Dossiês

30 anos de DECO PROTESTE: conta-me como foi

O pingue-pongue deu lugar à febre do padel, que cresceu muito nos últimos cinco anos. Música e atividade física são fontes de energia e inspiração, e mexem com o coração. A DECO PROTESTE celebra 30 anos com as histórias da revista em 1991.

  • Texto
  • Sónia Graça e Nuno César
07 setembro 2021
  • Texto
  • Sónia Graça e Nuno César
Capa da revista PROTESTE n.º 107, setembro de 1991

Pianos há muitos… mas são todos bons? Em 1991, a PROTESTE lançava um teste a pianos digitais para perceber se eram equiparáveis aos clássicos. E a conclusão foi inequívoca: “Oito dos nove pianos digitais testados não podem substituir-se a um piano vertical acústico, por causa da sonoridade duvidosa.” Ainda assim, o artigo referia muitas “vantagens” em relação aos modelos acústicos: ficam definitivamente afinados; são mais fáceis de deslocar; permitem ensaiar em silêncio, com auscultadores, e têm um preço mais acessível.

Música e atividade física com boas vibrações

Olhando para os dias de hoje, o que mudou? “Os pianos digitais evoluíram muito, mas o seu som ainda fica aquém do de um piano acústico”, observa Carlos Morgado, coordenador de Estudos Estatísticos da Euroconsumers. “Os pianos acústicos têm melhor som e são mais caros. Mas também exigem manutenção (afinação, ajustes mecânicos, etc.).”

Mesmo assim, houve um progresso significativo. “Mais do que a parte sonora, a maior evolução registou-se ao nível dos extras: partituras digitais, leitura de ficheiros multimédia, gravação em disco interno, ligações USB…”, descreve o especialista.

Pianista Maria João Pires colaborou

Até 2001, a DECO PROTESTE testou diversos instrumentos musicais, desde pianos a guitarras e flautas. “Embora, neste mercado, mais caro signifique quase sempre melhor qualidade, os nossos testes demonstraram que essa relação não é sempre proporcional. Ou seja, é possível encontrar um instrumento que custe duas ou três vezes menos do que outro com uma qualidade não muito inferior”, admite Carlos Morgado, que recorda um teste da DECO PROTESTE a pianos verticais em 2001: “Conseguimos reunir um lote de grandes pianistas mundiais, que participaram nos nossos testes cegos. A Maria João Pires foi uma das estrelas que aceitaram o desafio. Avaliou cada um dos instrumentos e o piano que elegeu custava um quarto do preço do modelo mais caro testado.”

Atividade física ou exercício?

Há 30 anos, a PROTESTE recomendava a corrida, o ciclismo e a natação para principiantes. “Antes de mais, importa clarificar conceitos”, avisa Susana Santos. “Hoje, promove-se a prática de atividade física, um conceito mais abrangente”. Qualquer movimento que implique gastar energia é atividade física. É para todos, e inclui todas as formas de motricidade humana: ir ao ginásio, usar mais as escadas ou optar por uma caminhada. O exercício é a atividade planeada e exercida de forma repetida e estruturada, com o objetivo de melhorar ou manter a aptidão física. Já o desporto refere-se ao jogo e à competição, correspondendo ao sistema organizado de movimentos e técnicas corporais executados no contexto de atividades regulamentadas.

Nos anos 80, promovia-se o exercício físico, algo como um “desporto” que se fazia para melhorar a saúde ou a aparência. Contudo, surgiu a necessidade de uma expressão que refletisse o facto de todas as formas de movimento serem benéficas para a saúde, mas também úteis para o desenvolvimento social e económico. A adoção da designação “atividade física” é consensual. Qualquer atividade é benéfica, e pode ser feita em qualquer lugar. Por exemplo, uma caminhada perto de casa ou a jardinagem favorecem a resistência e a flexibilidade. E cortar e carregar lenha, subir escadas e carregar sacos de compras exercitam a força. “Mas, se procura fazer exercício físico, a corrida, o ciclismo e a natação continuam a ser boas opções para principiantes, ainda que também possa considerar uma caminhada mais intensa”, recomenda Susana Santos.

Há 30 anos, a PROTESTE surpreendia-nos com “o coração desportivo”. A nossa especialista explica: o exercício físico provoca adaptações cardíacas fisiológicas. Este conceito, mais conhecido por “coração de atleta”, refere-se às alterações normais do coração de pessoas que realizam regularmente exercício aeróbico intenso (por exemplo, corrida ou ciclismo de maior intensidade) e de pessoas que realizam exercícios de levantamento de pesos de maior intensidade. Esse aumento de tamanho e espessamento das paredes permite que o coração bombeie uma quantidade de sangue muito maior a cada batimento. O maior volume de sangue permite que o coração bata mais devagar, resultando em pulsação mais lenta e mais forte. Atletas de resistência, como ciclistas e corredores, podem ter uma frequência em repouso de menos de 50 batimentos cardíacos por minuto.

A pandemia ditou alterações, mas o aquecimento é crítico. Para evitar lesões e conseguir melhor rendimento, antes de cada sessão, aqueça músculos, tendões e ligamentos. Uma caminhada ou uma corrida muito lenta podem ser suficientes para preparar os músculos. Saltar no mesmo local, abrindo os braços e as pernas, é outra forma. No verão, bastam alguns minutos, mas, no inverno, convém que o aquecimento seja mais longo. Quer ficar fit ao ar livre e de forma gratuita? O portal FitMap revela os melhores espaços para treinar.

