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Consumidores como nós: entrevista aos irmãos e enólogos Maçanita

Joana e António Maçanita revelam como adaptaram as empresas Maçanita Vinhos, Fita Preta e Azores Wine Company, para enfrentar a crise provocada pela pandemia.

  • Texto
  • Filipa Nunes
15 março 2021
  • Texto
  • Filipa Nunes
Irmãos Maçanita

4See/Jorge Simão

António e Joana Maçanita têm projetos de produção própria no Douro, Alentejo (onde nos receberam) e nos Açores, mas também dirigem outros projetos e apoiam produtores, através de consultoria, em várias regiões. O Sexy Tinto foi um dos vinhos que conquistaram grande visibilidade ao longo dos anos e que foram mais relevantes para o arranque de uma das empresas. Os dois irmãos e enólogos somam prémios na especialidade e o mais recente foi atribuído à Fita Preta, gerida por António, no Alentejo, como Produtor do Ano 2020.

A pandemia mudou os seus hábitos de consumo?

António Maçanita: Antes da pandemia, já tinha tomado a decisão (quase 15 dias antes) de vir viver para Évora. Antes, eu estava muito perto da restauração, e grande parte do meu consumo de refeições era na restauração. O grande palco do vinho são os restaurantes e, se calhar, o grande palco de muitos produtos portugueses. Por isso, não tendo possibilidade de ir aos restaurantes, passei a querer ter esses produtos em casa. Mas a maioria desses produtos (a boa carne, o bom peixe…) não se encontra em supermercados. Passei a usar outros canais, para falar diretamente com o produtor, para conseguir comprar peixe online, para comprar carne num produtor local...

Joana Maçanita: Eu nunca gostei de estar em casa! Sair, comprar, ver e tocar sempre foi a minha eleição. A pandemia mudou isso. Ficar em casa e comprar em casa era mais seguro. Mudou completamente a minha forma de abordar a compra. Nunca fui uma pessoa de Uber Eats e de Glovo. E passei a ser.

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António Maçanita mudou-se da cidade para o Alentejo, pouco antes do início da pandemia em 2020.

Qual a maior dificuldade que sentiu?

António Maçanita: Acho que é o não conviver. Quando se está na área do vinho, e vamos supor que se gosta de gastronomia, a comida é um pretexto e o vinho é um pretexto para conviver. Estar limitado no convívio, não poder ir a esses palcos - conversar com os chefs, com os sommeliers, com clientes - foi o que me fez mais falta. O impacto económico também foi uma das grandes dificuldades: de repente, perdi esses clientes, tivemos de nos adaptar rapidamente para que não fosse mais grave.

Joana Maçanita: A maior dificuldade que senti foi fazer o papel de mãe e de profissional empresária ao mesmo tempo. Tinha de manter a minha empresa, não podia falhar nessa parte, que era a minha subsistência e a do resto das pessoas que dependiam de mim. Com três filhos em telescola, tive de falhar como mãe.

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Joana Maçanita está à frente da loja online do grupo, criada para fazer face às dificuldades após o fecho de restaurantes e garrafeiras.

Que aspetos positivos trouxe o confinamento?

António Maçanita: Permitiu-me ter uma vida pessoal e tempo como nunca tive, para a minha mulher e as minhas filhas, sem deixar de fazer o trabalho. Sempre tive de estar nos mercados de exportação, visitar clientes, ir fisicamente a vários sítios. Durante a pandemia, concluiu-se que 80% dessas viagens ou deslocações podiam ser feitas por Zoom ou outro canal. Até as provas de lotes de regiões podem ser feitas assim: recebo as amostras, e quem está do outro lado do Zoom também, e a prova é feita. 

A nova forma de comunicar com os nossos consumidores também é um aspeto positivo. O meu consumidor final sempre foi a restauração e, de repente, passei a falar com os clientes dos restaurantes, nas plataformas digitais, nas redes sociais, em lives ou formações online. Parece pouco, mas num live no Instagram com a minha irmã estão 150 pessoas, e nunca enchemos uma sala com 150 pessoas. Fiz um Zoom para a Suécia com 70 pessoas! Nunca fui a um evento de vinho com 70 pessoas; fala-se para 10 ou 20 pessoas. Não é a mesma intensidade, como é óbvio, de ser físico, mas há uma capacidade de passar a mensagem talvez mais eficaz.

