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Ideias para seguir uma moda sustentável na roupa

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A roupa que usamos e descartamos representa emissões de 654 kg de COequivalente por cada cidadão europeu e por ano. Vamos usar o nosso vestuário por mais tempo, partilhá-lo em segunda mão, doá-lo quando já não o usarmos e evitar as compras por impulso.

  • Dossiê técnico
  • Antonieta Duarte e Sílvia Menezes
  • Texto
  • Ricardo Nabais, Nuno César e Ana Rita Costa
09 novembro 2021
  • Dossiê técnico
  • Antonieta Duarte e Sílvia Menezes
  • Texto
  • Ricardo Nabais, Nuno César e Ana Rita Costa
Ilustração de t-shirt com relva a simbolizar roupa sustentável

iStock

A nova tendência da moda este ano – e, esperamos, nos tempos mais próximos – é trocarmos de roupa pelo ambiente. O nosso hábito de renovar o guarda-roupa muitas vezes reflete-se na emissão de CO2 e nos resíduos que vão parar aos oceanos, além das consequências para as comunidades nos locais de produção. O apelo à fast fashion, a compra por impulso e os preços baixos estão na base destes impactos. Temos de fazer a roupa durar.

Uma nova diretiva europeia do quadro de resíduos vai tornar obrigatória a recolha seletiva dos têxteis, que terá de estar aplicada em pleno em janeiro de 2025. Os contentores para recolha de roupa usada e têxteis, em geral, deixarão de ser apenas aqueles que existem devido a iniciativas de algumas organizações sem fins lucrativos ou de municípios que arregaçaram as mangas mais cedo.

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Reduza a quantidade de roupa

Aumente a frequência de utilização da sua roupa. Evite comprar peças desnecessárias. Selecione têxteis e vestuário de boa qualidade e evite a tentação de optar pelo design a preço baixo.

Em casa

  • Inicie a organização do roupeiro. Selecione as peças por estação do ano. Quando decidir o que usar, já tem as combinações mais facilitadas. Ponha em prática o conceito “Capsule Wardrobe”, que vem dos anos 70, cujo princípio é ter no roupeiro 30 a 40 peças práticas e versáteis e projetadas para serem usadas em conjunto.
  • Aproveite para colocar de lado a roupa que não serve e decida a melhor forma de a reincluir num ciclo de reutilização.

Ao comprar, analise a certificação ambiental

Opte pela qualidade e veja se as peças têm certificação ambiental ou social. Escolha bem antes do impulso da decisão emocional pelo design ou pelo preço. Antes de tudo, tente saber mais sobre essa peça. Pode, para isso, questionar a própria marca, em loja ou online. E veja se a etiqueta ou a embalagem da roupa tem, por exemplo, algum dos logótipos abaixo.

Ecolabel

O Rótulo Ecológico Europeu aplica critérios de limitação de substâncias nocivas para a saúde e o ambiente, redução do consumo da água e poluição do ar, e critérios de durabilidade, como resistência à transpiração, lavagens, secagem e exposição à luz.

oeko-tex

O OEKO-TEX Standard 100 certifica a inexistência de substâncias nocivas no artigo têxtil e seus componentes. Esta certificação é encontrada numa enorme diversidade de roupas. 

Fairtrade

Comércio Justo: a certificação é aplicada ao longo de toda a cadeia de produção, desde o cultivo do algodão até ao acabamento do vestuário. Os requisitos são garantia do salário mínimo, liberdade de associação sindical, segurança no local de trabalho, regulação de contratos e horas de trabalho.

Global organic textile standard

O Global Organic Textile Standard certifica que os têxteis são fabricados com fibras orgânicas. Apenas poderá ostentar a certificação no produto final se obtiver a certificação ao longo de toda a cadeia de produção.

Reutilize e partilhe

Faça upcycling: restaure, readapte, repare. Se tiver uma peça de que gosta mas existe um pormenor que desgostou, faça uma atualização dessa peça, renove-a ou transforme-a. Pode ser, por exemplo, uma simples troca de botões, ou uma readaptação criativa da peça para outros usos, como deixar de ser casaco e passar a colete, ou o vestido passar a ser camisola. Se tem gosto por aprender a reparar ou restaurar, existem vários cursos e workshops disponíveis para aprender. Numa rápida procura online por “upcycling” tem informação de vários cursos online.

Algumas plataformas de venda em segunda mão apresentam dicas para várias reparações. Há instituições de ensino e marcas que estabelecem parcerias. É o caso, por exemplo, da Escola da Moda no Porto e da plataforma de vendas em segunda mão MyCloma, que se aliaram para modernizar as peças que não se vendiam na loja. Transformam peças usadas em peças únicas e exclusivas com o conhecimento técnico dos alunos.

Venda, compre e alugue roupa em segunda mão. Para selecionar a roupa para uso em segunda mão (para venda, troca, aluguer ou doação), certifique-se de que está em boas condições para ser usada.

