco Central Europeu que impede a apreciação da moeda única.

 

Nesta corrida para as exportações, a China, a Alemanha e o Japão saíram-se bem. Tóquio reequilibrou a balança comercial, no vermelho após o desastre de Fukushima, que fez disparar as importações de energia para compensar o encerramento das centrais nucleares. Pequim e Berlim, por sua vez, registam excedentes comerciais recorde. Graças ao motor alemão, a zona euro também consegue agora um excedente, quando era deficitária antes da crise de 2008. Assim, os Estados Unidos aparecem como os grandes perdedores. Excluindo os produtos de energia, cujo saldo está agora em equilíbrio graças ao boom do petróleo de xisto, o défice da balança comercial americana nunca foi tão grande. Em 2017, situou-se em 738 mil milhões, contra 520 mil milhões antes da crise de 2008 e apenas 286 mil milhões em 2009, quando a recessão deprimiu o consumo interno dos EUA.

 

Todos saem a perder

 

Para Trump, dado o grande défice comercial dos EUA, "as guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar". Contudo, a realidade é mais complexa. Certas medidas protecionistas provocarão retaliações por parte dos países visados, multiplicando as barreiras comerciais que penalizam todos os intervenientes.

Não obstante, é verdade que os Estados Unidos terão menos a perder. As exportações representam apenas 13% do PIB. O país é menos dependente do comércio internacional do que a Alemanha, a China e o Japão.

É com base nessa visão que Trump não se importa com uma guerra comercial. O Presidente espera que os parceiros comerciais dos EUA, que têm mais a perder, aceitarão alguns ajustes no comércio. É uma aposta arriscada, mas é uma posição consistente a nível político, dadas as promessas de campanha, e pode ser justificada a nível económico.

 

Novas incertezas

 

Para o investidor, as medidas comerciais do Presidente acentuam a volatilidade dos mercados, mas não mudam fundamentalmente a situação económica internacional. A lógica de abrir mais e mais fronteiras comerciais findou com a crise de 2008. Os últimos desenvolvimentos simplesmente confirmam esta situação. Essas tensões comerciais também reforçam a nossa estratégia de investimento para favorecer países que beneficiam das suas próprias dinâmicas internas. Na esfera emergente, há países que podem contar bastante com o mercado interno, como a China e a Indonésia.

 

Setores atingidos

 

Embora as medidas protecionistas possam ter impactos generalizados, há setores mais expostos. Em bolsa, houve empresas que reagiram mais negativamente ao anúncio do Presidente Trump de aumentar tarifas sobre as importações e às observações sobre o número de carros estrangeiros nas ruas americanas. No entanto, a queda (limitada) dos setores apontados pelo inquilino da Casa Branca deve ser relativizada porque alguns já haviam subido consideravelmente nos meses anteriores. E, claramente, algumas cotações reagiram exageradamente às intenções do Presidente.

 

Aço europeu na linha da frente

 

O setor siderúrgico europeu reagiu negativamente às observações do Presidente dos EUA. Na Europa, as grandes siderúrgicas já manifestaram as suas preocupações. As exportações de aço para os Estados Unidos (5 milhões de toneladas em 2017) cairiam para metade, de acordo com a associação Eurofer, ou seja, 1,5% da produção de 2017. Um valor gerível, mas o problema não fica por aí. Barreiras tarifárias mais elevadas nos EUA redirecionariam mais aço para os mercados europeus. A menos que a União Europeia crie novas barreiras. Estima-se que 20 milhões de toneladas de aço (15% do consumo europeu) teriam de encontrar um novo destino. O impacto dessas tarifas na ArcelorMittal é mais incerto, dado que a empresa europeia já possui forte presença na América do Norte. Por sua vez, a americana Schnitzer Steel está a um nível atrativo e beneficia do crescimento económico dos EUA.

 

Receios na indústria automóvel

 

O espetro de uma guerra comercial também preocupa os construtores automóveis. O Presidente dos EUA já ameaçou impor tarifas mais elevadas às importações de carros europeus. Atualmente, os Estados Unidos são um colossal mercado de exportação para os fabricantes europeus em termos de volumes (20% das exportações da UE, em 2017) e de valor (29%).

Os fabricantes franceses Peugeot e Renault estão pouco presentes nos EUA e, portanto, seriam menos afetados. Se Washington avançar com as ameaças, os fabricantes alemães sofrerão o maior impacto. No entanto, é preciso referir que esses construtores têm uma grande base industrial nos Estados Unidos.

A maior fábrica da BMW (17% da produção total) é em Spartanburg, na Carolina do Sul. Esta presença permitirá que os grupos germânicos aumentem a produção americana e limitem o impacto de possíveis barreiras protecionistas. Além disso, a imposição de tarifas ao aço e alumínio aumentará o custo de produção de um veículo em cerca de 200 dólares. Só que os preços do aço têm aumentado há meses e os fabricantes já tiveram que se adaptar. Além disso, as marcas de luxo como a BMW e a Daimler podem, graças à sua imagem de gama alta, passar mais facilmente o aumento do preço das matérias-primas aos seus clientes. Aliás, a indústria tem outras preocupações maiores como o dieselgate, o Brexit e a necessidade de desenvolvimento de veículos elétricos.

 

Aeronáutica preparada

 

Na aeronáutica, as tarifas mais altas sobre alumínio, cujo preço está em alta há muitos meses, aumentaria mais os custos de produção, por exemplo, da Boeing, mas seriam limitados. O alumínio representa entre 15% e 20% dos custos de produção dos modelos antigos e menos de 10% para os mais recentes, como o 787, que privilegia materiais compósitos. O principal impacto de um agravamento da guerra comercial surge do facto de a Boeing depender muito do mercado chinês: 25% das entregas de aeronaves em 2017 foram feitas na China.

 

Tecnologia interdependente

 

O setor de tecnologia não seria diretamente afetado pelos novos impostos anunciados por Trump, mas um endurecimento da guerra comercial teria sérias consequências. A eletrónica de consumo pode estar na mira do Presidente devido ao facto de as empresas chinesas estarem a ganhar quota de mercado nos EUA, como a Huawei e a Xiaomi. Se forem alvo de tarifas, os grupos americanos sofreriam retaliações do mesmo tipo na China.

A Apple já gera 20% do volume de negócios na China e poderia sair penalizada. Aliás, a maioria dos gigantes americanos especializados em equipamentos eletrónicos de consumo subcontratam empresas na Ásia, principalmente chinesas, para montar os seus produtos com custos mais baixos.

Uma escalada das tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China seria suscetível de perturbar essa cadeia de produção em detrimento de todos.

 

Distribuição alimentar

 

As medidas protecionistas dos Estados Unidos não terão realmente um grande impacto no setor de distribuição alimentar dado que os produtos vendidos são principalmente locais. Para a gigante americana Walmart e para a belga-holandesa Ahold Delhaize, com mais de 60% do volume de negócios nos EUA, o impacto certamente será muito limitado. O grupo francês Carrefour, por sua vez, não está ativo nos Estados Unidos.

Conteúdo reservado para subscritores X

Vantagens exclusivas

  • Conselhos isentos
  • Avaliação de produtos financeiros
  • Carteiras de ações e de fundos

"Sigo os conselhos da Proteste Investe e, este ano, estou a ter uma rentabilidade de 5% na minha carteira de investimento."