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Supermercados autónomos: testámos o Big Brother das compras

Entrar na loja, pôr as compras no saco e sair, usando apenas um telemóvel. Fomos testar os primeiros Grab&Go que abriram em Portugal e comparar preços com as lojas tradicionais físicas e online.

  • Dossiê técnico
  • António Alves e Susana Pereira
  • Texto
  • Maria João Amorim
19 agosto 2021
  • Dossiê técnico
  • António Alves e Susana Pereira
  • Texto
  • Maria João Amorim
pessoa a passar um código QR num pórtico

João Ribeiro

Para entrar é preciso passar um código QR num leitor, os cestos de compras são virtuais e as caixas registadoras estão dispensadas. Nuns casos, os telemóveis têm de andar sempre na mão a registar tudo o que é comprado; noutros, nem isso é necessário. Não há filas para pagar. É entrar, pôr as compras no saco e sair.

Os primeiros supermercados autónomos em Portugal abriram os pórticos em Lisboa e em Carcavelos, no concelho de Cascais. No Continente Labs, são as câmaras e os sensores instalados na loja que vigiam e registam tudo o que é adquirido. No Pingo Doce GO NOVA, do campus universitário da Nova School of Business and Economics, é a app de telemóvel que facilita a vida ao cliente avesso a filas e caixas registadoras. Fomos testar.

Antes de entrar: instale as apps necessárias para não ficar à porta

Primeira paragem: Continente Labs, início de julho, um supermercado nascido de uma parceria entre a Sonae e a start-up nacional Sensei, que desenvolve tecnologia para o retalho, de forma a transformar lojas físicas em lojas autónomas. As comuns portas largas automáticas deram lugar a uns elegantes pórticos, cromados, que se abrem de par em par, para que os clientes possam entrar. Mas há que saber a primeira regra dos também apelidados supermercados smart. É necessário ter um “passe”. Ou seja, uma aplicação de telemóvel para o consumidor fazer a autenticação no pórtico e conseguir entrar.

No caso do Continente Labs, são necessárias duas apps, ambas disponíveis para Android e iOS: a do Cartão Continente, com fatura eletrónica e meio de pagamento associados (contra: não permite MB Way), e a do Continente Labs, que disponibiliza o código QR (código de barras bidimensional), que permite a entrada na loja. Achámos o processo de instalação destas apps algo demorado, pior ainda se o telemóvel não for muito recente. Testemunhámos também a desistência de potenciais clientes à porta, face a estas exigências tecnológicas.

Mas, instaladas as apps, entrámos no supermercado e foi impossível não reparar nas centenas de câmaras (240, segundo nos referiram) instaladas no teto. São essas câmaras que detetam cada cliente que entra e monitorizam todos os seus movimentos e interações com os produtos à venda na loja.

O Big Brother que tudo regista

A primeira descoberta tecnológica foi que não teríamos de fazer as compras de telemóvel na mão. Tudo o que é retirado das prateleiras é automaticamente detetado pelo sistema, sem que o cliente tenha qualquer tarefa adicional. Isto porque o sistema identifica o formato e o peso dos artigos e cruza essa informação com a localização expectável dos produtos na loja, conseguindo assim determinar com precisão o que é que o cliente está a levar.

Não detetámos erros na identificação dos artigos que comprámos. Mas recomendamos que se confira sempre a fatura depois de sair da loja. É que no Continente Labs, e esta é uma nota negativa, neste momento, não é possível acompanhar o carrinho virtual na app durante as compras.

Se quiser devolver algum produto à prateleira, o "Big Brother" do Continente Labs também deteta estas situações e regista tudo o que foi devolvido. Testámos várias devoluções e verificámos que assim foi: o sistema funcionou bem.

Se quiser ir às compras com alguém que não tenha nenhuma das apps exigidas para entrar na loja, passa o código QR para o seu acompanhante entrar e ambos passam a ser monitorizados como clientes individuais. O sistema depois agrega as compras numa fatura só.

Pormenores high tech:

  • as prateleiras do Continente Labs são simultaneamente balanças. São altamente sensíveis e integram o sistema que identifica os produtos retirados pelos clientes;
  • as etiquetas com os preços são eletrónicas, mas o consumidor não precisa de usar o telemóvel e a app para registar os artigos que leva. Tudo o que é retirado das prateleiras é automaticamente detetado pelo sistema.