Lojas para venda, compra e aluguer de roupa em segunda mão 

www.mycloma.com
Vende a roupa que não é utilizada, sendo possível optar por duas formas diferentes de venda: a normal, em que envia a roupa e paga os portes de envio no valor de 7,98 euros. O preço a dar à peça varia com a tabela de valorização e sistema de comissões. O pagamento é estabelecido 30 dias após a peça de roupa ser vendida pela plataforma; e a opção recolha 15/15, que implica a venda de 15 peças e pode receber o valor entre 15 a 20 euros, ou optar pela doação de 5 euros a uma ONG com parceria à escolha da MyCloma.

www.micolet.pt
Pode vender um mínimo de 20 artigos, tendo em conta os requisitos da plataforma. Os artigos são recolhidos pela Micolet (4,99 euros) e é indicado que o preço de venda é 70% de desconto face ao preço real. Após 30 dias de publicação do artigo sem ser vendido, o preço é ajustado para facilitar a venda. Se não for vendido, o artigo é doado a uma ONG ou pode solicitar a sua recuperação.

boudoirlisboa.com
Visa incentivar e promover o consumo consciente e a sustentabilidade. Dedica-se à compra e venda de roupa estilo vintage em segunda mão. Pode comprar online e as entregas são realizadas em Portugal e toda a Europa, com exceção do Reino Unido. Tem loja física em Lisboa. Acima de 50 euros, os envios são gratuitos para Portugal.

aoutrafacedalua.com
Também posicionada no segmento vintage de venda em segunda mão, como uma solução de consumo ético e sustentável. Vende online e tem loja física em Lisboa.

retry.pt
É possível comprar e vender roupa. Vão recolhê-la a casa. Os artigos são classificados de A+ a C e o preço é estabelecido entre comprador e vendedor. A Retry cobra pelo serviço entre 30 e 50% do valor da peça.

shop.pop-closet.com
Vende e compra roupas online e em loja física em Lisboa. Posiciona-se como loja slow fashion de segunda mão modern vintage. As entregas são gratuitas acima de 150 euros.

recloset.net/comprar
É um marketplace de moda em segunda mão, que se distingue pela possibilidade de comprar, alugar e vender. Fica com 25% do valor da peça, que é diretamente colocada no marketplace pelo vendedor. O preço é definido pelo vendedor e deve incluir os portes de envio. O valor correspondente a 75% da venda é transferido para o vendedor pela reCloset.

O aluguer destina-se a peças para eventos mais especiais por determinado período. Seleciona a peça que quer alugar, paga a peça e o valor de envio (4,99 euros) ou pode optar pela entrega em mão, pagando apenas o aluguer.

reinopequenitos.pt
Plataforma de compra e venda online de vestuário para crianças dos 0 aos 10 anos. Basta preencher o formulário com a descrição dos artigos, aceitar a proposta do valor e enviar diretamente os artigos sem pagar portes de envio. Recebe o valor ou um vale de desconto.

www.kidtokid.pt
Pode vender e comprar vestuário de criança na loja online. A entrega dos artigos é realizada numa loja física, o produto é avaliado no momento e recebe o valor ou crédito na loja nesse momento. Existem 21 lojas e aconselha-se que telefone antes de se deslocar diretamente.

Também tem a opção dos mercados, como Cascais – Mercado da Vila/mercado das oportunidades; Lisboa – Feira da Ladra, LX Market ou Feira na Avenida da Liberdade; Loulé e Faro.

Doação de roupa

Se optar por doar a sua roupa, certifique-se de que esta está em boas condições para ser utilizada por outros. Caso não esteja, deposite-a em contentores próprios para a reciclagem. Nunca coloque a roupa no lixo indiferenciado. Existem redes regionais de recolha de roupa para segunda mão e que muitas vezes estabelecem protocolos com municípios ou entidades gestoras de resíduos do município.

Para informação mais específica ao nível municipal, contacte a câmara municipal ou a entidade gestora responsável pelos resíduos no município. Ou recorra a uma ONG com recolha de redes próprias, como a Humana, que trabalha especificamente na recolha de têxteis usados e disponibiliza uma rede de 838 contentores para deposição, que tem também a loja Vintage Secondhand. Tem ainda a opção da AMI, que doa aos beneficiários inscritos nos seus centros. Se pretender entregar roupa à AMI, contacte um dos 15 centros indicados no site da organização. A Cáritas Portuguesa tem uma rede de contentores próprios para recolha das doações de vestuário em todo o País.

Reduzir o impacto da roupa ao lavar

Ao lavar a roupa, dependendo do tipo de tecido, a quantidade de microfibras libertadas dos tecidos pode ser bastante elevada e, durante o processo de lavagem, essas micropartículas são lançadas nas águas residuais, de onde seguem para o meio aquático e são logo absorvidas pelos seres vivos. A redução de micropartículas plásticas (microplásticos) pode ser conseguida se optar por tecidos de fibra natural. No entanto, não há fibra perfeita. Apesar de as fibras sintéticas terem o maior impacto na poluição das águas, existe sempre a libertação de centenas de microfibras diversas que são libertadas na água em cada lavagem. Mais de 700 000 microfibras podem ser lançadas à água em cada lavagem.