Lar, perigoso lar

Em Portugal, continua a haver mais acidentes em casa do que na estrada. Só no ano passado, foram mais de 100 mil. É preciso cuidado com o chão que se pisa, mas também com o que se ingere: os suplementos vitamínicos podem ser uma moda perigosa.

“Todos os anos, em Portugal, mais de 700 mil pessoas sofrem acidentes domésticos. Destas, mais de 50 mil sofreram ferimentos graves que exigiram cuidados, e 2000 tiveram de ficar hospitalizadas. Infelizmente, o lar também pode ser um sítio perigoso: ocorrem aí mais acidentes do que nas estradas.” Começava assim um artigo da PROTESTE, edição de verão de 1991.

Já na altura, as quedas eram o cenário mais frequente (76% dos casos). “As pessoas idosas e as mulheres estão expostas, com consequências mais graves (a menopausa e a velhice fragilizam a ossatura).” Seguia-se uma radiografia da sinistralidade doméstica, das queimaduras até às intoxicações, com conselhos para tornar a casa menos perigosa.

Quedas lideram sinistralidade

Três décadas depois, o problema mantém-se. Todos os anos, continuamos a ouvir notícias que causam consternação. Em abril deste ano, por exemplo, um menino de 6 anos, morreu após cair da varanda, um sétimo andar de um prédio na Póvoa de Santa Iria, Lisboa.

Segundo o sistema Epidemiologia e Vigilância dos Traumatismos e Acidentes (EVITA), no ano passado, houve 100 978 acidentes domésticos no País, 60,5% dos quais quedas. Criado em 2000, este sistema é coordenado pelo Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e faz a recolha e a análise de dados sobre acidentes domésticos e de lazer que implicaram recurso às urgências de unidades de saúde do SNS.

E, tal como há 30 anos, a sinistralidade é maior em casa do que nas estradas. Vejamos só o último ano: a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária registou 27 725 acidentes com vítimas no continente e nas ilhas, de que resultaram 404 mortos.

Suplementos para todos

Respire um bocadinho, porque a notícia que se segue não é mais tranquilizadora. “As vitaminas estão na moda. Mas farão elas tão bem aos consumidores como aos lucros dos laboratórios? Foram analisados 9 produtos polivitaminados. O resultado? A como absurdo, B como barrete, C como caro… U como (por vezes) útil.”

É bem eloquente este cabeçalho da PROTESTE. Os suplementos vitamínicos já mereciam atenção nos anos de 1990. O selénio era então “a última panaceia”. E “a toma excessiva de vitamina A, recomendada por alguns fabricantes”, causava preocupação.

Entretanto, a oferta diversificou-se. E não é preciso ir à farmácia. Qualquer pessoa tem à mão, nas prateleiras de qualquer loja, um suplemento vitamínico. “Os anos 70 são considerados um marco histórico no que diz respeito aos cuidados de saúde. Numa época em que o estudo dos determinantes de saúde começou a ganhar dimensão e a nutrição, enquanto ciência, começou a emergir, resultando num melhor conhecimento da relação com a saúde, deu-se, por consequência, um crescimento no mercado da suplementação nutricional”, contextualiza a bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Alexandra Bento, que fala numa “grande diversificação da oferta”.

Suplementos só com prescrição

Porém, mais oferta deveria ser sinónimo de cuidados redobrados. Alexandra Bento desaconselha a autoprescrição. “A suplementação deve ocorrer mediante prescrição e vigilância de um profissional de saúde e requer uma avaliação individual da situação clínica em questão.” Ou seja, só faz sentido tomá-la “quando exista um diagnóstico que confirme a necessidade suplementar de algum nutriente que, não sendo possível assegurar através da alimentação, precisa de ser reposto com recurso a suplementos”. É o que acontece com desportistas, idosos e grávidas, cujas “necessidades nutricionais estão acrescidas”.

Contudo, a especialista lembra que, “na maioria das situações, uma alimentação completa, equilibrada e variada fornece todos os elementos necessários ao organismo, permitindo atingir as necessidades energéticas e nutricionais diárias, devendo a suplementação ficar reservada para as situações em que há uma real necessidade, atestada por um profissional de saúde, como é o caso dos nutricionistas”.

Muita laranjada, pouca pedalada

As elétricas substituíram a moda das BMX e vieram para ficar. Portugal tornou-se o maior fabricante de bicicletas da Europa, mas ainda tem muito que pedalar. Os portugueses estão mais entusiasmados com as bicicletas e rendem-se ao conforto das elétricas. Há três décadas, não havia sequer modelos com assistência e as BMX eram das mais populares.

“Contudo, se, nos anos 80 e 90 podíamos ver crianças a brincar e a andar de bicicleta na rua, nos dias que correm, em virtude da transformação do espaço público, as brincadeiras de rua acabaram nas cidades, e podemos ver as BMX em skate parks”, observa Rui Igreja, presidente da Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (MUBi).

“O principal obstáculo para os ciclistas é a falta de segurança”, lamenta Rui Igreja, presidente da Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (MUBi). 
“O principal obstáculo para os ciclistas é a falta de segurança”, lamenta Rui Igreja, presidente da Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (MUBi).
Este já era um problema no final do século XX. Começava assim um artigo da PROTESTE, de junho de 1991: “O trânsito atual é caótico: há engarrafamentos cada vez maiores, não se encontra lugar para estacionar, as cidades não estão preparadas para o recurso à bicicleta como meio de transporte. Para os citadinos mais entusiastas, a alternativa são as 6 rodas: transportar a bicicleta no automóvel até onde possam praticar o desporto favorito.”

