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Idosos em lares perderam vitalidade durante a quarentena

A quarentena veio acelerar a degradação física e mental. Neste período, os idosos com graves condições de saúde passaram de 28% para 40%, quadro que o desconfinamento não reverteu.

  • Dossiê técnico
  • Bruno Carvalho e Teresa Belchior
  • Texto
  • Inês Lourinho
26 novembro 2020 Exclusivo
  • Dossiê técnico
  • Bruno Carvalho e Teresa Belchior
  • Texto
  • Inês Lourinho
Senhora idosa, vestida de branco, com as mãos cruzadas sobre uma bengala de madeira

iStock

A deterioração da saúde, e não tanto a idade, é a principal razão para dar entrada num lar. Trata-se de uma das conclusões do nosso inquérito a familiares de idosos que vivem ou viveram numa destas instituições nos últimos cinco anos. Enviado em princípios de março, o questionário procurou analisar o acesso, as condições de vida, os preços e a satisfação com o serviço. Recebemos 2250 respostas válidas.

Lançámos um segundo questionário nas duas primeiras semanas de outubro, para investigar a capacidade de gestão da pandemia pelos lares. As 647 respostas válidas que obtivemos, fornecidas pelos familiares, reportam-se a idosos a viverem numa destas instituições entre fevereiro e outubro. Não são tão distintas assim das recolhidas pelas associações de consumidores nossas congéneres na Bélgica, em Espanha e em Itália, três países especialmente atingidos pela pandemia. A satisfação com a gestão da pandemia pelo lar parece depender de o idoso ter ou não falecido. Em ambos os inquéritos, as respostas refletem as opiniões e as experiências dos familiares.

Idosos podem esperar seis meses para entrar num lar

No momento da admissão, a maioria dos idosos não padece de complicações de saúde graves (61%), mas de problemas que subtraem a autonomia, mais de natureza física do que mental. A maioria tem pouca mobilidade e não consegue alimentar-se nem fazer a higiene pessoal sem ajuda. Em média, são admitidos aos 81 anos, e aí permanecem por quatro anos, até que o peso da idade e dos problemas de saúde leva a melhor e a vida se extingue.

 

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Os dados referem-se aos idosos que ainda se encontram vivos.
 

Os que têm condições financeiras tendem a conseguir o lar da sua escolha. Mas pode não ser automático. Em termos médios, há que aguardar 108 dias para entrar num privado, ou seja, três meses e meio. No caso de uma misericórdia, a espera média é de 173 dias e, nas demais instituições particulares de solidariedade social (IPSS), de 171 dias. Estamos já a falar de quase seis meses.

Metade dos idosos divide quarto com um segundo, enquanto 31% beneficiam de um espaço individual. A mensalidade de base, isto é, sem extras, como medicamentos, é de 1012 euros no privado, 686 euros numa IPSS e 662 euros numa misericórdia. Já se pensarmos ao nível nacional, e independentemente da natureza do lar, o valor médio da mensalidade e dos extras é de 957 euros. Como a média dos rendimentos dos utentes anda pelos 732 euros, significa que o lar tudo esgota, e que sobra sempre uma fatia a cargo da família. Mas há variações consoante a zona do País. Um lar na região de Lisboa e Vale do Tejo, qualquer que seja o seu tipo, tende a ficar mais caro.

 

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Lares com poucas atividades de estímulo mental para os idosos

E os privados oferecem melhor serviço do que as IPSS e as misericórdias? A avaliar pela satisfação, que se relaciona com a ocorrência de problemas, não é bem o caso. Conflitos ocorrem em todos os contextos, por exemplo, devido a falhas na higiene e na comunicação entre médico e família, assim como a custos inesperados. A proporção é idêntica: 32% dos familiares com utentes nos privados reportaram problemas, contra 34% nas IPSS e os mesmos 32% nas misericórdias. A satisfação com o lar, de 6,8 pontos num máximo de 10, é sobretudo influenciada pela presença de um número suficiente de funcionários durante a semana, pela qualidade das refeições, pelas condições do quarto e pela transparência dos custos.

Mas depois há a vertente da competência do pessoal, com um nível de satisfação de 6,6 pontos. Aspetos como os cuidados médicos e de enfermagem recolhem uma marca relativamente modesta, de 6,1 e 6,5 pontos, e os cuidados psicológicos e a terapia ocupacional recebem ambos 5,6. Pouca ou nenhuma terapia ocupacional e física, falta de atividades estimulantes para adultos, e não para crianças, e uso da cadeira de rodas para todas as deslocações são algumas queixas que os familiares nos transmitiram. Daqui se depreende que muitos lares se limitam a garantir um espaço para viver, refeições e cuidados de saúde. Atividades estimulantes, tanto do ponto de vista físico como mental, estão ausentes, o que tem impacto direto na qualidade de vida do idoso. E a pandemia enegreceu o quadro.

Idosos com perdas de saúde irreversíveis na quarentena

O confinamento de março e abril agravou a qualidade de vida e a saúde dos idosos que habitam em lares. Já o suspeitávamos, temos agora dados concretos. Antes da quarentena, 69% não sofriam de nenhum problema de saúde grave. Durante o isolamento, o número de idosos sem condições de saúde sérias caiu para 57%, e manteve-se idêntico mesmo depois de as instituições abrirem portas às visitas. Contas feitas, o número de idosos com má qualidade de vida subiu de 28 para 40 por cento.

 

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No contexto da pandemia, os cuidados com a saúde mental e as opções de lazer voltaram a ser as dimensões a suscitar menos satisfação. Os participantes neste segundo inquérito atribuíram-lhes, respetivamente, 6,8 e 6,4 pontos. Já outros aspetos associados à gestão da pandemia, como a comunicação com as famílias, os cuidados médicos, a implementação das medidas de segurança no tempo certo e as ações para limitar a propagação da doença, mereceram uma satisfação de 7 a 7,6 pontos, números idênticos aos registados nos demais países do estudo.

Entre os inquiridos, 11% reportaram um aumento de custos no lar desde que começou a pandemia.

Sem diferenças entre regiões no combate à pandemia

Tão-pouco detetámos diferenças entre regiões portuguesas na gestão da covid-19. Mas, no Norte, os privados e as IPSS geraram maior satisfação com os cuidados de enfermagem e a assistência diária do que as misericórdias, desde que a pandemia começou. Esta realidade não se traduz, no entanto, em menos infeções. Nos lares da região Norte, independentemente do tipo, verificámos o maior número de casos positivos no País: 35% do total, contra 20% na região Centro.

Quanto à falta de materiais, como roupa de proteção, máscaras e higienizador de mãos para os funcionários dos lares, fez-se sentir sobretudo no início.

 

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Durante a pandemia, 70% dos óbitos registados nos lares estudados nada tiveram que ver com a covid-19. Em 11% das situações, tiveram relação com o novo coronavírus. E 19% dos inquiridos não têm a certeza da causa do falecimento do seu familiar.

A perceção da eficácia no combate à pandemia parece depender das circunstâncias pessoais. A satisfação global com o lar é superior entre os inquiridos que não perderam idosos nesta altura, para a covid-19 ou não. Em Portugal, a um valor de 5,8 entre os familiares de idosos falecidos, contrapõe-se uma satisfação de 7,2 entre quem ainda tem os entes queridos vivos.

 

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