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Denuncie aparelhos que avariam antes do tempo

Toneladas de equipamentos elétricos são postos de parte anualmente, com um grave impacto ambiental, quando poderiam ter uma vida mais longa se fossem reparados. Use a nossa plataforma e denuncie aparelhos que avariam precocemente.

Pessoa na cozinha a tentar reparar um forno

iStock

É preferível consertar (ou mandar arranjar) um aparelho do que desfazer-se logo dele. Por vários motivos. Todos os anos, produzimos 50 milhões de toneladas de resíduos eletrónicos ao nível mundial, sendo que nem todas as matérias-primas são recicláveis, pelo que se perdem.  

Em 2018, foram recolhidas cerca de 67,7 mil toneladas de resíduos elétricos e eletrónicos em Portugal. A venda de equipamentos elétricos e eletrónicos, grandes ou pequenos eletrodomésticos, tem aumentado todos os anos, o que se traduz num aumento global deste tipo de resíduos. 

Prevê-se, em breve, que os resíduos elétricos e eletrónicos gerados na Europa atinjam 12 milhões de toneladas, estimando-se um crescimento contínuo que pode chegar, em 2030, ao nível mundial, a mais de 74 milhões de toneladas.

Muitas vezes, estes aparelhos nem sequer estão danificados, como pode verificar nos gráficos que resumem os resultados de inquéritos que realizámos no último ano junto de milhares de consumidores no nosso país, mas também em França, na Bélgica, em Espanha e Itália.

Porque trocou de máquina ou equipamento?

Pequeno eletrodoméstico 

(máquina de café, aspirador, micro-ondas, fritadeira, ferro de engomar, robô de cozinha)

gráfico pequenos eletrodomésticos

Grande eletrodoméstico 

(máquina de lavar roupa, de secar roupa, de lavar loiça e frigorífico)

gráfico grandes eletrodomésticos

Equipamento de tecnologia 

(smartphone, TV, portátil, impressora, tablet e máquina fotográfica digital) 

gráfico equipamento de tecnologia

Apenas 28% dos inquiridos portugueses substituíram um pequeno eletrodoméstico (máquina de café, ferro de engomar ou aspirador, por exemplo) porque o anterior estava avariado sem possibilidade de reparação. No caso de grandes eletrodomésticos, como frigoríficos ou máquina de lavar ou secar, são 19%; já no que toca a equipamentos eletrónicos, como telemóveis ou computadores, 15% afirmam ter adquirido um modelo novo porque o anterior não tinha conserto. Por outras palavras: na maioria dos casos, os aparelhos têm arranjo, mas há consumidores que preferem substituí-los.

Antes de deitar fora, confirme se tem arranjo

Optar pela reparação não só sai mais barato, na maioria dos casos, como contribui para a sustentabilidade do planeta. Ao reutilizar equipamentos em vez de adquirir novos, reduz a sua pegada ecológica. De facto, de cada vez que nos desfazemos de um resíduo, estamos a lançar um boomerang: a sua eliminação pode ser responsável por emissões perigosas, caso não seja tratado convenientemente, o seu transporte para os locais de tratamento ou reciclagem contribui para a emissões de gases com efeito de estufa e a própria reciclagem obriga a gastos energéticos e de água consideráveis, além de emissões de gases ou de líquidos que necessitam ainda de tratamento.

Por outro lado, a compra de novos equipamentos implica produzir mais produtos, o que gera inevitavelmente o consumo de mais matérias-primas e, por isso, recursos naturais, e energia.  

Infelizmente, muitos são os consumidores que nem colocam a hipótese da reparação. Os nossos inquéritos revelam que 65% dos que participaram no estudo nem averiguaram a possibilidade de arranjar pequenos eletrodomésticos avariados; 47% também descartaram essa hipótese no caso de grandes eletrodomésticos com problemas; e 56% confessam agir de igual modo perante equipamentos de tecnologia com falhas. Entre os que pensaram nesta hipótese e acabaram também por substituir os equipamentos, uma boa parte refere que o custo da reparação não compensava ou que não era viável, por já não existirem peças de substituição.

Urge combater os entraves à reparação

Perante a possibilidade de reparar, os consumidores deparam-se, muitas vezes, com vários entraves.

Bateria difícil ou impossível de substituir

Na maioria dos smartphones, é muito difícil substituir a bateria sem recorrer a um profissional. A maioria dos utilizadores tem de recorrer ao fabricante, o que faz com que o arranjo saia muito mais caro do que a compra de uma bateria nova. 