Portugal fabrica, mas não consome

Muitas décadas depois, as bicicletas convencionais ainda são mais vendidas do que as elétricas, diz Rui Igreja. E, recentemente, Portugal tornou-se o maior produtor da Europa, tanto de e-bikes como de convencionais. “A indústria portuguesa soube desenvolver o know-how técnico e as competências para se adaptar aos novos tempos.” Os números falam por si: em 2019, o País produziu 2,7 milhões de bicicletas e, anualmente, as exportações representam mais de 400 milhões de euros. Falta é consumir o que se produz.

O incentivo à compra de bicicletas elétricas, convencionais e de carga tornou-se uma realidade nos últimos dois anos. Porém, a procura tem excedido os fundos disponibilizados e o Governo acaba de reforçar a verba. Anabela e António Lopes, residentes em Lisboa, tornaram-se ciclistas ativos, muito por culpa da pandemia. Há 30 anos, só pedalavam de forma recreativa, mas após o primeiro confinamento, esta educadora de infância e este professor, ambos de 55 anos, começaram a pedalar diariamente para o trabalho. Candidataram-se ao apoio da câmara e do Governo. Por isso, os dois modelos com assistência elétrica que compraram em junho do ano passado saíram mais baratos. “Foi bastante simples preencher os documentos online e os apoios chegaram pouco depois”, contam. Por cada bicicleta, receberam, da câmara, 350 euros e a mesma quantia do Fundo Ambiental. O custo final de cada uma foi 99 euros. “Seria muito bom que este tipo de apoios, bem como o investimento em ciclovias bem planeadas, se mantivesse, para que a bicicleta se tornasse uma alternativa real e atrativa”, defende o casal.

Ciclovias são “manta de retalhos”

“Sempre que possível, preferimos andar em ciclovia, porque nos sentimos mais seguros. Ainda não é muito fácil ser ciclista ativo em Portugal, mais concretamente, em Lisboa. As ciclovias são descontínuas em vários dos pontos da cidade, o que obriga a circular na estrada”, queixa-se o casal.

No País, nota Rui Igreja, “só Lisboa começa a ter uma rede ciclável e continua a ser uma manta de retalhos”. O presidente da autarquia lisboeta prometeu 200 km de ciclovias, “que acabaram por se transformar em ciclovias pop-up, com soluções de compromisso em alguns troços e interseções e, mesmo assim, parece que a implementação não chegará aos 200 quilómetros”. Não admira que estejamos a anos-luz da Holanda, da Dinamarca e de outros países nórdicos, e mesmo de Barcelona ou Sevilha. Para piorar, “faltam também zonas de coexistência, alargamento de passeios, dissuasão do tráfego de atravessamento em zonas residenciais, etc.”

Temos muito que pedalar. Se faltarem incentivos, peguemos nesta dica que o jornalista da PROTESTE deixava em 1991: “Andar de bicicleta é a melhor maneira de nos deslocarmos quase sem gastar energia. Se calcularmos o dispêndio de energia necessário para deslocar um quilo de peso ao longo de um quilómetro, o ciclista bate, de longe, o peão e outros seres vivos conhecidos por se moverem com dispêndios mínimos, como a gaivota, o salmão ou o camelo.”

Refrigerantes demasiado doces

Merecida pausa. Se tiver uma laranjada à mão, melhor ainda. De preferência, natural. O consumo de refrigerantes já era uma preocupação no século passado. Na mesma edição, a PROTESTE publicava um teste a 23 marcas de refrigerantes de sumo de laranja. Começava assim: “Água, bastante açúcar, por vezes corantes e uma pequena percentagem de fruto sob a forma de sumo e/ou polpa fazem dos refrigerantes de laranja produtos alimentares nutricionalmente pouco interessantes.”

O excesso de açúcar era o maior senão. “Os açúcares oscilam entre 10 e 37 g por copo de 2,5 dl. […] Isto corresponde a tomar por cada copo de refrigerante entre um e quatro pacotes de açúcar.” Três décadas depois, o mercado está mais diversificado, mas isso significa, “por vezes, opções menos saudáveis”, admite Nuno Dias, gestor de projetos na área alimentar da DECO PROTESTE. E o açúcar é um problema não ultrapassado. “A Organização Mundial da Saúde recomenda que o consumo de açúcares simples se situe abaixo dos 10% da energia consumida diariamente, o que corresponde a cerca de 50 gramas para uma dieta que forneça duas mil quilocalorias. Os maiores benefícios são alcançados abaixo dos 5%, ou seja, 25 gramas, o equivalente a cinco colheres de chá de açúcar”, aponta o especialista. “Para se ter uma ideia, chegámos a encontrar o dobro numa lata de refrigerante”, acrescenta.

Nada melhor do que um copo de água

Ler o rótulo é fundamental para não se ser enganado. “Os néctares são obtidos pela adição de água e açúcares a sumo de fruto. Apesar do nome pomposo e de, com frequência, serem mais caros do que os próprios sumos, contêm apenas entre 25 e 50% deles, dependendo do fruto. Os refrigerantes podem nem sequer conter sumo, e a quantidade deste não vai além dos 16 por cento. Portanto, deve-se optar por sumos, sejam obtidos a partir de concentrado ou não”, explica Nuno Dias.

E, se tem filhos, oiça bem: “Para contornar os açúcares, alguns pais optam por dar bebidas com edulcorantes, por serem menos calóricas e não prejudicarem os dentes. Contudo, o uso destes aditivos em crianças não se justifica, sobretudo os intensos, cuja dose diária admissível pode ser rapidamente atingida, devido ao baixo peso corporal. Escolher alternativas saudáveis deve ser o caminho: por exemplo, água ou sumos. E a melhor proteção contra as cáries é lavar os dentes regularmente, sobretudo depois das refeições”, diz o especialista.

