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O que vai fazer a Câmara Municipal de Lisboa para reforçar a mobilidade

Uma cidade ao alcance de todos e 200 quilómetros de vias cicláveis, em vez dos atuais 90, são os planos de Miguel Gaspar, vereador da Mobilidade da Câmara Municipal de Lisboa.

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  • Sónia Graça e Nuno César
06 novembro 2019
  • Texto
  • Sónia Graça e Nuno César
Entrevista a Miguel Gaspar, o vereador da CML, na paragem da Carris.

Nuno Correia (Câmara Municipal de Lisboa)

Entrevistámos Miguel Gaspar, vereador da Mobilidade da Câmara Municipal de Lisboa, sobre o presente e o futuro da mobilidade na cidade. Participou na 2.ª edição da conferência Visões do Futuro e apresentou os principais planos a curto prazo.

Quantos carros circulam em Lisboa diariamente?

Há dois anos, eram cerca de 370 mil; hoje, cerca de 380 mil.

Como se desloca habitualmente?

Começo o dia a andar de carro elétrico: deixo os miúdos na escola e venho para a câmara. Depois, uso a bicicleta para ir a reuniões na Baixa e para ir almoçar. Ando de metro ou de autocarro, no mínimo, uma vez por semana. A vida das pessoas não é a preto e branco, e não temos de usar o mesmo transporte. O mais importante é trazer alternativas: Lisboa tem hoje mais de 16 operadores de mobilidade partilhada.

Ainda assim, a maioria das viagens é feita de carro. Como alterar esta tendência?

De três formas. Pela melhoria do sistema de transportes públicos. Pela primeira vez, os 18 municípios da Área Metropolitana de Lisboa (AML) estão alinhados e, ainda este ano, será lançado um concurso para reforçar os serviços rodoviários, o que representará um aumento de 40% da rede, a executar no período de um ano. Por outro lado, temos de construir produtos de mobilidade capazes de competir com o carro: ter à disposição transporte público, umas horas de carsharing, umas horas de bicicleta, de táxi, num produto que custa entre 200 e 300 euros mensais, por exemplo. Se as famílias sentirem que este produto, que já existe em países como a Finlândia, atende às suas necessidades, começam a questionar se precisam de um segundo carro.

Será criado de raiz pela câmara?

Não. O que estamos a fazer é abrir o sistema de transporte público para que privados possam construir estes produtos. Começa a acontecer, com a Uber e outros, que agregam serviços. Por outras palavras, vamos abrir os sistemas de bilhética para que entidades terceiras possam vender viagens da Carris, estacionamento da EMEL e utilização do sistema GIRA. Evoluímos para o conceito de mobility as a service.

Para quando?

Prevejo entre 2020 e 2021. O setor do táxi, por exemplo, tem mostrado interesse em ter estes produtos: um passe em Lisboa que combine transporte público e seis viagens de táxi por mês, para qualquer lado da cidade. Mas é necessária alguma maturidade do mercado até chegarmos ao produto entre 200 e 300 euros. E temos de atualizar os sistemas de informação, que ainda são do século XX. O cartão Navegante era o melhor que se fazia no mundo em 1998… Estamos a assinar um contrato para financiamento (da Comissão Europeia) de um projeto, no valor de 21 milhões de euros, que ganhámos por mérito próprio, e que permitirá atualizar os sistemas de bilhética do Metro, da Carris e da CP, dando um grande salto para o século XXI. Porque é que não podemos pagar o metro com o telemóvel? Porque o dinheiro do telemóvel tem de conseguir abrir a porta de vidro do metro para atravessarmos e é preciso uma atualização dos sistemas…

E a terceira medida…?

Mais informação e integração no sistema de transporte público. Não pode acontecer atravessar o rio de barco, estar quase a chegar e o autocarro arrancar antes. Também falta informação ao passageiro: há muitas pessoas que não andam de transportes, porque não sabem, porque é demasiado complicado lidar com aquela máquina para comprar o bilhete pela primeira vez. E a culpa é do sistema – só a Carris tem mais de 80 linhas… Há aplicações como o CityMapper, que indicam o percurso todo. Estamos a abrir os nossos sistemas para que estas plataformas tenham acesso, por exemplo, a informação que está na aplicação da Carris. Lisboa tem uma política de abertura, do ponto de vista da inovação, o que significa que qualquer entidade que queira consumir este tipo de informação, cumprindo as regras de negócio, tem acesso aos dados.

Miguel Gaspar: até ao fim do mandato, o desejo é passar de 90 para 200 quilómetros de vias cicláveis. 
Até ao fim do mandato, o desejo é passar de 90 para 200 quilómetros de vias cicláveis. Quem o diz é Miguel Gaspar, da CML, que participou na nossa conferência Visões do futuro.

Para quando o fim do diesel na cidade?

Há um plano municipal de adaptação às alterações climáticas, aprovado no ano passado, que define 2030 como data-limite para o fim dos veículos a gasóleo nas zonas centrais da cidade. Portanto, isso deverá acontecer até lá, mas ainda não há uma data exata.