Outro exemplo ainda mais problemático é o das colunas Bluetooth ou dos auscultadores sem fios: na maioria não é possível substituir a bateria. Quando esta deixa de funcionar, o aparelho que, com exceção da bateria, ainda funciona perfeitamente, vai para o lixo. 

Cola em vez de parafusos

É cada vez mais frequente que, no interior dos aparelhos, as peças sejam coladas ou, de uma forma ou de outra, fixadas de forma permanente. Já não é hoje, por isso, possível utilizar-se uma chave de parafusos para se desmontar um smartphone ou uma coluna Bluetooth. O mesmo é, de resto, válido para os aparelhos de maiores dimensões como as máquinas de lavar. Ao tentar desmontar peças coladas, corre-se o risco de danificar o aparelho. Já para não referir que, para se voltar a montar as peças, é necessário usar novamente cola e que, se isso não for feito como deve ser, há o risco de o aparelho ficar mais vulnerável ao pó e à água. 

Componentes integrados

Quando um elemento de um aparelho está danificado, muitas vezes não se consegue substituí-lo pela simples razão de que não é possível separá-lo de outras peças. Se um botão de uma máquina de lavar roupa ou loiça, por exemplo, estiver partido, é provável que se tenha de substituir a totalidade do painel frontal. Outro exemplo é o do disco rígido dos computadores, que, por estar normalmente soldado à placa-mãe, não pode ser substituído. 

Faltam peças de substituição

Quando alguém está a pensar consertar um aparelho, é frequente que lhe digam que não existem peças de substituição disponíveis. É que o espaço para se armazenar peças de substituição custa dinheiro e os comerciantes optam frequentemente por armazenar pequenas quantidades e durante períodos limitados. Por outro lado, por muito que estejam disponíveis, algumas peças de substituição são de tal forma caras que ninguém as compra.

Custos de reparação elevados

Por vezes, o custo de uma reparação (soma do tempo de trabalho e das peças de substituição) pode ser bastante elevado. Para quê gastar, por exemplo, 50 euros a arranjar um aspirador quando por 65 euros já consegue comprar um modelo novo de boa qualidade?

Novas funcionalidades que dependem de atualizações 

Se, ao fim de algum tempo, determinadas funcionalidades do seu aparelho deixarem de funcionar ou se já não for possível atualizar uma ou outra função importante, a recuperação ou a conservação do aparelho pode tornar-se menos interessante. 

Falta de informações disponíveis 

Muitas vezes, quando se quer arranjar um equipamento em casa, nem se sabe por onde começar. Os fabricantes não fornecem, normalmente, grandes informações sobre como desmontar e reparar um aparelho. Se essas informações estivessem disponíveis, seria bem mais fácil para os consumidores repararem eles próprios os seus aparelhos.

Junte-se ao nosso movimento contra a obsolescência 

Estamos certos de que os consumidores optariam, mais vezes, pela reparação dos equipamentos se esta fosse mais prática e acessível. Através da nossa ação “Contra a obsolescência prematura”, encorajamos os fabricantes a conceber aparelhos facilmente reparáveis e, assim, prolongar o seu tempo de vida útil. Ajude-nos a levar esta ação a bom porto, denunciando os aparelhos que avariam antes do tempo. 

Denuncie aparelhos com avarias antes do tempo

As suas denúncias ajudam-nos a participar ativamente em vários projetos financiados pela Comissão Europeia. Estes visam facilitar a reparação de produtos (Sharepair) e desenvolver um programa de teste para avaliar a duração dos aparelhos colocados à venda (PROMPT).

O projeto europeu PROMPT, cuja sigla em inglês se poderá traduzir por algo como “programa de teste à obsolescência prematura dos produtos”, agrupa várias associações de consumidores nossas congéneres de outros países da Europa. Lançado em maio de 2020, o PROMPT é um consórcio de investigadores, organizações de consumidores, e plataformas e empresas de reparação de toda a Europa, com sede em Berlim, na Alemanha. Esta parceria é financiada pelo programa europeu Horizonte 2020 e é mais um dos vários passos que a Comissão Europeia pretende dar em direção a uma economia circular.  

Objetivo: combater os ciclos de vida curtos de alguns aparelhos, com benefício para o consumidor e para uma sociedade mais sustentável, que não esteja sujeita à acumulação de resíduos. Só para ter uma noção do problema, o crescimento de resíduos elétricos e eletrónicos no espaço europeu aumenta 3% a 5% por ano, devendo chegar a 12 milhões de toneladas em 2020.

Equipamentos elétricos e eletrónicos não são lixo

Na altura de se desfazer de equipamentos ou eletrodomésticos que ainda funcionam e estão em bom estado, procure doá-los a quem precisa ou entregue-os a uma instituição de solidariedade. Se estiverem em mau estado e deteriorados, não os abandone na via pública ou no lixo comum.