Citando a velhinha PROTESTE, “para matar a sede, nada melhor do que um copo de água fresca. Não precisa de acabar com o consumo de ‘refrigerantes de sumo’, mas tente resistir à publicidade e não faça desse consumo um hábito. Quem o avisa… seu amigo é!”

Da febre do padel à diversão fora do campo

O que escapou ao impacto da pandemia? Praticamente nada. Nem o padel, desporto em acelerado crescimento. Mas, neste caso, a mossa não foi tão grande, porque a modalidade foi considerada “de baixo risco de contágio”, lembra Leninha Medeiros, uma das melhores jogadoras de padel do País. “Talvez pela falta de convívio, as pessoas ficaram com mais vontade: veio muita gente nova, e quem já jogava começou a jogar mais e a trazer amigos, passando a ideia de que é um desporto seguro”, diz a também instrutora de padel, que hoje se dedica exclusivamente à modalidade (é diretora desportiva do clube ABC Indoor Padel, em Sintra).

“Muitos começam a jogar sem aulas, ganhando vícios e arriscando lesões”, alerta Leninha Medeiros, diretora desportiva do clube ABC Indoor Padel. 
“Muitos começam a jogar sem aulas, ganhando vícios e arriscando lesões”, alerta Leninha Medeiros, diretora desportiva do clube ABC Indoor Padel.

Porque estamos a falar de padel, se este desporto nem sequer existia em 1991, em Portugal? Nesse ano, a PROTESTE lançava um artigo sobre pingue-pongue, essa sim, modalidade em voga na altura. “Ao nível mundial, o ténis de mesa é o quarto desporto mais praticado”, lê-se na abertura da peça, que apresentava os resultados de um teste às mesas, raquetes e bolas.

Pois bem, o pingue-pongue não desapareceu, mas perdeu terreno para modalidades mais agitadas, como o padel, que registou um verdadeiro boom. Os números adiantados pela Federação Portuguesa de Padel não mentem: de sete clubes e 240 jogadores filiados, em 2012, passámos para 205 clubes e 10 283 jogadores filiados, em 2020. Atualmente, a federação conta com 10 621 atletas e 226 clubes. “Estima-se que a prática de forma não-federada seja bastante superior”, acrescenta fonte oficial. 

Leninha Medeiros ensaia uma explicação: “O ténis é muito complexo tecnicamente; no básquete, é difícil para alguém que nunca jogou integrar-se num grupo… O padel não: é fácil de aprender, os movimentos são simples, qualquer pessoa tem facilidade em jogar. E tem uma componente social muito grande. Sai-se do campo, e o convívio e a diversão continuam.”

Para os principiantes, a atleta deixa um conselho: “Ir a um clube, inscrever-se nas aulas, idealmente duas vezes por semana, para perceber a técnica e evitar lesões. Muita gente começa a jogar sem aulas, ganhando vícios e cometendo erros.” Em média, num clube de Lisboa, a mensalidade para aulas de iniciação numa turma de quatro pessoas, uma vez por semana, ronda os 45 euros. A partir daí, há um mundo de possibilidades. “Facilmente se é integrado em grupos para participar em jogos e em várias dinâmicas do clube.” Quando se aprimora a técnica, pode-se passar aos torneios sociais e, “para quem quer levar a modalidade mais a sério, há os torneios da federação”.

Teste a televisores é um dos mais desejados

“A última inovação nos televisores é o som NICAM. Trata-se de um novo sistema sonoro, digital, que apresenta uma qualidade de som equivalente à obtida com os discos compactos. Diversas estações europeias de televisão fazem a emissão em NICAM […]. Em Portugal, ainda não existe uma data para a introdução deste sistema…” Começava assim um artigo da PROTESTE, na edição de maio de 1991. Lá dentro, um teste a 12 televisores estéreo de 55 centímetros e um desfiar de termos que, hoje, soam anacrónicos: “Ecrã plano de cantos quadrados”, “sintonizador de hiperbanda” e “teletexto”.

Quem não se lembra destes televisores, que tiveram nas décadas de 1980 e 1990 a sua época de ouro? Alguns, autênticos colossos difíceis de carregar. CRT era o nome da tecnologia, explica António Alves, responsável técnico dos temas de vídeo, áudio e fotografia da DECO PROTESTE. “Televisores de tubos de raios catódicos. Continham um cinescópio que lhes conferia aquele aspeto volumoso, além de um peso substancial. As imagens eram geradas através de um feixe eletrónico, que operava no interior do cinescópio, e que incidia sobre uma camada fotossensível de fósforo, que se iluminava desta forma.”

Deixaram de ser comercializados. Hoje, só existem no mercado dos usados. No final dos anos de 1990, continua António Alves, estes modelos foram substituídos pelos primeiros ecrãs planos, “com painéis plasma e diagonais de 42 polegadas (107 centímetros), na altura autênticos monstros, que deslumbravam muitos consumidores, também pela reduzida espessura”. Já os preços, recorda, “eram astronómicos, acima dos dez mil euros”, imagine-se. “Este foi o início de uma revolução. Seguiram-se os ecrãs LCD, diagonais cada vez mais generosas, níveis de resolução dos painéis crescentes, preços em queda acentuada no início do milénio…”

Ecrãs para todos os gostos

Neste campo, não há limites. “Inovações como as plataformas de smartTV, cada vez mais sofisticadas, que permitem aceder a inúmeros serviços online, como o streaming de vídeo ou áudio, painéis de resolução 4K (já existem modelos 8K), opções de emparelhamento com dispositivos móveis, assistentes de voz ou a monitorização e controlo de equipamentos IoT (internet of things) são realidades ao alcance dos consumidores”, nota o responsável pelos testes de vídeo, áudio e fotografia na DECO PROTESTE.

