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Vida saudável: serão todas as estratégias válidas?

Exercício físico, mente, imagem e envelhecimento: a forma como os encaramos é a mais saudável? Os caminhos para uma vida saudável estiveram em debate nas conferências Visões do Futuro. 

  • Texto
  • Deonilde Lourenço e Fátima Ramos
29 outubro 2019
  • Texto
  • Deonilde Lourenço e Fátima Ramos
visoes do futuro

Victor Machado

O termo “vida saudável”, tão em voga, encerra em si mesmo só caminhos saudáveis? Serão todas as estratégias para viver a muito propagada vida saudável assim tão salutares? Mergulhamos e aceitamos a filosofia do exercício físico, dos alimentos da moda e da imagem perfeita, mas onde fica realmente o que sentimos? Ágata Roquette, nutricionista, Eduardo Sá, psicólogo clínico, Stefan de Moncada, do SystemaMoncada, e Miguel Teixeira, da Everis Portugal, com moderação da jornalista Marta Atalaya, discutiram os matizes daquele conceito na conferência “Os vícios são a nossa última virtude?”, inserida no evento Visões do Futuro, que teve lugar no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, a 18 de outubro último.

“A tristeza é o melhor antidepressivo”

Eduardo Sá posicionou-se em contracorrente com a forma inquestionável como o conceito de vida saudável é vendido nos dias de hoje. O ginásio, o Facebook, o Instagram e as suas imagens fabricadas, num contexto de vida saudável, assustam o psicólogo clínico, que agitou no ar perguntas incómodas. “Onde fica a mente sã? Tenho medo que tenhamos crescido com uma ideia equivocada sobre o corpo. A mente é como um cão de guarda em relação ao corpo. As nossas emoções, que são um sistema imunitário puro, são essenciais. Quando o corpo e a mente se tocam temos as emoções. Receio que as estratégias saudáveis sejam paradoxais.” Uma certa ditadura da “vida positiva e alegre” soa-lhe a falso. ”A tristeza é o melhor antidepressivo do mundo”, assegura. Há, portanto, que encarar as emoções e não fugir-lhes. 

 
Da esquerda para a direita, Stefan de Moncada, do SystemaMoncada, Miguel Teixeira, da Everis Portugal, a moderadora e jornalista Marta Atalaya, Eduardo Sá, psicólogo clínico, e Ágata Roquette, nutricionista, debateram as várias formas com que se reveste a denominada vida saudável. 
“A vida não é só dieta”, defendeu Ágata Roquette, nutricionista. “Tento que o plano seja flexível. Há sempre um dia livre para os meus pacientes comerem o que lhes dá mais prazer”. Uma posição à qual não será indiferente uma adolescência marcada pela bulimia, doença que ultrapassou e que a fez valorizar um corpo não demasiado magro. Chegam-lhe ao consultório pacientes com várias patologias, como obesidade e tensão alta. “O que é positivo”, salienta, pois isso significa que a nutrição não tem um papel confinado a dietas para emagrecer. Já quanto à gestão da imagem exibida nas redes sociais, critica a seleção e a adulteração das fotografias partilhadas: “As pessoas filtram e alteram a sua imagem”. Questão sobre a qual conta com o apoio de Eduardo Sá: “É uma catástrofe. Não temos tempo para meditar e falar com as pessoas que nos rodeiam, mas temos tempo para nos esticar no Instagram”.
 
Eduardo Sá, em contracorrente com o entusiasmo face ao conceito de vida saudável, receia que "as estratégias saudáveis sejam paradoxais".

O desporto para o corpo e para a mente

Miguel Teixeira, empresário, praticante de triatlo, explicou que “esta atividade lhe permite manter o equilíbrio e a resiliência”, e nela encontra um paralelismo com a atividade profissional nos seus desafios. E se não fizer desporto? É um vício? “Sim, a partir de certa altura. Há dias durante os quais não faço desporto propositadamente, quando estou muito cansado, por exemplo. Mas sempre que posso, faço. Sim, é um vício. Mas é mau? Não. Ajuda-me a ultrapassar a tensão do trabalho”, assegura.

