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Visões do Futuro em Arouca: a floresta contra as alterações climáticas

Os incêndios, as alterações climáticas, os carros elétricos e os transportes públicos dominaram a conferência Visões do Futuro, em Arouca.

  • Texto
  • Nuno César
14 outubro 2019
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  • Nuno César
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Victor Machado

Os erros da floresta nacional, as frequentes ondas de calor, o aumento da temperatura e o ainda elevado preço dos carros elétricos foram os grandes destaques da conferência Visões do Futuro, a 11 de outubro, na Loja Interativa do Turismo de Arouca. A ação continua em Lisboa nesta 6.ª feira com a grande conferência Visões do Futuro, no pavilhão Carlos Lopes. Convidamos todos os consumidores a inovar e a participar no principal evento do ano dedicado à mobilidade, sustentabilidade e vida saudável.

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Consumidores de todas as idades, dos 12 aos 82 anos, encheram o auditório. António Tavares, vice-presidente da Câmara Municipal de Arouca, abriu a sessão da melhor maneira face à urgência do tema: “as alterações climáticas são o tema no topo da agenda mundial e estamos focados em explorar as boas práticas em vigor na região”. O autarca arouquense sublinhou: “As alterações climáticas são a maior ameaça que enfrentamos e todos, cidadãos, empresas, governos, economias, a natureza e a biodiversidade, estamos a ser afetados. Impõe-se conhecer, preparar, antecipar e agir, procurando minimizar as consequências”.

Consumidores dos 12 aos 82 anos encheram o auditório e enriqueceram o debate. 
Consumidores dos 12 aos 82 anos encheram o auditório e enriqueceram o debate.

Rita Rodrigues, responsável das Relações Institucionais da DECO PROTESTE, destacou o exemplo de Arouca pela ligação à natureza e pela juventude ali presente que já percebeu que é o principal motor de mudança. “Com a integração desta visão de futuro no contexto local, Arouca projeta um mundo mais sustentável”, garantiu Rita Rodrigues.

Carlos Fonseca, professor do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, abrilhantou o debate com uma apresentação focada no ambiente, na floresta e nos cenários de futuro que podemos construir. Lembrou os principais sinais de alerta na transformação da vida selvagem e da floresta em Portugal ao longo dos séculos. Poucos acreditam hoje que, no passado, o urso pardo e o lobo ibérico coabitavam na nossa paisagem, muito mais rica do que é hoje. A invasão do eucalipto, uma espécie exótica, começou em meados do século passado e hoje sobra pouco da floresta original, “sendo flagrante o desordenamento da nossa floresta, que era tão rica em carvalhos e castanheiros, por exemplo”, criticou Carlos Fonseca.

“Depois do incêndio de Pedrógão Grande, nada mudou de relevante na floresta nacional”, alerta Carlos Fonseca. 
“Depois do incêndio de Pedrógão Grande, nada mudou de relevante na floresta nacional”, alerta Carlos Fonseca, professor da Universidade de Aveiro.

Com todos os factos a seu favor, Carlos Fonseca conquistou a audiência. No estudo que realizou sobre a evolução da floresta, apontou que 40% dos proprietários dos terrenos têm mais de 65 anos e o risco de abandono é de 75 por cento. Os milhares de hectares ardidos nos últimos anos são a prova das grandes transformações na paisagem vegetal nacional.

“Para agravar este cenário de contrastes, 97% da floresta é privada num país retalhado do ponto de vista florestal e ambiental”, acusou o professor Carlos Fonseca que exige uma visão diferenciadora para acabar de vez com incêndios e fenómenos como aqueles que abalaram o país em junho de 2017. Carlos Fonseca sabe do que fala. Foi um dos 12 peritos escolhidos para a Comissão Técnica Independente que analisou os incêndios.

“O que vai ser o mundo rural daqui para a frente?”, é a pergunta do povo real que mais sofreu com a situação e continua sem respostas. O professor vai mais longe no exame: “esperávamos que 2017 trouxesse mudanças. Procurámos, mas só encontramos exemplos no sentido oposto, como o abandono total no norte e centro do País. Se nada for feito, estes eventos extraordinários vão repetir-se.”

O medronheiro pode salvar a floresta e projetar o turismo

“A floresta é a nossa vida”, atacou Carlos Fonseca, que não abandonou o palco de Arouca sem recomendar pistas e cenários para melhorar esta visão de futuro. Utilizou mesmo o seu projeto pessoal fundamentado em conhecimento científico para demonstrar que a mudança é possível. Uma das pistas que lançou é a aposta clara na diferenciação da floresta. Por exemplo, o medronheiro, nacional e autóctone, tem uma grande capacidade de regeneração. A maioria já ouviu falar ou provou a aguardente de medronho, mas poucos consumidores sabem do uso múltiplo do medronho (por exemplo, como fruto fresco de consumo bom para a saúde e até com aplicações na cosmética). O projeto Medronheiro – Terras de Mondalva foi apresentado como exemplo de proteção do mundo rural com emprego e fixação de pessoas na proteção da floresta com impacto no país e no mundo. Os hóspedes colaboram na apanha do medronho. As perguntas na audiência não tardaram, questionando a aplicação destas ideias na vida real, quando faltam colaboradores para cuidar dos montes. Mas ninguém ficou sem resposta.