A qualidade dos televisores atuais é bastante satisfatória, nomeadamente na imagem. Difícil é escolher, tal a panóplia nas lojas. É possível encontrar “televisores com diagonais de imagem entre as 24 (61 centímetros) e 86 polegadas (2,19 metros). Dentro destes, há LCD com retroiluminação LED (a generalidade dos aparelhos), com tecnologias que potenciam as capacidades dos ecrãs LCD, como os Quantum Dot ou NanoCell, ou mesmo os mais recentes painéis OLED (leds orgânicos que dispensam retroiluminação)”. Brinquedos que não são assim tão acessíveis: “Se considerarmos um modelo de 55 polegadas, temos os OLED a partir de mil euros e os Quantum Dot e NanoCell a partir de 600 e 500 euros, respetivamente.”

E, no futuro, como veremos televisão? Continuaremos a ver? António Alves prognostica: “Os televisores já começaram a ser e serão cada vez mais uma forma de monitorizar vários equipamentos conectados que existirão nos lares, como iluminação, estores, ar condicionado, smart doorbell, etc. Já surgiram ecrãs transparentes, outros que se recolhem num suporte — rollable screens. E os grandes ecrãs cada vez menos intrusivos na decoração serão outra tendência.” Além disso, a pandemia intensificou o exercício indoor, e os televisores adaptar-se-ão, com a “utilização de multiscreen ou com a disponibilização de apps para atividade física”.

Máquinas fotográficas com quebra nas vendas

Na mesma edição da PROTESTE, surgia um artigo sobre máquinas fotográficas reflex, que ainda são as mais procuradas. Os amantes da fotografia têm uma gama muito variada, “desde os modelos compactos, mais simples, às máquinas híbridas e SLR, mais aconselhadas para fotógrafos profissionais”. Mas, ao contrário dos televisores, este mercado — especialmente o das máquinas compactas — tem minguado, muito por culpa dos telemóveis e das suas câmaras cada vez mais sofisticadas. José Almeida, o nosso analista de mercado, confirma que o segmento “já estava a morrer lentamente nos últimos anos”. E a pandemia foi uma machadada: em 2020, venderam-se 44 mil máquinas fotográficas, o que equivale a uma “quebra de 40 por cento”. Talvez no pós-pandemia, “com o regresso das viagens, dos convívios e das atividades ao ar livre, haja alguns sinais de retoma”, vaticina o especialista.

Automóveis seguros e mais amigos do ambiente

Os automóveis são mais seguros, sofisticados e amigos do ambiente do que há 30 anos. Os cremes de beleza também melhoraram, mas continuam a prometer mais do que cumprem.

Conforto, segurança, potência, poupança… A lista não tem fim. Quando se trata de escolher um automóvel, há gostos para tudo, e quase todos os gostos têm um carro à medida, tal é a oferta disponível. Já era assim há 30 anos. Um artigo da edição de abril de 1991 oferecia um estudo de 37 modelos compactos. “A maioria dos portugueses prefere carros pequenos, na cilindrada e no preço. Os mais vendidos têm menos de 1400 cc e raras vezes ultrapassam os 2000 contos”, lê-se no cabeçalho. “Naquela altura, os artigos baseavam-se em revistas estrangeiras, e eram adaptados por mim”, recorda João Cidreiro Lopes, autor desta peça da PROTESTE na altura. “Assisti durante anos aos testes de segurança na Europa, em que os carros eram destruídos, e lembro-me do espanto com que a comunicação social e o público analisavam os resultados publicados.”

Muito mudou desde 1990. Nesse ano, venderam-se em Portugal 213 719 ligeiros de passageiros e, em 1999, atingiu-se o ponto alto das últimas três décadas: 297 670 vendas. A troika trouxe ventos de contração, mas a partir de 2013 o mercado recuperou, até voltar a cair, em 2019.

“A maioria dos portugueses só conhece o carro que tem e não sabe que poderia, quase sempre, ter feito uma escolha melhor”, provoca João Lopes. 
“A maioria dos portugueses só conhece o carro que tem e não sabe que poderia, quase sempre, ter feito uma escolha melhor”, provoca João Cidreiro Lopes.
Quanto às preferências, segundo a Associação Automóvel de Portugal (ACAP), a Renault continua a liderar, 30 anos depois. Mas a Peugeot roubou o segundo lugar à Fiat e a Opel foi ultrapassada pela Mercedes-Benz, que é hoje a terceira marca mais vendida.

Motores mais limpos

“Os carros são escolhidos pela beleza, preço e consumo. A grande maioria dos portugueses só conhece o carro que tem e não sabe que poderia, quase sempre, ter feito uma escolha melhor. Por isso, há mais Renault e Peugeot do que Honda e Mazda”, diz João Cidreiro Lopes. “Em 1990, os carros eram mais caros, tinham quase só motores a gasolina sem muitos cavalos e muito menos equipamento de segurança. Hoje, têm cada vez menos avarias, e estão cheios de extras”, avalia.

Helder Pedro conhece bem o setor — é secretário-geral da ACAP desde 1992 — e fala de uma mudança de fundo. “Os automóveis atuais são menos poluentes, mais seguros, mais confortáveis, mais baratos e melhores do que há 30 anos.” A principal alteração diz respeito às emissões poluentes: “Os motores dos carros novos nada têm que ver com os dos anos 90. Os automóveis novos em 2020, na União Europeia, não podem emitir, em média, mais de 95 gramas por quilómetro de CO2, sob pena de aplicação de penalizações pecuniárias pesadas. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, em 2000, as emissões médias de CO2 dos ligeiros de passageiros atingiram 172 gramas por quilómetro. Considerando a meta para 2020, estamos perante uma descida de 44,8% em 20 anos.”

