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Consumidores como nós: entrevista a Júlio Isidro

Não apresentou queixa quando recebeu um pão com um parafuso enferrujado. Mas é mais exigente com as companhias aéreas, que não informam devidamente os passageiros quando há problemas com os voos. Veja a entrevista completa.

05 junho 2018
Júlio Isidro, sentado no ateliê da sua casa, com aviões de aeromodelismo ao fundo.

4 See/Paulo Alexandre Coelho

Foi em casa que Júlio Isidro nos recebeu para falar sobre as suas aventuras de consumo. Fã de aeromodelismo, o apresentador deixou escapar que o seu "pior pesadelo de consumo é a viagem que não se faz ou se adia". Veja a entrevista completa no vídeo.

 

Qual prefere: o livro de reclamações ou o de elogios?

Prefiro o livro de elogios. Embora nunca tenha escrito num, tenho dito a muitas pessoas que me atendem que vale a pena estar com elas, pela forma cordial, atenta, delicada, até mesmo cúmplice com que sou tratado. Mas um dia vou escrever num livro de elogios.

Já ameaçou alguém que iria fazer queixa à DECO?

Não. Talvez por ser um easy going, porque já poderia ter feito. Mas que importa ter recebido, num restaurante, um pãozinho com um parafuso enferrujado lá dentro e o dono dizer que me oferecia uma bica? Eu fiquei ofendidíssimo com isso... [risos]. Porém, não apresentei queixa.

julio isidro

Para Júlio Isidro, o pior pesadelo de consumo é a "viagem que não se faz ou se adia".
 

Qual é o seu pior pesadelo de consumo?

O meu pior pesadelo de consumo é a fila que não sabemos porque existe ou a pessoa que não nos dá qualquer explicação sobre porque estamos tanto tempo à espera. Eu consigo retratar isso fundamentalmente num aeroporto. Há uma enorme falta de respeito das companhias de aviação pelos passageiros. Embora exista legislação para defendê-los, as companhias aéreas não se preocupam muito. Numa situação de atraso, avaria ou de outro contratempo, normalmente, o passageiro não é informado como deveria ser. O pior pesadelo é mesmo a viagem que não se faz ou que se adia.

Esse problema sente-se mais em Portugal, ou lá fora também é normal?

Nunca tive o percalço lá fora. Mas cá dentro tive uma situação com uma companhia de aviação que não é portuguesa. Houve uma avaria no avião no momento em que entrámos. Como íamos ficar sentados uma hora e meia ou duas, o comandante veio à coxia explicar o que se passava. Entretanto, aconteceu uma coisa que tem que ver com a democracia bem assumida: o comandante mandou vir comida e, juntamente com as hospedeiras e os comissários, andou a distribuir sanduíches, explicando a cada passageiro o que estava a acontecer. Eu pensei que estava noutro país!

julio isidro

O apresentador gostaria que a DECO fizesse um estudo sobre "a forma como os portugueses não comunicam uns com os outros".
 

Alguma vez usou um serviço da DECO?

Eu não me lembro de nenhuma situação. Mas devo dizer que, cá em casa, uma das minhas filhas é muito atenta às questões dos componentes dos alimentos e das bebidas. Ela, muito mais do que o pai, consulta os testes e comparações da DECO para saber mais sobre o que comemos.

Que estudo nos falta fazer?

Talvez pudessem fazer um estudo sobre a forma como não comunicamos uns com os outros. Por exemplo, quando quero falar com alguém, a primeira coisa que faço é pegar no telefone e ligar. Mas a maioria das pessoas manda um SMS. Ou seja, começam desde logo a negar a comunicação. Tudo isso tem muita graça, porque vivemos no tempo dos meios de comunicação. No entanto, a comunicabilidade é uma coisa completamente diferente. Cada vez há mais meios para comunicarmos, e cada vez comunicamos menos. Portanto, sugiro que façam um estudo sobre a forma como os portugueses não comunicam uns com os outros.

O consumidor tem sempre razão?

Não. Eu acho o fornecedor deve, naturalmente, ouvir a crítica do consumidor. E este tem de perceber que, do outro lado, está alguém que talvez não consiga satisfazer... diria... o seu capricho. Porque também há o cliente que vai fazer o negócio com sofisma. Às vezes, mais do que um braço de ferro, há uma tentativa de golpada de parte a parte. Por exemplo, o consumidor diz “eu comprei isto e nunca usei”, mas afinal usou. Há pessoas que, no seu ato de compra, consideram que estão a fazer um favor a quem está a vender. É uma relação de poder que não deve existir. O que deve existir é um diálogo. Eu, que trabalho em televisão, posso considerar que, às vezes, os meus clientes - os espetadores - têm razão. Cada vez que me escrevem uma linha, fico pensar se há razão naquilo. E, quando é preciso, sou capaz de responder, por exemplo, no Facebook.

Sobre Júlio Isidro

Júlio Isidro é um apresentador de televisão e rádio com mais de 50 anos de carreira. Colaborou com vários meios, como o Rádio Clube Português, RTP, TVI, Rádio Comercial. Deixou marcas em programas como "O Fungagá da Bicharada" e "Arte e Manhas". É ainda autor de vários livros infantis e da sua autobiografia, intitulada "O programa segue dentro de momentos". Atualmente, apresenta o programa "Inesquecível", na RTP Memória.