Algumas dicas:

  • lave a roupa a baixa temperatura;
  • use a carga máxima da máquina;
  • reduza a velocidade de centrifugação, principalmente para as roupas sintéticas;
  • use programas mais curtos;
  • seque a roupa ao ar livre;
  • pondere se, realmente, necessita de lavar a roupa com a frequência das lavagens que realiza;
  • utilize um saco específico de proteção da roupa, que promete reter as micropartículas dos têxteis.

Pegada carbónica da roupa

As estatísticas falam por si: “Nos últimos 15 anos, duplicámos a quantidade de roupas que produzimos e reduzimos pela metade as vezes em que as vestimos antes de as descartarmos”, lê-se num relatório de 2017 da Fundação Ellen MacArthur. 

Segundo a Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa, 40% das roupas que temos no armário não são usadas. Consumimos acima da capacidade do planeta para se renovar. Se, antes, havia duas estações, primavera-verão e outono-inverno, agora, temos o modelo fast fashion. Quase à mesma velocidade da fast food, este estilo de vida caracteriza-se por uma rotação constante de coleções, consequência de uma mudança nos hábitos de compra

Mais números para nos deixar a pensar: de acordo com um estudo da Agência Europeia para o Ambiente, a produção e distribuição de vestuário, calçado e de têxteis para o lar comprados pelos europeus em 2017 serviu-se de algo como 1,3 toneladas de matéria-prima e 104 metros cúbicos de água por pessoa. Pior: cerca de 85% desses materiais e 92% dessa água provêm e foram utilizados noutras partes do mundo, à custa de condições laborais abaixo da indigência, muitas vezes empregando menores de idade, a salários que nem chegam para fazer umas cócegas ligeiras no bolso. E, com recursos naturais de outros países, fora do espaço europeu, aproveitando alguma leveza nas legislações locais quanto ao respeito pelo ambiente e pelos recursos naturais.

Tudo isto se traduz numa pegada ecológica de 654 kg (de CO2 equivalente) anuais por cada cidadão da União Europeia (UE). A roupa que usamos e descartamos já é a quarta causa de pressão sobre o ambiente, depois da alimentação, do alojamento e dos transportes. O circuito, do produtor ao consumidor, também é nefasto para o ambiente. Desde 1975, a produção de fibras têxteis quase triplicou e, hoje, 60% são sintéticas. Ao poliéster, a fibra mais usada neste setor, está associada uma tremenda pegada ecológica: requer mais de 70 milhões de barris de petróleo em cada ano. O algodão, por seu lado, necessita de uma enorme área de cultivo e de água, especialmente se for orgânico.

Mas há mais: em 2014, foram produzidas 14 peças de vestuário por pessoa. Hoje, esse número será bem maior. Mais de 3500 substâncias químicas são usadas na produção têxtil e, destas, pelo menos, 750 foram já classificadas como perigosas para a saúde, enquanto 440 o são para o ambiente. Estima-se, também, que cerca de 20% da poluição da água tenha origem nos processos de tinturaria e acabamento das peças, com consequências ao nível da saúde dos trabalhadores e das comunidades locais. Também a fase de uso e manutenção dos tecidos tem impactos significativos: cerca de meio milhão de toneladas de microplásticos são anualmente lançados no oceano, provenientes da lavagem de tecidos com origem sintética.

E em Portugal? De acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente (dados de 2020), foram recolhidas cerca de 189 528 toneladas de têxteis nos resíduos urbanos, o que representa cerca de 4,65% do total produzido em Portugal, próximo de 5 milhões de toneladas.

Ainda segundo este organismo, se analisarmos o período entre 2014 e 2020, foram deitados ao lixo 1,26 milhões de toneladas de têxteis. Em países de outra escala e de hábitos de hiperconsumo ainda mais enraizados, como os EUA, a conta é assustadora: aqui, em 2018 foram gerados 17 milhões de toneladas de resíduos têxteis, e apenas 2,5 milhões de toneladas foram reciclados.

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Onde colocar têxteis e vestuário em fim de vida

Depositar os têxteis e vestuário em fim de vida em contentores específicos para resíduos têxteis é a opção mais sustentável para prolongar a sua utilização. Assim, o resíduo têxtil continua a ser valorizado como uma matéria-prima valiosa.

O "Pacote de Resíduos" da Comissão Europeia, diretiva para a gestão de resíduos que estabelece metas ambiciosas para a reciclagem, criou a obrigatoriedade de recolha seletiva de têxteis a partir de 2025 na comunidade europeia. O objetivo é reduzir a quantidade de resíduos urbanos a depositar em aterro. Nesse sentido, a partir de 1 de janeiro de 2025, em cada município, os consumidores deverão ter à sua disposição uma rede de recolha seletiva de resíduos têxteis. Porém, alguns municípios já se anteciparam. Em alguns locais já é possível encontrar contentores de recolha de roupa e calçado de empresas cuja atividade principal é a valorização têxtil, como a Ultriplo, a Sarah Trading ou Wippytex.

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