Na segurança, houve “uma evolução significativa”, tanto nos sistemas de segurança ativa (ABS, travagem eletrónica assistida, controlo eletrónico de estabilidade e de tração, melhores pneus e travões, etc.), como passiva (cintos de segurança, pré-tensores de cintos, airbags frontais e laterais, barras protetoras nas portas, carroçarias com estrutura de deformação programada, etc.). Mecanismos que “reduziram de forma significativa a taxa de mortalidade em acidentes rodoviários”. E, acrescenta Helder Pedro, “passámos a ter uma oferta bastante alargada” em termos de energia utilizada, com o surgimento dos veículos elétricos, híbridos convencionais, híbridos plug-in, GPN e GNC, e também no segmento da tecnologia. 

Carga fiscal pesada

Comprar carro em Portugal sai muito mais caro do que em Espanha, porque a carga fiscal é das mais elevadas da Europa, reconhece Helder Pedro. “Há dois blocos de países: os que não têm indústria automóvel e tributam muito os automóveis, e aqueles onde existe indústria e que têm uma carga fiscal mais baixa. Numa inexplicável contradição, Portugal é um país onde a indústria tem a importância que conhecemos, mas onde temos um imposto especial (ISV) muito elevado e o IVA (23%) a incidir sobre aquele imposto. E, na reforma fiscal de 2007, e com a criação do imposto único de circulação, a carga fiscal anual aumentou na ordem dos 500% face ao anterior imposto municipal sobre veículos.” Daí a “crescente importação de carros de outros Estados-membros”. Este cenário, prevê a ACAP, não deve mudar “no curto prazo, porque não existe uma harmonização da fiscalidade sobre os carros na União Europeia, e cada país tributa como entende”. O dirigente receia um agravamento, “dado que os carros elétricos estão isentos de impostos, mas não há garantia de a situação se manter. Por outro lado, foram reduzidos ou abolidos os benefícios fiscais nos veículos híbridos”.

Cremes mais acessíveis

Falemos agora de beleza. Os cremes hidratantes e antirrugas já mereciam destaque na PROTESTE, em 1991. “Tudo mudou desde há 30 anos, inclusivamente os preços, que são hoje mais baixos, com a possibilidade de utilização destes cremes pela maioria da população”, começa por dizer António Massa, presidente da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia. Além disso, atualmente, “para o desempenho de muitas funções e para eventos sociais, é necessário que a pele da face e de outras áreas visíveis tenha um bom aspeto, o que, naquela época, nem sempre era valorizado”.

A evolução, nota o médico, “tem sido marcada para melhor, pois o dinheiro aplicado em investigação tem sido muito, e com grande proveito. Sabemos bastante mais sobre a fisiologia da pele, o que permite a procura de produtos com melhores características”. E são mesmo eficazes? “A eficácia é mais notória ao fim de meses ou anos, e podemos dizer que a evolução é significativa.” E os antirrugas? “Também aqui os cremes são uma ajuda. Melhoram o aspeto. No entanto, quando elas são um pouco mais visíveis, a utilização de outras técnicas e de outros materiais, como a toxina botulínica e o ácido hialurónico, melhoram o aspeto da mesma.”

No teste mais recente, em outubro de 2020, todos os cremes antirrugas demonstraram pouca eficácia. E, tal como em 1991, provou-se que um preço elevado nem sempre significa boa qualidade. António Massa concorda: “O facto de ser mais caro não significa que seja melhor. Acredito que há fabricantes a incorporar os produtos que, na investigação, se revelaram de maior eficácia ou com melhores características em cremes, leites ou loções, que são colocados à venda a um preço muito superior ao de produção. Por outro lado, há um valor ligado à marca, mas posteriormente esse valor será ajustado por múltiplos fatores, sobretudo pela eficácia.”

Português é pouco investidor

Os eletrodomésticos já não fazem tanto ruído como no século passado. E os fundos de investimento explodiram. Os portugueses confiam mais nos primeiros, mas continuam cautelosos em relação aos segundos.

Comprar um eletrodoméstico que dure e dure e dure é o sonho dos consumidores. Há marcas com boa fama e compradores fiéis, mas na melhor máquina cai a nódoa… Além do mais, a oferta é tão variada que escolher o aparelho ideal pode ser a primeira dor de cabeça. A fiabilidade dos eletrodomésticos é um clássico. Nos idos anos 90, a revista já brindava os leitores com testes e questionários. Encontrámos um desses tesouros na edição de março de 1991: um inquérito em seis países dava conta do comportamento de aparelhos de frio, cozedura e lavagem. As máquinas de lavar loiça eram as mais problemáticas. E hoje em dia? “Os grandes eletrodomésticos registam, em geral, menos avarias do que nos anos 90, mas não fazemos comparações entre aparelhos diferentes”, esclarece Ana Almeida, especialista em fiabilidade da DECO PROTESTE. “Nos estudos de fiabilidade, o grande objetivo é comparar as marcas de um mesmo produto para podermos informar e aconselhar o consumidor.”

Portas e filtros traiçoeiros

Antes da viragem do século, o ruído era a queixa mais frequente e comum a todos os aparelhos. Hoje, não é um problema. “No estudo mais recente, de 2020, os problemas comuns aos grandes eletrodomésticos são os filtros (máquinas de lavar roupa, de secar e de lavar loiça) e as portas”, observa a especialista.

