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O plástico é o sexto continente

Estaremos a viver num continente de resíduos de embalagens e de microplásticos? O tema esteve em destaque numa das sessões paralelas das conferências Visões do Futuro.

  • Dossiê técnico
  • Sílvia Menezes
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Filipa Nunes
25 outubro 2019
  • Dossiê técnico
  • Sílvia Menezes
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Filipa Nunes
visoes futuro

Victor Machado

A situação é simples de resumir: “Estamos cercados”. Paula Sobral, uma das oradoras intervenientes neste painel de debate no primeiro dia das conferências Visões do Futuro, fez assim o ponto da situação dos plásticos acumulados no ambiente. Focada na sua área de investigação, a presença destes resíduos nos oceanos – é investigadora no MARE (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente), no polo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa – esta bióloga marinha denuncia: “Não só estamos rodeados pelo plástico já depositado nos oceanos há décadas, como continuamos a fazê-lo, ano após ano”.

De especial importância são também os resíduos resultantes de produtos triviais, que usamos no dia-a-dia, como os cosméticos, por exemplo. Eles libertam partículas minúsculas – microplásticos – que vão parar aos oceanos. “E não há ETAR que consiga reter estas partículas”, completa a investigadora. Estima-se que todos os anos se depositem um milhão de toneladas de microplásticos nos oceanos.

Carmen Lima, da Quercus, também mostrou preocupação com este problema, sobretudo com a longevidade dos plásticos nos oceanos, à razão de centenas de anos. “Podemos moderar consideravelmente a sua utilização no dia-a-dia”. Podemos, e devemos, sublinhou, depois, na sua intervenção. 

 visoes futuro

Paula Sobral (ao centro) deu relevo ao problema dos plásticos nos oceanos.

 As quantidades superlativas foram uma constante neste debate. Estela Gonçalves Pereira, consultora de economia circular, já tinha introduzido números alarmantes. “Na União Europeia cada pessoa produz seis toneladas de resíduos de plástico por ano. Só 7% são reciclados”. Com experiência na área da consultoria ambiental, Estela contacta muitas empresas no espaço europeu. E define algumas soluções para começar a inverter aquela estatística: “É necessária mais pressão mediática, e também dos consumidores”, e, do lado empresarial, uma estratégia de redesign de produtos, de modo a que eles, finda a sua vida útil, possam ser reaproveitados, numa lógica de economia circular.

As quantidades modestas da taxa de reciclagem destes materiais, especialmente em Portugal, também preocupam Sílvia Menezes, da DECO PROTESTE, que enfatizou a necessidade da mudança de comportamentos em relação aos resíduos, quer em casa, quer nas empresas, seja qual for a sua dimensão. A possibilidade de revalorização dos resíduos, plásticos, mas também de papel, de vidro, e mesmo os orgânicos – faltam pontos e capacidade de compostagem destes resíduos no nosso país – deve ser maior, sobretudo para estarem em linha com as metas europeias a curto/médio prazo.

Design, redesign, ecodesign, e outras possíveis variantes, são alguns dos termos com que vamos, com certeza, estar familiarizados no futuro. A tónica foi dada também por Patrícia Franganito, da Bureau Veritas, que falou de uma nova forma de certificar produtos a partir do seu potencial de sustentabilidade, o Circular+. 

Do lado empresarial, Vanessa Romeu, da cadeia de supermercados Lidl, afirmou que a sua empresa é uma das pioneiras na redução do plástico (sobretudo nas embalagens dos produtos), na área das grandes superfícies. Patrícia Franganito sublinhou também o papel fundamental das empresas para reduzir, do lado da oferta, produtos com plástico a mais. Citando uma alta personalidade da ONU, concluiu: “As empresas que não vivem numa economia verde vão viver num futuro cinzento”. 

 

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