Notícias

Parar para pensar: covid-19 agravou a situação dos idosos

De que forma a pandemia veio afetar a vida dos mais velhos? Como encarar o envelhecimento numa sociedade onde se vive cada vez mais tempo? Resumimos as principais questões discutidas na terceira sessão do ciclo de conferências Parar para pensar.

  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Filipa Nunes
25 junho 2020
  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Filipa Nunes
Conferência Papar para pensar sobre envelhecimento, uma parceria da DECO PROTESTE e do EXPRESSO

A pandemia de covid-19 afetou profundamente as nossas vidas, sendo o seu impacto, sanitário, naturalmente, mas também social e económico, ainda hoje difícil de avaliar. Uma coisa é, no entanto, certa: como sempre acontece aquando de crises graves, quem sofre mais são os que à partida se encontravam já numa situação de maior vulnerabilidade, nomeadamente os mais velhos.

Pandemia reforçou o isolamento dos idosos

Perante um vírus que, pela sua natureza, representa já à partida um risco maior para a sua saúde, os mais velhos viram-se confrontados com um conjunto de medidas, consideradas necessárias para travar o contágio e para os proteger. O confinamento, o encerramento de espaços públicos, de cafés e do comércio de proximidade, assim como dos centros de dia, vieram fragilizar e isolar mais ainda os idosos.

Tal como referiu Luís Jerónimo, Diretor do Programa Desenvolvimento Sustentável, da Fundação Calouste Gulbenkian, há atualmente meio milhão de idosos que vivem sozinhos. A situação pandémica atual agudizou uma situação que já existia. “Tentámos proteger um grupo mais vulnerável ao risco da pandemia, negligenciando todas as outras dimensões, como a saúde mental, a estimulação cognitiva, etc.”.

Urge, segundo o especialista, melhorar os sistemas de saúde e reforçar o apoio domiciliário. Este deve ir para além das necessidades básicas elementares de alimentação e higiene. Deve integrar outro tipo de acompanhamento, com apoio psicológico e cuidados de saúde e de fisioterapia, entre outros. Luís Jerónimo não tem dúvidas de que o desenvolvimento de uma sociedade se mede, nomeadamente, pela sua capacidade de conciliar a luta contra uma pandemia como a que se vive atualmente e a necessidade de se salvaguardar o bem-estar e o apoio aos mais velhos.

Os lares são inadequados face a uma situação pandémica

Os lares, entendidos por alguns dos participantes como uma solução de fim de vida, foram também eles discutidos, porque assumiram grande protagonismo durante a pandemia. Os vários surtos de infeção que ocorreram neste tipo de instituição mostraram, segundo Constança Paúl, Professora Catedrática e diretora do Departamento de Ciências Comportamentais, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, que “a institucionalização dos mais velhos é uma má solução, quer do ponto de vista social, quer ao nível da saúde, uma vez que foi ineficaz face a esta situação pandémica. Por um lado, os funcionários são poucos e não têm a preparação necessária. Por outro, os lares são uma solução inadequada para uma vida em sociedade e não obedece à necessidade de manter a saúde dos utentes controlada.”

A professora acrescenta que é preciso encontrar outras soluções, que não passem por isolar os idosos. Defende que os lares deveriam ser apenas reservados para situações de maior vulnerabilidade, o que não corresponde à condição da maioria dos idosos. 

Todos os participantes parecem concordar que, de futuro, deveria reforçar-se o apoio domiciliário e o papel importante dos cuidadores informais no seio das famílias e da sociedade. 

É preciso mudar mentalidades

Segundo os participantes, é urgente repensar a forma como os mais velhos são vistos pela sociedade, o lugar que se lhes reserva. Numa sociedade em envelhecimento, não faz sentido que uma parte cada vez maior da comunidade seja vista como um peso, como um passivo que a sociedade tem de arranjar formas de suportar.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, a tendência é para um continuado e forte envelhecimento demográfico. A população mundial está a envelhecer e Portugal não foge à regra. Enquanto em 1950, apenas 7% da população tinha mais de 65 anos, atualmente, um quinto dos portugueses encontra-se nesta faixa etária e parece claro, com este debate, que a sociedade não soube preparar-se para esta mudança demográfica, com inúmeras consequências sociais e económicas.

