Notícias

Como se deslocam os portugueses em seis cidades

Além do carro, há quem também use transportes públicos e/ou caminhe. A bicicleta é pouco usada. Mas nem sempre peões, condutores e ciclistas convivem em harmonia.

  • Dossiê técnico
  • Ana Almeida
  • Texto
  • Isabel Vasconcelos
27 março 2020 Exclusivo
  • Dossiê técnico
  • Ana Almeida
  • Texto
  • Isabel Vasconcelos
mobilidade cidades

Paulo Buchinho

Segundo quase 3500 inquiridos de seis cidades (Aveiro, Braga, Faro, Lisboa, Porto e Setúbal), o automóvel é o transporte mais usado nas deslocações diárias, com exceção de Lisboa, onde os transportes públicos também têm uma grande procura. Contudo, o nosso estudo revelou que a convivência com as bicicletas e as trotinetes nem sempre é pacífica. Ao ponto de 69% dos inquiridos considerarem que os utilizadores de trotinetes não cumprem as regras de trânsito e 52% defenderem que os condutores de automóvel e mota não respeitam os ciclistas.

Lisboa e Porto mais sustentáveis

Nem todas as cidades portuguesas têm várias alternativas de transporte e em diferentes horários, como acontece em Lisboa, Porto e, em menor medida, Setúbal. E é algo que se nota nos resultados do inquérito, pois só nestas três cidades há uma maior utilização dos transportes públicos, sobretudo em Lisboa e no Porto.

mobilidade

Os dados sobre a frequência e o uso das diferentes alternativas de transporte permitiram-nos calcular o índice de comportamento sustentável, ao nível da mobilidade, dos habitantes de cada cidade. Para alguém ter um comportamento mais sustentável, terá de usar transportes públicos, bicicleta, trotinete ou caminhar, pelo menos, três a cinco dias por semana e usar carro ou mota, no máximo, um a dois dias por semana. Lisboa, seguida do Porto, revelaram mais inquiridos com um comportamento sustentável do que a média das seis cidades: 29% e 21%, respetivamente. Já Aveiro, com 7%, e Braga, com 9%, foram as que tiveram menos inquiridos com um comportamento sustentável. No meio ficaram Setúbal (17%) e Faro (15 por cento).

Faro e Lisboa com mais conflitos

O convívio entre os diferentes meios de transporte e os transeuntes nem sempre é pacífico, sobretudo nas grandes cidades. Em relação às trotinetes e similares (como hoverboards), 69% concordam que os condutores destes meios não cumprem as regras de trânsito. Faro e Lisboa registaram mais opiniões do que a média a favor desta afirmação, e Aveiro teve menos inquiridos a concordar com aquele aspeto. Também há uma percentagem considerável a afirmar que o uso das trotinetes cria conflitos com os peões (56%) e com os automobilistas (53 por cento). Em ambos os casos, em Lisboa e Faro foi onde encontrámos mais inquiridos a favor destes aspetos. Aveiro e Setúbal registaram menos opiniões favoráveis. O facto de a maioria das opiniões relacionadas com trotinetes ter sido obtida em Lisboa e Faro deve-se a serem duas cidades onde existem plataformas de partilha daquele meio.

Quem respondeu ao inquérito também defende que as bicicletas não deveriam circular nos passeios e outras vias pedonais (59%), sendo que Lisboa e Porto registaram maior concordância. Consideram ainda que os ciclistas, em geral, não respeitam as regras do trânsito (58%): Lisboa e Porto revelaram mais opiniões a favor desta afirmação. Mas os condutores de automóveis e motas também são foco de alguma preocupação, pois 52% dos inquiridos concordam que, em geral, não respeitam os ciclistas. Foi em Lisboa que registámos mais pessoas a concordar com este aspeto.

Os inquiridos concordam que...

mobilidade cidades

Poucas ciclovias nas cidades

Os inquiridos são pouco amigos da bicicleta. Mais de metade indicou que nunca usa (52%), provavelmente porque 59% também não a têm. Dos que a utilizam, só 7% o fazem mais de três dias por semana. Os inquiridos de Faro são os que mais optam pela bicicleta para as deslocações diárias (10%) e os do Porto os que o fazem menos, pois apenas 4% utilizam aquele meio três dias ou mais por semana.

mobilidade cidades

mobilidade cidades

A satisfação com as ciclovias existentes nas seis cidades não é das maiores. Mesmo assim, os lisboetas revelaram-se mais satisfeitos do que a média e os farenses mais desagradados. O desenho da rede (os percursos são agradáveis e seguros?) e a sua extensão (abrange toda a cidade ou não?) são as variáveis que mais influenciam a satisfação global com as ciclovias. Dos vários critérios analisados, constatámos que, em Lisboa, a sinalização da rede foi o mais apreciado, embora tenha recebido uma pontuação de 5,5 em 10, e a conetividade, ou seja, a possibilidade de fazer os trajetos sem interrupções ou desvios, o que menos agradou. Em Faro, o desenho da rede foi o critério com melhor apreciação (4 em 10). Já a manutenção daquela, logo seguida pela conectividade, foram os menos apreciados.