Joana Maçanita: Os aspetos positivos desta pandemia passam por nos reinventarmos, por esta sensação de que podemos ser mais do que nos considerámos até então. Esta pandemia obrigou-me a deixar de ser enóloga e passar a ser diretora de uma loja online, que o nosso grupo criou e da qual fui nomeada motor, eu que não tenho experiência nem de marketing, nem de vendas, nem de publicidade, tampouco de Instagram ou Facebook… Não era a minha praia. Eu sou uma pessoa que gosta de estar no campo, na adega, gosto da produção e de provar vinhos. Estou há um ano a desenvolver isto e estou superentusiasmada com o que aprendi. Aprender coisas novas é um dos aspetos positivos.

Que conselho daria às empresas? 

António Maçanita: Se acreditarmos no nosso produto e acreditarmos que os consumidores ainda estão lá, o problema resume-se ao canal. Em 14 dias tínhamos a nossa loja online montada, que representou 10% das nossas vendas de 2020, o que quer dizer que combateu 10% das perdas. No grupo, acabámos o ano 10% abaixo das vendas. Mas, se não tivéssemos a loja online, tínhamos ficado 20% abaixo. E se não tivéssemos as lojas físicas, que são investimentos anteriores, nas próprias adegas, aqui [em Évora] e nos Açores, teríamos 25% de perdas. 

Nunca houve essa necessidade de ir em busca do consumidor final antes, e agora houve dois canais que se abriram.  Eu adoro sentir que falo com pessoas que verdadeiramente provaram os meus vinhos, que têm uma opinião e que estão numa viagem de experiência, em vez de estarem só numa viagem de consumo. Não há uma fórmula igual para todos, mas é acreditar que há consumidor. Ele está disposto a pagar, mas pela qualidade e diferença. Vejo muito o nosso caminho de crescimento, não em quantidade, mas em termos uma relação mais próxima com o cliente, mantendo a qualidade.

Joana Maçanita: Há sempre soluções, a meu ver. O problema é o problema, ele existe e não vai desaparecer; a solução é que é a magia. E quando nós paramos para pensar que há uma solução, ela aparece. A Maçanita Vinhos, a Fita Preta Vinhos, a Azores Wine Company, as nossas empresas vendiam 95% da produção na restauração e nas garrafeiras, e elas fecharam! Não há solução, não há nada a fazer. Mas, na verdade, há: criou-se uma plataforma online e uma possibilidade de nos ligarmos aos clientes, que não era ideal, nem nossa conhecida, mas criámos essa ligação com os nossos clientes, que até é, muitas vezes, mais interessante. O mais importante é sentar e pensar “o que é que eu posso fazer?”. Já sabemos o que não posso fazer. E não ter barreiras.

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António Maçanita com a irmã Joana Maçanita (à direita) e Sandra Sárria (à esquerda), sócia do projeto Fita Preta.  

Experiência surpreendente durante a pandemia?

António Maçanita: Achei impressionante o positivismo geral das pessoas. Fomos obrigados a parar, mas conheço pouca gente que não tenha gostado de confinar, sem contar com as pessoas que enfrentaram situações graves familiares. Alguns dos meus parceiros restaurantes, com 70% de quebras, estão positivos e com espírito de guerra, e isso surpreendeu-me.  

Joana Maçanita: Antes do Carnaval, estava na nossa quinta do Douro, e a minha filha diz-me, na quinta-feira anterior, que se quer mascarar de pantera cor-de-rosa. Procurei coisas que tivesse na quinta para ela vestir, mas não havia quase nada. Encomendei online, numa sexta-feira à tarde no Douro – estamos a falar de uma quinta no meio do nada – e, na segunda-feira à hora de almoço, eu tinha a máscara. Escrevi um comentário fantástico, mandei um e-mail… Quando há pessoas que entendem este conceito de serviço, faz muita diferença. 

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A equipa Maçanita recebeu-nos no Paço do Morgado de Oliveira, perto de Évora. Foto: Direitos reservados.

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