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Consumidores como nós: entrevista a Francisco Pinto Balsemão

Aos 81 anos, o fundador do grupo Impresa, ao qual pertencem o semanário Expresso e a SIC, e antigo primeiro-ministro assume que faz poucas compras. Está preocupado com a necessidade de reduzir ao máximo os plásticos.

20 março 2019
pinto balsemao

4See/Fernando Piçarra

O consumidor tem sempre razão?

Não! Muitas vezes, exagera e protesta quando não deve protestar. Acho que aí também há um papel importante a desempenhar pela DECO.

Quando vai às compras, a que presta atenção?

Vou muito pouco. Mas, quando vou, estou atento à qualidade e ao preço. Compro livros e discos, e vou procurar o que me interessa mais, com qualidade e preço aceitável.

Lembra-se da sua pior compra?

Lembro. Tinha 20 e tal anos e algum dinheiro amealhado. Queria ter um Porsche, mas não tinha dinheiro, nem sequer para um em segunda mão. E então comprei um em quinta mão. Foi um péssimo negócio: estava sempre avariado e pouco consegui andar nele.

E a melhor?

Talvez por ter sido precursor na escolha, uma aparelhagem de som da Bang & Olufsen, que ainda hoje tenho e continua a ter um som formidável. Gosto muito de música (jazz, clássica) e esta aparelhagem é uma companhia que se tem mantido ao longo dos anos.

É um consumidor impulsivo?

Não! Passam-se anos sem fazer uma compra. Se a minha mulher não me comprasse os fatos e as camisas, quase nem dava pela necessidade de os comprar.

Que direitos do consumidor deveriam estar mais defendidos?

Penso que é preciso proteger e defender o consumidor. E fazer isso de uma forma inteligente, não extremista. Mas ainda há muito a fazer. Ainda há muito a fazer quanto àquilo que se come e bebe e ao ar que se respira. A luta contra o plástico é outra luta fundamental, na qual estou empenhado. Há sempre muito a fazer na defesa do consumidor.

Papel da PROTESTE na mudança da sociedade 

O que estava a fazer há 40 anos?

Estava essencialmente no [jornal] Expresso. O PSD já existia e naquela altura talvez tivesse lugar na comissão política. Também era presidente da Comissão de Relações Internacionais do partido. Mas a atividade básica e fundamental era o Expresso.

Entretanto, o País mudou imenso. De todas as mudanças sociais a que assistimos, quais as mais marcantes?

Isso dava para uma conferência! Mas o mais marcante foi conseguirmos evoluir em termos de liberdade e haver uma melhor distribuição da riqueza, embora ainda haja muita injustiça social, que é necessário corrigir. Houve uma grande evolução. O Serviço Nacional de Saúde é um exemplo que é costume dar-se, e que merece ser dado. A mortalidade infantil também teve uma diminuição assinalável.

De que forma a PROTESTE ajudou a moldar a sociedade nos últimos 40 anos? 

Em tudo o que tem que ver com direitos do consumidor. Fez parte dessa mudança. Eu já estava ligado a essa causa, porque era amigo do Manuel Cabeçadas Ataíde Ferreira, que esteve à frente desse movimento e foi um dos fundadores da DECO. Ele escrevia para o Expresso e acho que ainda no meu tempo do Diário Popular tínhamos tido algumas abordagens sobre o tema.

Lembra-se de alguma notícia ou polémica que tenha envolvido os direitos do consumidor?

Toda a luta contra a poluição, que, na altura, era uma palavra que quase não existia.

É leitor da PROTESTE?

Sou assinante há muitos anos.

Que teste nos falta fazer?

Aos malefícios das gaivotas, que estão a aparecer cada vez mais em terra e que se tornam quase hitchcockianas [referência ao filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock] em relação a outros animais.

 

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