mobilidade cidades

Porto e Faro menos aptas a ciclistas

Serão as cidades adequadas ao uso de bicicletas? Os inquiridos de Lisboa e de Aveiro consideram que sim, já os de Faro e do Porto estão menos convencidos. Para esta decisão, o que mais pesou foram as condições de trânsito na cidade, como o tráfego automóvel e o respeito pelos ciclistas. Mas também têm influência a quantidade de locais disponíveis para estacionar as bicicletas e o estado das ruas (se há muito pavimento irregular ou buracos). De salientar que os aspetos mais apreciados nas seis cidades foram as condições meteorológicas para andar de bicicleta e a geografia das mesmas, ou seja, não é por haver muitas subidas ou por a cidade ser grande que deixa de haver ciclistas interessados.

O uso de capacete numa bicicleta sem motor, embora não seja obrigatório, é recomendável, por uma questão de segurança. Caso tenha motor, o código da estrada indica que os utilizadores devem usar capacete. Contudo, a maioria dos inquiridos indicou que nunca ou só algumas vezes o usam (56 por cento). Em Aveiro e Faro, foi onde mais ciclistas afirmaram não usar este acessório. Quanto à condução e ao cumprimento do código da estrada, 18% afirmaram que nem sempre ou quase nunca respeitam os semáforos e que circulam com regularidade nos passeios: os homens são mais infratores do que as mulheres. Quanto à circulação nos passeios, é em Braga, seguida de Lisboa e do Porto, que os ciclistas que nos responderam o fazem com mais frequência.

Por fim, quisemos saber se a bicicleta já tinha sido roubada ou vandalizada nos últimos cinco anos: 20% queixaram-se de roubo e 17% de danos, com Aveiro a apresentar maior percentagem em ambos os casos. Quanto a acidentes, 26% já tiveram, pelo menos, um.

É urgente promover a segurança rodoviária

As cidades não estão preparadas para os meios de mobilidade que têm surgido, como trotinetes e bicicletas partilhadas. É evidente a forma caótica como aqueles meios são abandonados por todo o lado e como o código da estrada é ignorado por muitos utilizadores. Mas automobilistas e peões também não fazem um esforço para cooperar com quem usa bicicletas e trotinetes.

É urgente uma intervenção pedagógica, por exemplo nas escolas, que promova a segurança rodoviária. Também é essencial mais fiscalização por parte das autoridades policiais. Quem usa bicicleta ou trotinete sem ser de partilha deveria ser obrigado a contratar um seguro de responsabilidade civil, para fazer face a eventuais acidentes ou danos provados a outros. Por uma questão de segurança, o capacete deve ser obrigatório para quem usa bicicleta e trotinete. Por fim, é fundamental planear as ciclovias de modo a evitar a conflitualidade com as vias pedonais (por exemplo, através de delimitações físicas e visíveis entre os diversos espaços).

Junte-se à maior organização de consumidores portuguesa

Num Mundo complexo e com informação por vezes contraditória, a DECO PROTESTE é o sítio certo para refletir e agir.

  • A nossa missão exige independência face aos poderes políticos e económicos. 
  • Testamos e analisamos uma grande variedade de produtos para garantir que a escolha dos consumidores se baseia em informação rigorosa. 
  • Tornamos o dia-a-dia dos consumidores mais fácil e seguro. Desde uma simples viagem de elevador ou um desconto que usamos todos os dias até decisões tão importantes como a compra de casa.
  • Lutamos por práticas de mercado mais justas. Muitas vezes, o País muda com o trabalho que fazemos junto das autoridades e das empresas. 
  • Queremos consumidores mais informados, participativos e exigentes, através da informação que publicamos ou de um contacto personalizado com o nosso serviço de apoio.

A independência da DECO PROTESTE é garantida pela sustentabilidade económica da sua atividade. Manter esta estrutura profissional a funcionar para levar até si um serviço de qualidade exige uma vasta equipa especializada.

Faça parte desta comunidade.

Registe-se para conhecer todas as vantagens, sem compromisso. Subscreva a qualquer momento.

Junte-se a nós

 

O conteúdo deste artigo pode ser reproduzido para fins não-comerciais com o consentimento expresso da DECO PROTESTE, com indicação da fonte e ligação para esta página. Ver Termos e Condições.