Para garantir que lhes dá um fim de vida adequado, entregue o velho equipamento na loja onde comprar um novo ou num dos pontos de recolha disponíveis na sua área, seja em ecocentros municipais, seja em contentores adequados para o efeito que existem em muitas superfícies comerciais. Estes contentores destinam-se a pequenos eletrodomésticos, como batedeiras ou torradeiras, por exemplo. São os chamados Pontos Eletrão ou Depositrão. 

Pode, ainda, ver o local mais próximo de si para colocar estes resíduos no site do Sistema Nacional de Informação do Ambiente.

Se não forem separadas corretamente e enviadas para reciclagem, algumas substâncias tóxicas contidas nestes aparelhos poderiam contaminar gravemente o solo, o ar e a água. A recolha destes equipamentos permite recuperar uma série de matérias-primas que serão incorporadas no fabrico de novos aparelhos. O aço e outros metais ferrosos constituem mais de metade dos elementos recuperados, seguidos do plástico (21%), dos metais não ferrosos (13%, entre os quais os metais preciosos) e do vidro (cerca de 5 por cento). 

Estudo fala do fator psicológico

Ainda no âmbito do projeto PROMPT, um estudo da Universidade Tecnológica de Delft (Países Baixos) conclui que muito desperdício pode ser gerado, simplesmente, pela nossa perceção. Ou seja, a obsolescência dos produtos pode ser um fenómeno puramente psicológico. Os investigadores que assinam o estudo afirmam que, à medida que o desempenho de um aparelho ou de um dispositivo baixa, a estima que lhe temos revela uma espécie de desamor da nossa parte. Desmotivamo-nos, e a nossa vontade de o conservar também se reduz. 

Partindo desse estudo, é possível elencar algumas desculpas que os consumidores encontram para deitar fora estes produtos antes do tempo: “O meu aparelho já não funciona bem”; “parece desgastado”; “está ultrapassado”; “a garantia está desatualizada”; “não pode ser reparado, de qualquer maneira”. Mas é possível os consumidores “fazerem as pazes” com objetos e aparelhos mais antigos e não cederem logo à tentação de comprar novos. Esse desejo consumista deve ser contido se cuidarmos deles. Gestos tão simples quanto substituir uma bateria num telemóvel podem ser amigos do ambiente e proporcionar uma poupança considerável. Já é possível comprar baterias novas relativamente baratas, se for esse o problema que o afeta, em vez de o substituir por inteiro. Há quem o queira substituir por avaria no carregador. Neste caso, nem será preciso dizer que há muitos carregadores baratos à nossa espera nas lojas. Até mesmo o ecrã é possível reparar com alguma facilidade, se o problema for o aparelho ter caído ao chão. 

Se voltarmos ao campo dos afetos, há outra questão a considerar. Ainda no nosso exemplo com o telemóvel, à medida que o tempo passa e a tecnologia evolui – às vezes, é uma questão de meses – vamos olhando para eles como “ultrapassados”. Mas, muitas vezes, eles estão perfeitamente funcionais. É só a pressão da moda e do marketing que nos leva a pensar assim. A nova tendência tem de ser, por isso, a preservação. E não só no que toca a telemóveis: máquinas de lavar, televisores, máquinas de café, entre muitos outros aparelhos, têm sempre a opção de poderem ser conservados antes de serem rejeitados pelos consumidores. 

Prazos de garantia alargados

Outra ideia feita ligada à nossa relação com as máquinas é a de que a garantia já passou. Há que passar uma esponja neste pensamento. Desde 1 de janeiro, o prazo de garantia dos bens móveis – todos os aparelhos de que demos exemplos anteriormente – passou de dois para três anos. Embora, durante o terceiro ano de garantia, é certo, tenha de ser o consumidor a provar que o defeito existia à data de entrega do bem, o que, convenhamos, dificulta as coisas. Mas sempre pode ser um pequeno contributo para evitar que nos desfaçamos das coisas cedo demais.

E se o aparelho avariou durante o prazo da garantia? Não se precipite logo a trocá-lo por outro, gerando mais um resíduo elétrico ou eletrónico. Em caso de avaria, pode optar pela reparação, e o vendedor está obrigado a fazê-lo, se houver, obviamente, possibilidade de reparação. Neste caso, a garantia é prolongada por seis meses por cada reparação (com um limite de quatro), pelo que existe um “reset” do prazo. Se houver necessidade de transporte do produto para outro local, onde será feito o arranjo, essas despesas também serão cobertas pela garantia. Por isso, ambientalmente falando, esta deverá ser a primeira opção. 

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