“Não há Arouca B”

Augusto Madureira, conhecido jornalista da televisão, moderou o principal debate em Arouca, dedicado ao desafio das alterações climáticas para a humanidade. A discussão contou com um painel de luxo: Henrique Sánchez, presidente da Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos, António Duarte, coordenador do Arouca Geopark, Rui Berkemeier, especialista em resíduos e membro da ZERO, e Bruno Santos, das relações institucionais da DECO PROTESTE.

Henrique Sánchez viaja em carros elétricos desde 2011. Foi o único a esticar o braço à pergunta “Quem chegou a Arouca de elétrico?” 
Henrique Sánchez viaja em carros elétricos desde 2011. Foi o único a esticar o braço à pergunta “Quem chegou aqui de elétrico?”
O debate aqueceu logo com a primeira questão do moderador: “quem é que hoje chegou a Arouca de automóvel elétrico?” Apenas dois consumidores na levantam o braço. Henrique Sánchez está na linha da frente. Viaja em carros elétricos desde 2011 e passou por muitas dificuldades relacionadas com o carregamento e a autonomia dos modelos. “No carro elétrico, não há desgaste de peças. Quando o modelo sai do stande já não volta ao stande”, garante Henrique que vê com satisfação o aumento histórico de vendas de carros elétricos

Henrique Sánchez admite que não é fácil dar uma oportunidade aos automóveis. Vê com agrado a recente utilização de autocarros 100% elétricos em Braga, Coimbra, Guimarães e, em fase experimental, já em Lisboa e Porto.

António Duarte destacou que o Arouca Geopark pretende afirmar-se cada vez mais como destino sustentável e garante que está a trabalhar para melhorar a rede local e os acessos, que ainda deixam muito a desejar. Fã dos transportes públicos, Rui Berkemeier não deixou de brincar com a situação: “Tive de apanhar três autocarros para chegar aqui, mas fi-lo com prazer. Saí às 3 horas da madrugada para chegar às 9 horas a tempo das Visões do Futuro em Arouca”. Aproveitou também para valorizar a recente medida dos passes sociais, mas esta ficou aquém do esperado.
Rui Berkemeier criticou a falta de mecanismos económicos para incentivar bons hábitos. 
Rui Berkemeier criticou a falta de mecanismos económicos para incentivar bons hábitos.
“Somos todos consumidores de ambiente”, atirou Rui Berkemeier, que criticou a falta de mecanismos económicos para incentivar bons hábitos dos consumidores. “Como tal, os maus comportamentos ambientais devem ser penalizados economicamente”. A vertente económica pode guiar escolhas mais amigas do ambiente. Todos os esforços nesta matéria arriscam cair por terra, quando vemos circular na net as imagens do carro da Câmara Municipal de Lisboa a misturar os resíduos dos ecopontos no lixo indiferenciado. Rui já denunciou esta situação caricata e garante que foi pontual: “99% dos resíduos vão parar ao destino correto. Caso contrário, as câmaras não recebem as devidas comissões”.

Rui Berkemeier recomendou a aposta na compostagem doméstica em Arouca e desafiou todos os consumidores. O facto de viver num 8.º piso em Lisboa não o impede de fazer compostagem do seu lixo orgânico em casa. “Ter cada cidadão a tratar dos seus resíduos é uma solução muito mais interessante do ponto de vista económico. Fica bem mais em conta do que as câmaras continuarem a pagar pelo transporte dos resíduos para aterro”.
Rita Rodrigues, da DECO PROTESTE, desafiou os jovens de Arouca a provar todos os dias que são o motor da mudança. 
Rita Rodrigues, da DECO PROTESTE, desafiou os jovens de Arouca a provar todos os dias que são o motor da mudança.

Rita Rodrigues, da DECO PROTESTE, pegou no grito de guerra das gerações mais novas “Não há planeta B” para desafiar alunos, professores, filhos e pais a continuar este debate em casa. A defesa do planeta está na moda, mas a mudança não se faz apenas à 6.ª feira numa manifestação. Deve ser provocada todos os dias. A DECO PROTESTE promete partilhar os constrangimentos da realidade local de Arouca e de outras regiões para influenciar os decisores políticos. “Hoje, foi um dia histórico. Arouca é um exemplo para Portugal e para o mundo”, rematou.

 

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