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Menina de 9 anos cria petição para tornar Língua Gestual Portuguesa numa disciplina escolar

Ana conseguiu atingir mais de 11 mil assinaturas para esta causa, que conta com o apoio da DECO PROTESTE, e a petição já foi entregue à Assembleia da República.

professora ensina língua gestual a menina

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Ana Caridade tem nove anos, frequenta o quarto ano e sonha em “levar a língua gestual portuguesa (LGP) para as escolas”. Para tornar este sonho numa realidade, criou uma petição online, onde propõe que o ensino da Língua Gestual Portuguesa (LGP) seja lecionado enquanto disciplina obrigatória para os alunos do primeiro ao sexto ano de escolaridade (1.º e 2.º ciclos).

A petição precisava apenas de atingir um mínimo de 7500 assinaturas para ser levada à Assembleia da República e ser debatida no Parlamento. Mas o repto convincente da pequena Ana já conseguiu mobilizar mais de 11 000 pessoas para estar a bordo desta causa, que conta com o apoio da DECO PROTESTE, por uma sociedade mais inclusiva. A petição já foi submetida à Assembleia da República, mas a data para a audição dos peticionantes ainda não foi definida.

Dar ouvidos a quem mais necessita

A conversa começou na mesa de jantar com uma dúvida exposta por Ana aos pais: como é que se aprende inglês na escola e não se aprende língua gestual portuguesa, que é uma língua que se fala no nosso País? Com esta pergunta, estava lançado o mote para o desenvolvimento da iniciativa levada a cabo por Ana e pelos seus pais.

Em declarações à DECO PROTESTE, Ana revela que sempre acreditou que iam conseguir alcançar o mínimo exigido, enquanto a mãe, Liliana Sintra, confessa que receava que a filha estivesse a criar expectativas demasiado ambiciosas. “Todas as manhãs ia carregar no F5 para ver quantas assinaturas tinha a petição”, afirma Ana.

Liliana tem uma deficiência motora, trabalha na área da deficiência, tal como o pai de Ana, e assume que o tema da inclusão está muito presente à mesa de jantar. “Falamos muito sobre como é que poderíamos tornar o dia-a-dia das pessoas com deficiência mais inclusivo e sobre o modelo social da deficiência”, diz Liliana. Para a mãe de Ana, o paradigma não é perceber como é que as pessoas com deficiência se podem integrar, mas sim “como é que a sociedade se pode organizar para dar igualdade de oportunidades e de participação, incluindo a pessoas com deficiência. É uma responsabilidade de todos”.

Juntam equipa para levar ao Parlamento

“Vamos reunir com associações de pessoas surdas, com crianças surdas e os seus pais, para saber os temas que querem levar [ao Parlamento]”, contam-nos. Querem aproveitar que Ana teve esta visibilidade para a causa, mas não querem ocupar o lugar das pessoas surdas.

A palavra “aliada” parte da mãe para definir a filha. “A Ana vai apresentar a petição à Assembleia da República, mas vai acompanhada por crianças surdas, para que elas possam falar na primeira pessoa. O lugar de destaque tem de ser sempre para as pessoas surdas. Não faz sentido avançar sem elas”, considera Liliana.

Ana e a mãe foram contactadas por muitas pessoas surdas e por mães de crianças surdas. Uma delas, que fará parte da equipa, é Tiago, um rapaz surdo de 11 anos, que faz vídeos para a internet a ensinar língua gestual portuguesa aos seus subscritores de uma forma simples.

Máscaras afetam comunicação por leitura labial

Os dois últimos anos de pandemia são sinónimos de máscaras, o que veio dificultar ainda mais a vida de quem depende da leitura labial como forma de comunicação. Liliana revela que têm “recebido muitas mensagens a dizer que os últimos anos, além de aflitivos por motivos de saúde, como para toda a gente, também foram um momento de grande solidão. As pessoas que conseguem fazer leitura labial ficaram inibidas dessa possibilidade de comunicar”.

Muita gente diz que gostaria que os serviços de saúde tivessem alguém que pudesse falar língua gestual. “Gostavam que um serviço como as Finanças ou a Segurança Social tivesse pelo menos uma pessoa que pudesse ser um facilitador, um mediador da comunicação que pudesse conhecer a ferramenta da língua gestual. Entretanto percebe-se que esta comunidade é ostracizada todos os dias por uma questão de comunicação”, garante Liliana.

Como é que os mais velhos podem aprender LGP? Ana diz que poderão aprender com os filhos, mas que podem apenas pesquisar “como aprender língua gestual portuguesa” na internet. Liliana sugere, ainda, que no ensino superior, em cursos de contacto com o público, relacionados com a saúde ou com áreas sociais, se crie uma cadeira para os universitários aprenderem um nível básico de LGP para o atendimento do dia-a-dia mais comum.

DECO PROTESTE disponibiliza canal de atendimento para surdos

Rita Rodrigues, responsável pelas Relações Institucionais da DECO PROTESTE, sublinha que “a organização decidiu apoiar esta iniciativa porque, efetivamente, é fundamental contribuirmos para uma sociedade mais inclusiva, onde todos, independentemente da sua condição, possam ter acesso aos mesmos direitos. Nós já demos esse passo enquanto organização, quando em março de 2021 alargámos o nosso atendimento a consumidores surdos. Por essa razão, é com muito sentido de missão que apoiamos e divulgamos esta iniciativa”.

Liliana confessa que foi “uma surpresa agradável” quando descobriu que a DECO PROTESTE oferece um canal de atendimento para surdos. Entende que “a comunidade surda muitas vezes fica inibida dos seus direitos básicos por não conseguir comunicar. E saber que vocês dão essa oportunidade de poderem defender os direitos dos consumidores surdos e de poderem estar ao lado deles nessa luta pelos direitos e pelos deveres, para nós é fundamental.”

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