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Torne o seu guarda-roupa sustentável

Entrevista a Rafael Más, da Humana Portugal

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Rafael Más é o responsável do departamento de comunicação e projetos da Humana em Portugal. Esta associação humanitária, presente em vários países, é responsável pela recolha de roupa usada em contentores e pelo reencaminhamento para a reciclagem. Gere ainda lojas de venda de roupa em segunda mão. 

Em Portugal, estima-se que se deitem para o lixo 200 mil toneladas de têxteis por ano. Que soluções se pode encontrar para este problema?

Não há uma solução única para atacar o problema. É evidente que o modelo de consumo de têxteis criado pela nossa sociedade não tem reflexo nos sistemas de gestão de resíduos, nem noutras cadeias de valor. A Humana oferece parte da solução, fomentando as doações de roupa usada, para evitar que acabe depositada nos caixotes do lixo e que os têxteis sejam deitados fora, através da venda em lojas second hand.

Estima-se que 40% do nosso guarda-roupa nem sequer seja usado. Como se pode reverter hábitos tão enraizados?

O hiperconsumo de têxteis é uma imagem fiel da nossa sociedade. É incentivado pelas grandes empresas, que são muito eficientes ao nível produtivo, mas ineficazes ao nível do ambiente. Isto gera roupa barata, fabricada por um pobre, que é consumida por outro pobre, a milhares de quilómetros de distância e com um custo ambiental enorme para o planeta. Reverter este processo é complicado, e passa por uma consciencialização da população, vigilância ambiental e transparência máxima da indústria.

Que mais promove a Humana no sentido de tornar este mercado mais sustentável?

Evita que os têxteis acabem no contentor do lixo. Seis em cada 10 peças de roupa compradas numa loja second hand não são adquiridas em estabelecimentos convencionais. A Humana também promove o arranjo das peças de roupa, com informação concreta para os seus subscritores e, em geral, todos os processos que levem a alargar o tempo de uso de têxteis já fabricados.

Prevê-se que, ainda este ano, se criem estruturas para a reciclagem de roupa. Como vê esta possibilidade?

Existem muitos projetos que trabalham nessa área, mas a principal dificuldade está na separação de fibras têxteis em roupa usada, que têm misturas de vários produtos. Além disso, os  processos implementados até agora representam custos muito grandes e, por isso, continua a ser mais interessante fabricar roupa com fibras novas, e não com recicladas. Ainda estamos longe de esta possibilidade ser rentável. Se o consumidor estará disposto a pagar mais por este produto de valor ambiental acrescentado, é outro assunto.

Ao mesmo tempo, a mão-de-obra empregada na indústria é das mais baratas do mundo, numa atividade muito desregulamentada. A Humana também está atenta a este fenómeno?

Com certeza. Uma moda barata para o consumidor, mas cara em relação ao uso de recursos ambientais e laborais, não interessa. Até porque isso se reflete numa pior qualidade das peças de roupa e numa menor possibilidade de as reutilizar. Pensamos que o fenómeno da fast fashion deve acabar, na sequência da catarse da pandemia da covid-19. Há que repensar processos e criar produtos que tenham em conta todo o valor, incluindo o laboral. Há que fabricar menos e com mais qualidade.