Como é que Lisboa está a lidar com a emergência climática?

Lisboa está entre as cidades que lideram no compromisso para a descarbonização. Temos conseguido cumprir essa meta, para a qual o sistema de transportes contribuiu entre 20 e 30 por cento. Portugal comprometeu-se a reduzir em 26% as emissões no setor dos transportes, até 2030. É impossível atingir esta meta sem alterar a mobilidade. E não se altera a mobilidade em Lisboa sem alterar a mobilidade da AML, porque dois terços das pessoas que trabalham em Lisboa não moram na cidade.

A qualidade do transporte público piorou desde a introdução dos novos passes. Quer comentar?

Segundo os indicadores que conheço, nos barcos, na Carris e no Metro, a regularidade do serviço tem aumentado. Não digo que não há perturbações. Há todos os dias. Ainda não aumentámos a capacidade do sistema, ao ritmo pretendido, e há muito para fazer no sistema ferroviário. Mas, se a experiência fosse horrível, a procura não teria aumentado 20 por cento. E a tendência mantém-se nos novos utilizadores e nas validações (isto não inclui turistas, são vendas de passes). E, mesmo no inquérito da DECO PROTESTE, a maioria das respostas são neutras ou positivas. Muitas pessoas estavam condicionadas nas opções e têm hoje mais flexibilidade e mais alternativas. Temos registo de pessoas que passaram a aceitar empregos, porque o passe passou a custar 40 euros, em vez de 150. Mas nada nos tira o desígnio de investir no sistema. Pela primeira vez, os 18 municípios vão investir 40 milhões de euros na melhoria do sistema de transportes na AML.

Passe navegante. Explosão do passe social piorou serviço dos transportes públicos, alerta o nosso inquérito, em outubro. 
Explosão do passe social piorou serviço dos transportes públicos, alertou o nosso inquérito.

O estacionamento é uma área crítica. Qual o plano para o futuro, integrando o carro privado e os meios emergentes?

Há dois tipos de estacionamento em Lisboa: de carros e dos meios alternativos. Nos anos [19]80, havia, na cidade, 100 carros por cada mil habitantes e hoje há mais de 500. Deu-se espaço aos carros, com vias largas e muitos lugares de estacionamento, e não se construiu espaço para estacionar motas, bicicletas e trotinetes. Estamos a fazer esse esforço. Por exemplo, em menos de 12 meses, criámos mais de mil lugares para bicicletas e trotinetes, criámos mais 129 lugares para carros partilhados. Quanto aos carros, não aceitamos que haja uma utilização abusiva do estacionamento nos bairros, à porta de casa das pessoas, por quem vem de fora, em lugares que não foram dimensionados para os receber. Há uma estratégia de privilegiar o estacionamento de residentes e de garantir que há lugares para o estacionamento de curta duração (comércio local). Quanto ao estacionamento de longa duração, tipicamente dos trabalhadores de Lisboa, a estratégia é libertar espaço da via pública e concentrar os carros em parques enterrados. Há parques, como o da Ameixoeira, junto ao metro, que custam 10 euros por mês (tendo passe). O parque Manuel Gouveia, no Areeiro, abriu há pouco tempo e tem mais de 550 lugares.

Fale-nos do futuro do sistema GIRA. Vai ser alargado?

Sim. Atualmente, tem 650 bicicletas e 81 estações, e temos um plano para chegar às 3 mil bicicletas e 300 estações, em todas as freguesias da cidade – e a outros municípios, que manifestaram interesse. Estamos a escolher a melhor forma de lançar o concurso, espero, ainda este ano. O valor é de cerca de 50 milhões de euros, para um prazo de sete anos.

E quanto à rede de ciclovias?

Até ao fim do mandato, o nosso desejo é passar de 90 para 200 quilómetros de vias cicláveis. Atualmente, são feitas mais de 17 mil viagens por dia nos modos partilhados (no GIRA, são cerca de cinco mil). E, ao todo, há mais de 30 mil viagens de bicicleta e trotinete, por dia. É um crescimento muito expressivo, de cerca de 300%, desde 2017. Esta transformação começou quando a cidade decidiu pôr a pessoa no centro das prioridades.

Considera a cidade amigável para quem anda a pé?

Cada vez mais. Segundo um inquérito do INE, entre 2011 e 2017, o número de viagens a pé passou de 18% para 32 por cento. Houve obras de alargamento de passeios e introdução de pavimento mais estável no Eixo Central, na Duque de Ávila, na 24 de Julho… Sempre que damos espaço às pessoas, as pessoas ocupam-no: caminham, brincam, andam de bicicleta. Mas ainda há muitas pessoas inseguras na rua, porque os passeios são estreitos, os carros passam demasiado depressa… Isso implica acalmar as ruas, passar a velocidade de mais bairros de 50 para 30 km por hora…

Como antecipa a mobilidade em Lisboa daqui a cinco anos?

Queremos uma cidade ao alcance de todos: acessível nos vários modos de transporte e onde as pessoas consigam deslocar-se sem ficarem excluídas por fatores económicos.

 

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