O objetivo da sociedade deve, por isso, ser o de criar condições para que os mais velhos continuem a dar um contributo útil para a sociedade em que se inserem, partilhando com os mais novos a sua experiência e conhecimento. O momento da reforma não deve significar um corte radical em relação a uma vida inteira de trabalho e de afetos. O reformado não deve ficar, pelo simples facto de se reformar, automaticamente à margem da sociedade. Deve continuar, como acontece muitas vezes, a dar o seu contributo para o conjunto da sociedade, nomeadamente através do apoio que presta no seio do núcleo familiar. Deve preservar-se o vínculo que o une à sociedade e à população ativa, criando condições para que, graças à sua experiência, continue a contribuir para a economia do País. O isolamento e o sentimento de abandono decorrem frequentemente da convicção de que já não se é útil. 

O envelhecimento é uma história de sucesso

Contudo, segundo Maria João Valente Rosa, Professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, envelhecimento não significa doença e fragilidade. Faz um apelo para a necessidade de mudar mentalidades. “As sociedades envelhecidas não são sociedades doentes. [...] O envelhecimento não deve ser encarado como o fim da vida. Deve ser encarado como uma história de sucesso das sociedades, como sinónimo de que houve uma melhoria dos cuidados de saúde, uma prova de evolução da sociedade.” 

Manuela Rodrigues, Presidente do Conselho de Administração da Lusitânia Vida, defende que a forma como se olha para a velhice tem também muito a ver com a postura das pessoas na vida ativa. Realçou que muitos problemas surgem, segundo ela, com a perda de atividade física e mental quando se entra na reforma. Muitas pessoas estagnam quando se reformam. É importante, segundo Manuela Rodrigues, estimular a cabeça, seja com cálculos, a aprender línguas, etc. 

Pistas para melhorar a nossa sociedade envelhecida?

O debate levantou muitos problemas e angústias ligados ao envelhecimento, é certo, mas também procurou apontar possíveis pistas para, de futuro, melhorarmos a condição dos idosos.

À pergunta de Marta Atalaya, a moderadora do debate, sobre o que é preciso fazer para tornar Portugal um país para todas as idades, Maria João Quintela, Presidente da Associação Portuguesa de Psicogerontologia, reforça que, antes de tudo, devemos aprender e refletir sobre o envelhecimento ao longo da vida e não apenas quando lá chegamos.

Acrescenta que “O país deve criar uma cultura positiva face à longevidade, à conquista de mais anos de vida que o progresso trouxe. Ainda não quantificámos economicamente o benefício dos mais velhos para a sociedade”. Lembra que muitos jovens dependem dos mais velhos para prestar apoio aos filhos enquanto vão trabalhar. Segundo a especialista, “o valor dos mais velhos não é enaltecido. [...] Querem ser ativos, participar numa sociedade que não os exclui, que não os encara como inúteis. [...] Há todo um trabalho complementar que envolve o Estado, a saúde, a educação, vários ministérios, as empresas e as famílias.“

Impõe-se, portanto, uma mudança de paradigma. E essa mudança deve acontecer também relativamente à forma como cada um de nós planeia a sua velhice. Segundo Manuela Rodrigues, a questão da autonomia financeira é fulcral. Com as pensões, surge uma grande quebra de rendimentos. É da maior importância que, sempre que possível, e desde cedo na vida, se invista nalgum tipo de esquema de reforma complementar (PPR, por exemplo) que possa, chegado o momento da reforma, representar um rendimento adicional. Talvez haja, lembrou ainda nesta matéria, um papel a desempenhar por parte do Estado, que poderia, em sede de concertação social, incentivar as empresas privadas a explorar soluções desse tipo, como por exemplo, criar fundos para situações de doença para reformados. 

Luís Jerónimo, da Fundação Calouste Gulbenkian, realça que o Serviço Nacional de Saúde mostrou, com a pandemia, estar preparado para responder a uma situação de crise sanitária, reagindo a questões de ordem aguda e infecciosa. Mas é preciso desenvolver um modelo que não tenha em atenção só as questões de saúde, mas que integre também o apoio social. Só assim será possível dignificar a condição das pessoas mais velhas.

Para o efeito, Constança Paúl, defende que é necessário reorganizar as cidades de forma a aumentar a interação com os mais velhos. “Aos 65 anos, não se está perto do fim da vida. Colocar os idosos à margem da sociedade é um desperdício de capital humano”, alerta Maria João Valente Rosa. 

 

Please fill the source and the alt text 
O terceiro debate das conferências "Parar para pensar" organizadas pela DECO PROTESTE e pelo Expresso abordou o tema do envelhecimento. Aconteceu no dia 24 de junho na página do Facebook do Expresso. 
 

 

O conteúdo deste artigo pode ser reproduzido para fins não-comerciais com o consentimento expresso da DECO PROTESTE, com indicação da fonte e ligação para esta página. Ver Termos e Condições.