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Pessoas com mobilidade reduzida enfrentam barreiras

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Maioria dos portugueses com mobilidade reduzida tem dificuldades financeiras para fazer face a despesas de saúde. Vias públicas pouco acessíveis limitam o dia-a-dia. Ainda assim, muitos manifestam satisfação perante a vida.

26 setembro 2017
Mobilidade reduzida

Victor Machado

Casa nem sempre adaptada, pouco dinheiro para suprir as despesas de saúde, pouca ajuda e barreiras arquitetónicas nos percursos e no interior dos edifícios impedem cerca de um terço dos nossos inquiridos de usufruírem de uma vida mais plena. Além disso, nem todas fazem valer os seus direitos. “Há muitas pessoas que os desconhecem. Com frequência, as pessoas tentam fazer as diligências necessárias, mas a desinformação é muito grande nos serviços de Segurança Social e de Finanças e nos centros de saúde.”, acusa Ana Luísa Sezudo, presidente da direção nacional da Associação Portuguesa de Deficientes. O nível de satisfação com a vida revelado pelo nosso estudo, mesmo assim, é positivo. Mais de 40% dos inquiridos com limitações de mobilidade graves, por exemplo, afirmaram estar satisfeitos com a vida.

Entre fevereiro e março últimos, enviámos um questionário a uma amostra da população geral, para conhecermos de que forma os portugueses lidam com limitações ou com incapacidades motoras e a sua opinião sobre barreiras arquitetónicas. Tivemos a ajuda de associações do setor para fazer chegar o questionário aos cidadãos com deficiência motora e sensorial (visual e auditiva). Obtivemos 2854 respostas válidas, 764 das quais de indivíduos com algum tipo de limitação ou de deficiência. Ponderámos as respostas da população geral por sexo, região e nível educacional, para ajustarmos a amostra ao universo dos portugueses entre os 45 e os 85 anos.

Edifícios e transportes pouco acessíveis

Mais de um quarto (27%) dos inquiridos com deficiência sentem dificuldade em aceder ao local de trabalho. Aproximadamente a mesma percentagem já sentiu na pele a discriminação no trabalho. Além de postos de trabalho adaptados, é necessário também uma via pública e transportes coletivos preparados para necessidades especiais. Depender dos transportes públicos não é, muitas vezes, opção, mas a compra de uma viatura própria é só para quem consegue uma vida económica que o permita.

Mais de 40% dos inquiridos com deficiência grave relatam a dificuldade, ou mesmo impossibilidade, em vencer sucessivas barreiras arquitetónicas. As deslocações e a mobilidade no interior de hospitais, de edifícios públicos, de supermercados e de centros comerciais podem tornar-se verdadeiros calvários ou revelar-se mesmo impraticáveis. Um terço indica as paragens de autocarro e o próprio interior dos veículos como inacessíveis. As estações de comboio e de metropolitano apresentam a mesma lacuna, de acordo com 25% destes cidadãos. Os transportes públicos não estão incluídos na legislação das barreiras arquitetónicas. A norma comunitária existente preconiza que a frota de transportes tem de se ir adaptando gradualmente. Outro problema identificado por um quarto dos que responderam ao nosso estudo é a falta de adaptação das casas de banho em edifícios públicos, mas também em restaurantes e em lojas. Passeios, passadeiras e estacionamentos também precisam de melhoramentos, para que as barreiras enfrentadas por quem anda de cadeira de rodas, por exemplo, acabem.

 
Barreiras físicas limitam o acesso a locais fundamentais do dia-a-dia.
 

 
Infraestruturas incontornáveis na vida quotidiana são, frequentemente, inacessíveis.
 

Respeito pouco cultivado

O respeito e a sensibilidade perante a fragilidade de um deficiente motor são atitudes nem sempre cultivadas em Portugal. Os vizinhos são mais sensíveis à situação de quem tem mais dificuldade em deslocar-se, e disponibilizam-se mais vezes para ajudar. Mas, mesmo assim, mais de um terço dos inquiridos com deficiência sente que essa ajuda não é constante. Para mais de um terço dos inquiridos com limitações, é muito frequente o lugar de estacionamento destinado a pessoas com deficiência estar ocupado. Na grande maioria dos casos, os portugueses têm a noção de que nem sempre as pessoas com deficiência são respeitadas nas filas dos supermercados e nos transportes públicos.

Regista-se uma certa incongruência entre a deficiência declarada e a reconhecida oficialmente. Entre os inquiridos que consideram ter alguma limitação motora, apenas metade são oficialmente reconhecidos como pessoas com deficiência. Esta proporção sobe para dois terços entre os portadores de deficiência grave. No entanto, ainda restam muitos casos por reconhecer.

A situação económica da maioria dos portadores de deficiência física não é confortável ao ponto de fazer face, sem problemas, às despesas de saúde decorrentes da sua condição. Cerca de 45% asseguram ser difícil suportar as despesas diárias relacionadas com a sua condição. Apenas três em 10 portugueses nesta situação declaram não enfrentar dificuldades. Apenas um quarto dos inquiridos que se classificam como portadores de deficiência recebem ajuda económica, que ronda, em média, € 512 por mês. Na maioria destes casos, a verba não chega para pagar sequer metade das despesas relacionadas com o problema de saúde.  

Casa desadaptada para um terço

Movimentar-se dentro de casa nem sempre é um exercício fácil para mais de 40% das pessoas com incapacidade. Cerca de um terço revela sentir a necessidade de equipamentos ou de infraestruturas específicas para auxiliar a mobilidade. Banheira e casa de banho adaptadas, elevador ou mecanismos de elevação, corrimões e rampas são as infraestruturas mais prementes e, nalguns casos, um sistema de chamada de emergência. A falta de dinheiro é a principal razão apontada para uma habitação pouco cómoda para alguém com limitações motoras. As características arquitetónicas da própria casa e o espaço diminuto são outros motivos apontados. 

Comer, vestir e despir. Ir à casa de banho e tratar da higiene. Limpar a casa e cozinhar. Trabalhar e ir ao cinema. Atividades rotineiras para tanta gente, mas uma miragem para quem sofre de deficiência motora. Além disso, desenvolver e manter uma atividade profissional é muito difícil, ou mesmo impossível, para cerca de 45% dos inquiridos. Existe uma percentagem considerável com deficiência grave que não consegue realizar, sem precisar de ajuda, tarefas tão básicas como tomar banho ou preparar uma refeição.