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Alimentação sustentável: como vai ser o futuro à mesa?

Como alimentar a população mundial e respeitar os princípios de sustentabilidade ambiental? O tema foi explorado no ciclo de conferências Visões do Futuro, em Lisboa, no passado dia 18 de outubro.  

  • Texto
  • Deonilde Lourenço
24 outubro 2019
  • Texto
  • Deonilde Lourenço
VF alimentar

Victor Machado

Temos lugar à mesa para mais mil milhões? Cerca de uma hora foi suficiente para levantar muitas questões e sugerir outras tantas respostas à pergunta que deu o nome ao painel, um entre vários no ciclo de conferências Visões do Futuro, que decorreu no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, a 18 de outubro último.

A análise da sustentabilidade da produção e distribuição alimentar à população do Planeta foi entregue a cinco oradores. O mote do painel era claro quanto à complexidade do tema e das abordagens e contou com a participação de Dulce Ricardo, coordenadora da área alimentar da DECO PROTESTE, Francisco Ferreira, Presidente da Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável, Hélio Loureiro, chef de cozinha, Hunter Haulder, fundador da Re-food, e de João Wengorovius Menezes, gestor, com a moderação da jornalista Carla Jorge de Carvalho.  

 
 
Francisco Ferreira, da Zero, e Dulce Ricardo, da DECO PROTESTE.

A perspetiva do crescimento da população mundial até 2030, em conjugação com um horizonte de escassez alimentar e de escolhas obrigatórias ao nível ambiental, para reduzir a pegada ecológica, dominou o debate. “Os alimentos pesam 32% na nossa pegada ecológica”, lançou Francisco Ferreira. Daí que este ambientalista não tenha dúvidas quanto à obrigatoriedade de “fazer a escolha certa do ponto de vista da salvaguarda dos recursos. Consumir produtos locais e da época é crucial. Muita carne é importada e sujeita a produção intensiva. Comemos três vezes mais proteína animal do que deveríamos. A alimentação vegetariana contribui para uma maior eficiência”.  

 
João Wengorovius Menezes, gestor, Carla Jorge de Carvalho, moderadora, e Hunter Haulder, da Re-food. 

Na mesma linha de pensamento, não se podem adiar por mais tempo “Sistemas de produção mais regenerativos”, nas palavras de João Wengorovius Menezes. Além do preço e da origem, os produtos alimentares deveriam informar no rótulo acerca da “sua pegada ecológica”, defende este gestor. Associado ao quivi, por exemplo, está uma pegada ecológica enorme. A piorar o cenário, as estatísticas dizem-nos que “Um terço da comida cozinhada é desperdiçada.”

Uma situação contra a qual Hunter Haulder, fundador da Re-food, se bate todos os dias através da sua organização, cuja filosofia consiste em recolher comida que sobra de restaurantes, supermercados e afins, e distribuí-la por quem necessita. 

 
Hélio Loureiro, chef e investigador na área gastronómica.

Hélio Loureiro, que, além de chef, é investigador na área gastronómica, insiste no trio “sazonalidade, proximidade e biodiversidade”. Em várias cantinas, tenta implementar a chamada “ementa ambientalista”, que obedece àqueles princípios. Pouco dado a modas, Hélio Loureiro não exclui a carne de vaca da dieta alimentar, tema que recentemente deu lugar a um debate público quando a Universidade de Coimbra a retirou da ementa das suas cantinas. Desvaloriza também os alimentos da moda, como a quinoa (cuja fama mundial prejudicou em muito a economia das populações locais, devido ao preço elevado que aquele cereal atingiu) e as bagas de góji, perfeitamente substituíveis por outros alimentos.

Dulce Ricardo, da DECO PROTESTE, associou-se a esta perspetiva, salientando que, por exemplo, as bagas de góji podem não ser tão saudáveis como se apregoa pelo facto de não estarem isentas de pesticidas. A coordenadora da área alimentar destacou a importância do regresso às origens e da dieta mediterrânica. Em relação à venda das doses de produtos alimentares, sublinhou que “são necessárias porções menores, mais adaptadas às necessidades, de modo a evitar desperdício alimentar”. 

 

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