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Mobilidade: mudar as mentalidades para soluções sustentáveis

Saiba o que está a mudar e como a sociedade se tem adaptado às exigências de mobilidade. O especialista José Manuel Viegas ajuda-nos a perceber os desafios atuais. No próximo dia 30 de novembro tem a oportunidade de ouvir outros especialistas na conferência Visões do Futuro, da DECO PROTESTE.

12 novembro 2018
José Manuel Viegas

Victor Machado

Para muitos, a posse do carro tornou-se indispensável para poder organizar a sua vida de modo minimamente eficiente. “Com a quase total desconexão entre as decisões urbanísticas e as relativas às redes de transportes coletivos, depender apenas destes torna (quase) impossível qualquer mobilidade além do casa-trabalho”, afirma José Manuel Viegas, ex-responsável da mobilidade da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e reputado especialista e consultor na área de transportes e mobilidade. Apesar disso, José Manuel Viegas admite que há cada vez mais pessoas que podem organizar a sua vida com base noutro tipo de mobilidade com melhor qualidade, até porque o carro só é usado em média cerca de 5% do tempo: “É um desperdício.”

O especialista avança que não podemos continuar a evoluir desta maneira, “dadas as consequências em termos de ambiente, de saúde pública, de exclusão social e de eficiência económica”. Embora não considere que a posse de um automóvel venha a ser proibida, espera “que isso passe a ser uma opção minoritária, mais por razões emocionais do que por razões de utilidade ou mesmo necessidade”.

Pode ouvir outras opiniões sobre mobilidade e sustentabilidade na conferência Visões do Futuro, no próximo dia 30 de novembro, um evento da DECO PROTESTE. O objetivo é ajudar os consumidores a perceber os desafios atuais (na era digital) e futuros. A entrada no evento é gratuita, mas é necessária inscrição, pois os lugares são limitados.

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Deixar o carro para trás ainda não é a opção da maioria dos portugueses. O ex-responsável da mobilidade da OCDE acredita que nos falta sobretudo uma abordagem coerente e transversal destes problemas: “Vamos melhorando pontualmente graças a iniciativas avulso. Felizmente, algumas dessas iniciativas de boa qualidade são contagiosas e vão-se propagando”.

Para colocar a mobilidade, a sustentabilidade energética e a intervenção cívica no centro do debate, convidámos um conjunto de reputados especialistas para várias conferências no centro de Congressos do Estoril, a 30 de novembro. Por lá vão passar nomes como Carlos Zorrinho, Carlos Carvalho, entre outros. Nos dias 1 e 2 de dezembro, os participantes vão ter a oportunidade de entrar em workshops para aprender a fazer as contas sobre o custo total de posse e uso de veículos elétricos, por exemplo, ou de experimentar outras soluções de mobilidade como carros, bicicletas e trotinetes elétricas.

Entrevista a José Manuel Viegas. 

Quais os maiores avanços que conseguiu no seu percurso?

Os resultados que nos dão maior satisfação são os que, à partida, parecem mais difíceis. Cito três, com natureza, contextos e datas diferentes. Em 1986, no âmbito dos trabalhos de preparação do Plano Geral de Urbanização do Porto, numa equipa liderada pelo Prof. Arq.º Duarte Castelo Branco, conseguimos “desatar um nó” que tinha mais de 20 anos que envolvia a infraestrutura de transportes que devia ser implantada na encosta de Campanhã, a ferrovia ou a rodovia. Desenhámos uma solução geometricamente viável que ainda lá está. Em 2006/07, liderei um movimento cívico de oposição à escolha da Ota como local de implantação do Novo Aeroporto de Lisboa, já decidida pelo Governo e que acabou por forçar o Executivo a rever a decisão. Em 2015/16, enquanto secretário-geral do Fórum Internacional dos Transportes (em Paris), lancei o primeiro estudo à escala mundial de simulação rigorosa das soluções de mobilidade partilhada – com dados de Lisboa –, tendo os resultados demonstrado o enorme potencial dessas soluções. O impacto do estudo foi enorme e esteve na base da decisão das maiores empresas do ramo automóvel de lançarem as suas próprias subsidiárias orientadas para a exploração desse tipo de serviços.

O que mais o tem surpreendido na evolução da mobilidade?

Pela positiva, a capacidade de modificar comportamentos dos cidadãos no sentido de soluções mais sustentáveis quando se preparam os novos projetos. Pela negativa, a dificuldade de muitos decisores políticos em entender que se podem obter altos níveis de aceitação popular das novas soluções mesmo quando isso implica contrariar hábitos instalados, desde que se compreendam e satisfaçam os principais requisitos de acesso dos cidadãos.

Onde vê o futuro das cidades nos próximos dez anos?

As exigências (quer diretamente dos cidadãos face à qualidade de vida e do ambiente, quer indiretamente por via dos acordos que Portugal e outros países subscreveram) irão obrigar a que o sistema de mobilidade e transportes evolua de modo mais sustentável. A transição será polémica e por vezes com turbulência social, pela incompreensão da necessidade de mudar e devido a interesses instalados. Gostaria de poder contribuir para a escolha das soluções e sobretudo para tornar a transição mais suave.
 

 

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