Sair sem ter de ficar na fila para pagar

Para sair do Continente Labs com as compras no saco, basta isso mesmo: sair. Não há caixas registadoras. Logo, não há filas para pagar e não precisa de dinheiro vivo ou de cartões físicos. O sistema de faturação “invisível” da loja trabalha por si. Assim que passar o pórtico de saída, o pagamento será processado em minutos e a fatura ficará disponível na app Continente Labs. É enviada também por e-mail. Não é necessário passar o código QR no pórtico.

Conceito semelhante às lojas autónomas Amazon Go

Embora inovador para a realidade nacional, este conceito não é novo. A tecnologia para criar as lojas grab and go (pegar e sair) já foi desenvolvida e implementada pela gigante Amazon, com a criação das famosas Amazon Go.

Mas a Sensei veio para dar luta. Em 2019, a agência Bloomberg descrevia-a como “uma concorrente invulgar” ao poderio da empresa de Jeff Bezos neste tipo de tecnologia para o retalho.

App Continente Labs para Android: bloqueios a mais

Na nossa análise à usabilidade da app Continente Labs, contámos vários problemas de estabilidade na versão para Android. A app deixou de responder diversas vezes. E, para o teste, usámos um telemóvel relativamente recente, um Samsung S10+, no qual corre a versão mais atual daquele sistema operativo, o Android 11. No entanto, para a apresentação do código QR e consulta de faturas, a app não revelou problemas.

Quanto às permissões solicitadas, nada do que é pedido pela app nos pareceu desajustado, tendo em conta o fim a que se destina. Os termos e condições e as perguntas frequentemente colocadas são apresentados de forma relativamente clara.

Poupar tempo no Pingo Doce GO NOVA

“Faço apenas algumas compras, como produtos para o pequeno-almoço ou para o almoço, mas acabo por ir todos os dias, para buscar café.” Helena Pires, gestora de projetos de ciência na Nova School of Business and Economics, é assídua frequentadora do Pingo Doce GO NOVA e confessa-se uma “apaixonada” por este grab and go que tanto tempo lhe tem poupado. “É, literalmente, pegar nos produtos e sair.”

A app Pingo Doce & GO NOVA, necessária para entrar na loja e adicionar os artigos ao carrinho de compras virtual, é fácil de usar, descreve Helena, e bastante intuitiva para quem está habituado a usar apps e a fazer compras online. É só apontar o telemóvel para a etiqueta eletrónica do produto, e os artigos vão enchendo o carrinho virtual, através da leitura do código de barras pelo código QR da app ou via tecnologia Near Field Communication (NFC).

Da nossa análise, concluímos também que, quanto às permissões solicitadas, não há pedidos desajustados à finalidade da app. Os termos e condições e as perguntas colocadas são apresentados de forma relativamente clara.

Muito positivo: o cliente consegue acompanhar o carrinho virtual na app. E também de louvar: não é obrigatório associar um meio de pagamento à app Pingo Doce & GO NOVA (pode pagar num balcão para o efeito à saída). Mas, para ter ainda mais minutos livres, Helena associou o Moey! e o MB Way.

No fim das compras é só clicar em “pagar”. Um contra, desabafa Helena: “Cada compra equivale a uma fatura, que depois vai para o e-fatura numa categoria por determinar e é preciso validar uma a uma. É uma seca...”

E o maior contra de todos, verificámos nós: se quiser devolver algum produto depois de o adicionar ao carrinho virtual, tem de ser rápido: só tem dez segundos. Se deixar passar o tempo, é preciso chamar um funcionário. Ou seja, high tech, ma non troppo.

Supermercados autónomos vendem mais caro?

Comparando com as lojas físicas mais próximas do Continente Labs e do Pingo Doce GO NOVA e com a loja online de cada insígnia, considerando uma morada perto de ambos os supermercados autónomos, seriam os smarts mais caros? Mais baratos? Sem diferenças nos preços dos artigos? Ambas as lojas são ideais para pequenas compras, não para abastecer a despensa para um mês.

Compusemos um cabaz de 26 produtos (marca própria e de fabricante) e fomos às compras, sendo que nas lojas online fizemos apenas simulações e nas físicas nem todos os artigos foram encontrados. Comparámos o preço de cada produto comprado nas lojas consideradas no estudo.

Conclusão? Considerando apenas os produtos comparáveis, ou seja, exatamente iguais, os preços diferem em meros cêntimos. Boas notícias, portanto, para quem sonhava com o dia em que nunca mais ficaria com cãibras de tanto esperar em filas para pagar as compras no supermercado. As lojas do futuro já chegaram ao presente.

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