Curiosidade a talho de foice: os nossos testes de laboratório começaram a ser publicados logo no primeiro número da revista, imagine-se, em 1978. Já os estudos de fiabilidade vieram mais tarde, no início da década de 1990. “Estavam a dar-se os primeiros passos na recolha de informação sobre a experiência dos consumidores com a utilização dos eletrodomésticos. Em 2006, estes estudos passaram a ter alguma regularidade e, a partir de 2013, tornaram-se anuais.

Fogem do risco como o diabo da cruz

Se falarmos de fundos de investimento, a receita não é tão simples. A PROTESTE dedicava três páginas ao assunto, em 1991. “A aquisição de unidades de participação de fundos de investimento começa a entrar nos hábitos dos portugueses e não admira que venha a constituir, num futuro próximo, um instrumento prioritário de aplicação de poupanças”, lê-se no cabeçalho. A previsão não se concretizou. Ou, “pelo menos, não o desejável”, nota Jorge Duarte, especialista em fundos de investimento da DECO PROTESTE. E isso tem muito que ver com o perfil do investidor português: “Os baixos rendimentos de uma elevada parte da população e a reduzida literacia financeira obscurecem o potencial que os fundos podem ter para rentabilizar as poupanças. Quando se fala em mercados financeiros e se diz que não há garantia de reaver o capital, os aforradores fogem como o diabo da cruz.” Neste domínio, somos “avessos ao risco”.

As preferências “continuam a recair nos depósitos a prazo e nos certificados de aforro e tesouro”. Os planos de poupança-reforma (PPR) são outro produto que cativa. “No entanto, também aqui a preferência nacional vai para os seguros PPR, em vez de fundos PPR”, aponta Jorge Duarte.

Tsunami de propostas para pequenos investidores

A procura não acompanhou a oferta. “Pode dizer-se que passámos do oito para o oitenta. Antes do virar do milénio, o número de fundos devia rondar as duas centenas, e dedicados a poucos mercados. Agora, são milhares e continuam a crescer, sobretudo impulsionados pela oferta de ETF (fundos negociados em bolsa). Outrora, o pequeno investidor não tinha escolha; agora, é assoberbado por um tsunami de propostas”, admite o especialista.

Não vamos maçar o leitor com uma preleção financeira. Apenas um cheirinho: “Os tipos de fundos são bastante idênticos aos de há três décadas. Fundos de ações, obrigações, monetários, imobiliários e mistos permanecem. A principal diferença é que cobrem um sem-número de mercados. Por exemplo, tornou-se simples investir em ações exóticas, como as indonésias, obrigações em coroas suecas ou apostar em ienes japoneses. No início, as escolhas eram limitadas: fundos de ações portuguesas, europeias, obrigações em escudos. Agora, a diversidade também se reflete ao nível setorial e temático: há fundos dedicados a empresas de robótica, inteligência artificial, centrados nas alterações climáticas, respeitadores de critérios de sustentabilidade (ESG). O limite é a criatividade dos gestores…”

A verdade é que, apesar da “costela prudente”, muitos portugueses têm embarcado em aventuras e algumas acabaram bem mal, recorda Jorge Duarte. “Os dissabores com a compra de produtos estruturados e o escândalo da dívida do Grupo BES provaram que o risco está muitas vezes disfarçado.”

Roletas de casino

Mas há outro nível neste campeonato: “De forma bem mais consciente, muitos lançaram-se no mercado de warrants autónomos, produtos derivados de alto risco. Mais recentemente, a febre passou para os CFD, Forex e criptomoedas (bitcoin, etc.), que permitem elevados ganhos em pouco tempo… e perdas totais, também. Passou-se da total aversão ao risco para produtos mais parecidos com roletas de casino do que com investimento.”

A virtude, para variar, está no meio. “Um investimento racional, disciplinado e com um horizonte de longo prazo é o desejável. Aumentar gradualmente as poupanças através do investimento diversificado em fundos”, aconselha Jorge Duarte.

Do leite ao sono perfeito

Há três décadas, o leite e o sono eram temas de reflexão na sociedade e na PROTESTE. Hoje, a qualidade do leite já não nos tira o sono, mas há outras causas – e mais graves – de insónia. Quem nunca se interrogou sobre os benefícios e malefícios de beber leite? Uns adoram; outros não o toleram. Os especialistas dividem-se e, hoje, não há certezas absolutas. Há 30 anos, não era bem assim… “O conceito de que o leite é para as ‘crianças’ e de que um ‘homem’ não bebe leite é errado, assistindo-se hoje em dia, em vários países, inclusivamente no nosso, a um esforço no sentido de incentivar o seu consumo…” Começava assim o artigo da edição de fevereiro da revista PROTESTE, que, ao longo de oito páginas, destacava as vantagens do seu consumo. “Perfeitamente solidários com esta campanha internacional, deixamos três boas razões para continuar ou recomeçar a beber leite.” A primeira: “proteína em quantidade suficiente e de excelente qualidade”. A segunda: “a melhor fonte de cálcio”. E a última: “[alimento] bom e relativamente barato”.

Só que nem tudo ia bem. Um estudo da PROTESTE revelou que, “em mais de 80% dos casos, o leite pasteurizado não se encontrava nas condições mínimas que garantem a sua perfeita conservação”, nos locais de venda. A temperatura de conservação recomendada era entre os 0-6ºC, mas os técnicos da DECO encontraram muitas amostras acima dos 10ºC! Também não era incomum um “sobreaquecimento do leite, geralmente para fazer face a uma má qualidade microbiológica da matéria-prima no momento da pasteurização”.