“Não há nenhuma meta. A tarefa do professor é ajudar o outro a ser humano e a encontrar o seu estilo”, afirma Stefan de Moncada sobre as premissas do Systema, arte marcial russa criada nos anos 90, que se baseia em “princípios e não em técnicas”. E onde encaixa o conceito de vida saudável neste desporto? O foco não se centra apenas na parte física. Stefan, responsável pela escola SystemaMoncada, concretiza: “O objetivo é libertar o corpo e a mente das tensões. Pretende-se minimizar os efeitos do stresse. Ao mesmo tempo, conhecer-se a si mesmo ao treinar com os outros”.

Desta discussão paralela das Visões do Futuro nasceu alguma luz. Há vários caminhos para alcançar uma vida saudável. Mas esta não pode ser confundida só com uma bela cara ou corpo para exibir nas redes sociais, como alertou Eduardo Sá. Voltamos ao início: onde fica o que realmente sentimos?

Pressão social molda imagem

E com esta dúvida seguimos para a sessão da tarde, dedicada a estilos de vida e qualidade de vida. A mesma jornalista guiou a conversa entre Frederico Lopes, investigador da Faculdade de Motricidade Humana, Ibérico Nogueira, cirurgião plástico, Leilane Ferreira, autora do blog Mulher XL e Vítor Cotovio, psicoterapeuta.

 

 
 
Da esquerda para a direita, Vitor Cotovio, psicoterapeuta, Leilane Ferreira, do blog Mulher XL, Marta Atalaya, jornalista e moderadora do painel, Ibérico Nogueira, cirurgião plástico, e Frederico Lopes, da Faculdade de Motricidade Humana.
 

Apesar de fazer do aperfeiçoamento do corpo do outros ou, sobretudo, das outras, a sua forma de vida, Ibérico Nogueira tem consciência de que, muitas vezes, sob a capa de uma imperfeição estética, estão uma série de outros problemas. “Recorrem à cirurgia porque querem recuperar o marido ou o namorado, ambicionam aceder a determinada profissão... ou seja, questões que nada têm que ver com a estética”, explica o cirurgião. Para este profissional, é particularmente preocupante ver entrar no consultório cada vez mais adolescentes à procura de transformações do corpo. “As miúdas são muito influenciadas pelas influencers das redes sociais. Chegam já com um plano traçado”, conta, rematando que a cirurgia estética é desaconselhada para esta faixa etária.

Leilane Ferreira chamou a si a missão de mostrar que um corpo bonito não tem de encaixar na moldura do estereótipo. “Uma mulher com uns quilos a mais não deve esconder-se. Pode, inclusivamente, vestir roupas justas. As formas são diferentes, num corpo magro ou gordo. Num e no outro há peças que assentam melhor que outras”, defende a blogger. 

Que o  controlo do peso se faça por questões de saúde e não por pressão social ou para imitar alguém que se esconde atrás de um ecrã. A ideia é de Vítor Cotovio, que considera problemáticas as situações em que “a identidade depende da aparência. Se a autoestima estiver muito dependente do exterior, a pessoa vive por balões de oxigénio. ”Para este psicoterapeuta, é importante educar para a “motivação intrínseca”. E educar implica capacidade crítica na construção da identidade, “calibrando as tecnologias digitais com tudo o que o ser humano tem de essencial.”

 
“Hoje, as crianças veem os espaços pela janela do carro ou através do ecrã”, analisa Frederico Lopes, investigador.
Na mesma linha, Frederico Lopes defende que os mais novos têm de se encontrar de novo com a natureza e aprender a ligar com a imprevisibilidade real. “Hoje, as crianças veem os espaços pela janela do carro ou através do ecrã”, exemplifica. É preciso devolver-lhes espaço e tempo para que encarnem o papel de super-heróis, para que se exponham ao risco e aprendam a lidar com os obstáculos. É a brincar que constroem o próprio espaço. “Para ser competente enquanto adulto, também tenho de o ter sido na infância”, argumenta o investigador.

“A criança tem de correr riscos para aprender a gerir a sua liberdade. Se isso não acontecer, qualquer populista ou ditador a convence, porque lhe dará a sensação de segurança que não tem”, complementa Vítor Cotovio.

 

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