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Torne o seu guarda-roupa sustentável

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A roupa que usamos e descartamos representa uma pegada ecológica de 654 kg por cada cidadão da Europa. Temos de tentar usar o nosso vestuário por mais tempo, doá-lo quando já não o usarmos e despirmo-nos de vez da fast fashion.

  • Dossiê técnico
  • Sílvia Menezes
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Nuno César
15 junho 2020
  • Dossiê técnico
  • Sílvia Menezes
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Nuno César
Ilustração de t-shirt com relva a simbolizar roupa sustentável

iStock

A nova tendência da moda este ano - e, esperamos, nos tempos mais próximos - é trocarmos de roupa pelo ambiente. O verde é o novo preto. Temos de fazer a roupa durar. Se o ritmo do regresso à vida devido à pandemia o permitir, será possível começarmos a separar e a reciclar roupa. Uma nova diretiva europeia do quadro de resíduos vai tornar obrigatória a recolha seletiva dos têxteis, que terá de estar aplicada em pleno em janeiro de 2025. A Agência Portuguesa do Ambiente e o Ministério do Ambiente vão definir em que moldes poderá ser feita a transformação. 

Os contentores para recolha de roupa usada e têxteis, em geral, deixarão de ser apenas aqueles que existem graças a iniciativas de algumas organizações sem fins lucrativos ou de municípios que arregaçaram as mangas mais cedo.

Conheça o movimento pela sustentabilidade

Pegada ecológica da roupa

As estatísticas falam por si: “Nos últimos 15 anos, duplicámos a quantidade de roupas que produzimos, e reduzimos pela metade as vezes em que as vestimos antes de as descartarmos”, lê-se num relatório de 2017 da Fundação Ellen MacArthur. 

Segundo a Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa, 40% das roupas que temos no armário não são usadas. Consumimos acima da capacidade do planeta para se renovar. Se, antes, havia duas estações, primavera-verão e outono-inverno, agora, temos o modelo fast fashion. Quase à mesma velocidade da fast food, este estilo de vida caracteriza-se por uma rotação constante de coleções, consequência de uma mudança nos hábitos de compra

Mais números para nos deixar a pensar: de acordo com um estudo da Agência Europeia para o Ambiente, a produção e distribuição de vestuário, calçado e de têxteis para o lar comprados pelos europeus em 2017 serviu-se de algo como 1,3 toneladas de matéria-prima e 104 metros cúbicos de água por pessoa. Pior: cerca de 85% desses materiais e 92% dessa água provêm e foram utilizados noutras partes do mundo, à custa de condições laborais abaixo da indigência, muitas vezes empregando menores de idade, a salários que nem chegam para fazer umas cócegas ligeiras no bolso. E, com recursos naturais de outros países, fora do espaço europeu, aproveitando alguma leveza nas legislações locais quanto ao respeito pelo ambiente e pelos recursos naturais.

Tudo isto se traduz numa pegada ecológica de 654 kg (de CO2 equivalente) por cada cidadão da UE. A roupa que usamos e descartamos já é a quarta causa de pressão sobre o ambiente, depois da alimentação, do alojamento e dos transportes. O circuito, do produtor ao consumidor, também é nefasto para o ambiente. Desde 1975, a produção de fibras têxteis quase triplicou e, hoje, 60% são sintéticas. Ao poliéster, a fibra mais usada neste setor, está associada uma tremenda pegada ecológica: requer mais de 70 milhões de barris de petróleo em cada ano. O algodão, por seu lado, necessita de uma enorme área de cultivo e de água, especialmente se for orgânico.

Mas há mais: em 2014, foram produzidas 14 peças de vestuário por pessoa. Hoje, esse número será bem maior. Mais de 3500 substâncias químicas são usadas na produção têxtil e, destas, pelo menos, 750 foram já classificadas como perigosas para a saúde, enquanto 440 o são para o ambiente. Estima-se, também, que cerca de 20% da poluição da água tenha origem nos processos de tinturaria e acabamento das peças, com consequências ao nível da saúde dos trabalhadores e das comunidades locais.
Também a fase de uso e manutenção dos tecidos tem impactos significativos: cerca de meio milhão de toneladas de microplásticos são anualmente lançados no oceano, provenientes da lavagem de tecidos com origem sintética.