Evolução extraordinária no leite

Esses problemas estão hoje ultrapassados. “A evolução ao longo dos últimos anos foi extraordinária, quer do ponto de vista nutricional e de higiene, quer do ponto de vista de segurança alimentar. É um produto no qual os portugueses podem confiar”, garante Dulce Ricardo, coordenadora da área alimentar do centro de competências alimentação e saúde da DECO PROTESTE. O leitor está porventura a pensar se os testes atuais também melhoraram. Dulce Ricardo não hesita: “Temos realizado testes cada vez mais precisos e completos, que, ao longo dos anos, têm sido complementados com mais parâmetros em termos de segurança alimentar. Por exemplo, já fazemos mais análises ao nível de pesticidas, antibióticos, mictoxinas, autenticidade…”

E do leite ao sono vai um passinho. Noutro artigo, de quatro páginas, a PROTESTE discorria sobre as perturbações do sono, os vários tipos de somníferos (título: “somníferos — em busca do sono perdido”) e outras formas de lutar contra a insónia.

Pandemia é um pau de dois bicos para a qualidade do sono

A certa altura, o jornalista quis pôr-nos a pensar: “Antes de recorrer aos somníferos, é melhor perguntar se sofre verdadeiramente de insónias. Talvez precise de menos horas de sono, ou talvez a impressão de passar horas e horas acordado não passe, de facto, de uma impressão. No caso de se confirmar que sofre realmente de insónias, consulte o médico…” Foi o que fizemos. Perguntámos à neurologista Teresa Paiva como vai o sono dos portugueses três décadas depois, e em plena pandemia. “A resposta não é uniforme, porque umas pessoas pioraram e outras melhoraram. Mas, em média, a qualidade do sono piorou e algumas doenças agravaram-se de forma significativa, como a insónia, a narcolepsia (excessiva sonolência durante o dia, com episódios intermitentes e incontroláveis de adormecimento), dores de cabeça e fadiga.”

Houve pessoas que viram o problema de sono aliviado, sobretudo quem tinha de enfrentar a lufa-lufa diária, “ir a correr para o emprego, levar os filhos à escola, estar nas filas de trânsito…” Ora, a pandemia trouxe uma paragem e, com isso, “estas pessoas viram o stresse reduzir-se de forma substancial, o que não é irrelevante: é um exemplo de que há outras formas de viver em sociedade que não passam por viver em stresse”, sublinha a especialista em medicina do sono. 

Insónia é, hoje, um fenómeno mais complexo

E quem se deu mal, perguntamos nós? “Quem tem atitudes e comportamentos negativos, como estar sempre a lamentar-se, quem tem dependências de tabaco, álcool, redes sociais e jogos. Tudo isso gera maior dificuldade de adaptação.” Já “quem consegue relativizar e fazer coisas positivas, como escrever, fazer exercício e aprender coisas novas, está mais bem-adaptado à adversidade”.

Um dado é certo: a insónia é, hoje, um fenómeno muito mais complexo do que nos anos 90. “Tenho casos mais difíceis, com muitas variantes, associados a violência na família e no trabalho, ou com uma mistura de doenças orgânicas e psicológicas”, nota a diretora clínica do Centro de Eletroencefalografia e Neurofisiologia Clínica, em Lisboa. A ciência avançou e, com ela, o diagnóstico e tratamento. Mas o futuro é sinónimo de complexidade e incerteza. “Haverá mais calamidades de todo o tipo: catástrofes ambientais, novos vírus… Isso passará a ser um dado frequente na nossa vida. E as pessoas têm de estar preparadas para isso”, conclui Teresa Paiva, em jeito de conselho.

DECO PROTESTE celebra 30 anos na linha da frente

Mudaram as inquietações dos portugueses, mas não perdemos o rumo nem a identidade. Dos pesticidas no tomate, em 1991, à maior prova de sobrevivência em plena pandemia covid-19, em 2021, celebramos 30 anos ao lado do consumidor. A entrada dos anos de 1990 foi decisiva para o crescimento da revista PROTESTE. De uma tiragem de 2500 exemplares no primeiro número, atingimos 200 mil por edição durante aquela década. Hoje, são já 370 mil.

Em janeiro de 1991, foi publicado o n.º 100. Mário Soares era Presidente da República e Aníbal Cavaco Silva, primeiro-ministro. Um ano antes, o crescimento contínuo da DECO e da revista justificavam a criação da editora: a Edideco, hoje DECO PROTESTE, responsável pelas publicações PROTESTE, DINHEIRO & DIREITOS, TESTE SAÚDE, PROTESTE INVESTE e guias práticos, que se tornaram uma referência na defesa dos consumidores. As décadas seguintes revelar-se-iam cruciais na afirmação e na consolidação da organização editorial.

Se agora lutamos contra as comissões bancárias, no passado, denunciámos e travámos as taxas no multibanco. A rede multibanco pretendia cobrar por cada operação, fosse uma transferência ou uma consulta do saldo. Num dia de 1994, desafiámos os portugueses a evitarem pagamentos por multibanco e a visitarem os balcões dos bancos. A cobrança nunca chegou a ser aplicada. Com movimentos cirúrgicos, também travámos a Portugal Telecom, empresa com a qual já havia antecedentes de uma relação pouco transparente. A taxa de ativação da chamada foi a última gota num copo já cheio. Movemos uma ação popular em tribunal, acompanhada de um boicote em que se pediu aos cidadãos para tirarem o telefone do descanso, num determinado dia de semana. Milhões de linhas ficaram interrompidas. A vitória em tribunal seria confirmada em 2003, após recursos da PT até ao Supremo. Em 2021, celebramos todos os meses com um regresso ao passado, na rubrica Conta-me como foi... há 30 anos.

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