E em Portugal? De acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente (dados de 2017), foram recolhidas cerca de 200 756 toneladas de têxteis nos resíduos urbanos, o que representa cerca de 4% do total produzido em Portugal, próximo de 4,75 milhões de toneladas.

Ainda segundo este organismo, se analisarmos o período entre 2011 e 2017, foram deitados ao lixo 1,2 milhões de toneladas de têxteis. Em países de outra escala e de hábitos de hiperconsumo ainda mais enraizados, como os EUA, a conta é assustadora: aqui, são gerados mais de 15 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, e apenas 2,62 milhões são reciclados.

Os conselhos da Associação Humana

Mas estamos a falar de um setor com poder: emprega 1,7 milhões de pessoas só no espaço da UE, distribuídas por 171 mil empresas. No entanto, a relação entre produção e consumo é, no mínimo, desequilibrada: produziu-se, no espaço europeu, apenas 7,4 kg de peças de vestuário por pessoa, para um consumo que chegava quase a 26 kg per capita. Os números são, novamente, de 2017. 

Se o entontecem estes valores, olhe para o seu guarda-roupa, antes de tudo, com espírito crítico. Será, pelo menos, um bom começo. É este um dos grandes conselhos de Rafael Más, responsável pelo Departamento de Comunicação e Projetos da Humana em Portugal, em entrevista. “O principal conselho que se pode dar ao consumidor é que seja crítico, exigente com a indústria e reivindicativo, por um sistema mais justo, em que todos saiam a ganhar”, defende.

Esta associação humanitária, presente em vários países, é responsável pela recolha de roupa usada em contentores e pelo reencaminhamento para a reciclagem. Gere ainda lojas de venda de roupa em segunda mão. Em tempos de pandemia, a consciência das pessoas em relação ao problema, mesmo com limitação de movimentos e deslocações, não parece ter abrandado. “O volume de roupa recolhido aumenta, por norma, no período entre abril e novembro, diminuindo um pouco nos meses de dezembro a março”, explica Sónia Almeida, da Humana. “Este ano, e apesar da pandemia, temos verificado o mesmo comportamento que em anos homólogos, ou seja, não houve qualquer decréscimo no volume de roupa recolhido”. 

Terá que ver com hábitos mais caseiros na fase de confinamento? “O facto de as pessoas também passarem muito mais tempo em casa é bastante propício às comuns arrumações sazonais nos armários”. Talvez por isso, em março, houve uma subida de 10% no volume de têxteis recolhido face ao mesmo período no ano passado.
Se já arrumou guarda-roupas e se desfez de tarecos sem utilidade, pode agora começar, como consumidor, a combater o problema na origem: o seu próprio comportamento quando fica toldado, como referiu Rafael Más, com a primeira t-shirt a 2 euros que lhe aparece pela frente. O aumento do mercado online neste ano marcado pela covid-19 poderá ser útil para nos reciclarmos a nós próprios e voltarmos a ser consumidores, em vez de consumistas. 

E não é necessário ficar com sintomas de privação das compras. Tente ser mais criterioso. Pode gastar um pouco mais, mas ficar com peças mais duradouras, que, pelo menos, ultrapassem uma estação. Se conseguir superar mais do que esse período, melhor ainda. Reutilize a roupa velha: panos de limpeza podem nascer de velhas camisas, por exemplo; toalhas de mesa podem ter tido outra vida e agora renascer para funções diferentes. No fundo, o único limite é o da imaginação. Aquele casaco da estação anterior já não parece ficar bem? Use outro, que já tenha. Na estação seguinte, recupere o anterior. A moda é volúvel como um dia ventoso. Talvez até o seja ainda mais. 

 

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