Dossiês

30 anos de DECO PROTESTE: conta-me como foi

A moda do pingue-pongue deu lugar à febre do padel, que cresceu muito nos últimos cinco anos. Os televisores mudam, mas as máquinas fotográficas perdem terreno. Celebramos os 30 anos com histórias sobre os principais temas da PROTESTE em 1991.

  • Texto
  • Sónia Graça e Nuno César
28 abril 2021
  • Texto
  • Sónia Graça e Nuno César
capa da revista Proteste n.º 104, maio de 1991

O que escapou ao impacto da pandemia? Praticamente nada. Nem o padel, desporto em acelerado crescimento. Mas, neste caso, a mossa não foi tão grande, porque a modalidade foi considerada “de baixo risco de contágio”, lembra Leninha Medeiros, uma das melhores jogadoras de padel do País. “Talvez pela falta de convívio, as pessoas ficaram com mais vontade: veio muita gente nova, e quem já jogava começou a jogar mais e a trazer amigos, passando a ideia de que é um desporto seguro”, diz a também instrutora de padel, que hoje se dedica exclusivamente à modalidade (é diretora desportiva do clube ABC Indoor Padel, em Sintra).

“Muitos começam a jogar sem aulas, ganhando vícios e arriscando lesões”, alerta Leninha Medeiros, diretora desportiva do clube ABC Indoor Padel. 
“Muitos começam a jogar sem aulas, ganhando vícios e arriscando lesões”, alerta Leninha Medeiros, diretora desportiva do clube ABC Indoor Padel.

Porque estamos a falar de padel, se este desporto nem sequer existia em 1991, em Portugal? Nesse ano, a PROTESTE lançava um artigo sobre pingue-pongue, essa sim, modalidade em voga na altura. “Ao nível mundial, o ténis de mesa é o quarto desporto mais praticado”, lê-se na abertura da peça, que apresentava os resultados de um teste às mesas, raquetes e bolas.

Evolução do padel em Portugal. 
Evolução do padel em Portugal.

Pois bem, o pingue-pongue não desapareceu, mas perdeu terreno para modalidades mais agitadas, como o padel, que registou um verdadeiro boom. Os números adiantados pela Federação Portuguesa de Padel não mentem: de sete clubes e 240 jogadores filiados, em 2012, passámos para 205 clubes e 10 283 jogadores filiados, em 2020. Atualmente, a federação conta com 10 621 atletas e 226 clubes. “Estima-se que a prática de forma não-federada seja bastante superior”, acrescenta fonte oficial.

Da febre do padel à diversão fora do campo

Leninha Medeiros ensaia uma explicação: “O ténis é muito complexo tecnicamente; no básquete, é difícil para alguém que nunca jogou integrar-se num grupo… O padel não: é fácil de aprender, os movimentos são simples, qualquer pessoa tem facilidade em jogar. E tem uma componente social muito grande. Sai-se do campo, e o convívio e a diversão continuam.”

Para os principiantes, a atleta deixa um conselho: “Ir a um clube, inscrever-se nas aulas, idealmente duas vezes por semana, para perceber a técnica e evitar lesões. Muita gente começa a jogar sem aulas, ganhando vícios e cometendo erros.” Em média, num clube de Lisboa, a mensalidade para aulas de iniciação numa turma de quatro pessoas, uma vez por semana, ronda os 45 euros. A partir daí, há um mundo de possibilidades. “Facilmente se é integrado em grupos para participar em jogos e em várias dinâmicas do clube.” Quando se aprimora a técnica, pode-se passar aos torneios sociais e, “para quem quer levar a modalidade mais a sério, há os torneios da federação”.

Teste a televisores é um dos mais desejados

“A última inovação nos televisores é o som NICAM. Trata-se de um novo sistema sonoro, digital, que apresenta uma qualidade de som equivalente à obtida com os discos compactos. Diversas estações europeias de televisão fazem a emissão em NICAM […]. Em Portugal, ainda não existe uma data para a introdução deste sistema…” Começava assim um artigo da PROTESTE, na edição de maio de 1991. Lá dentro, um teste a 12 televisores estéreo de 55 centímetros e um desfiar de termos que, hoje, soam anacrónicos: “Ecrã plano de cantos quadrados”, “sintonizador de hiperbanda” e “teletexto”.

Quem não se lembra destes televisores, que tiveram nas décadas de 1980 e 1990 a sua época de ouro? Alguns, autênticos colossos difíceis de carregar. CRT era o nome da tecnologia, explica António Alves, responsável técnico dos temas de vídeo, áudio e fotografia da DECO PROTESTE. “Televisores de tubos de raios catódicos. Continham um cinescópio que lhes conferia aquele aspeto volumoso, além de um peso substancial. As imagens eram geradas através de um feixe eletrónico, que operava no interior do cinescópio, e que incidia sobre uma camada fotossensível de fósforo, que se iluminava desta forma.”

Deixaram de ser comercializados. Hoje, só existem no mercado dos usados. No final dos anos de 1990, continua António Alves, estes modelos foram substituídos pelos primeiros ecrãs planos, “com painéis plasma e diagonais de 42 polegadas (107 centímetros), na altura autênticos monstros, que deslumbravam muitos consumidores, também pela reduzida espessura”. Já os preços, recorda, “eram astronómicos, acima dos dez mil euros”, imagine-se. “Este foi o início de uma revolução. Seguiram-se os ecrãs LCD, diagonais cada vez mais generosas, níveis de resolução dos painéis crescentes, preços em queda acentuada no início do milénio…”

Ecrãs para todos os gostos

Neste campo, não há limites. “Inovações como as plataformas de smartTV, cada vez mais sofisticadas, que permitem aceder a inúmeros serviços online, como o streaming de vídeo ou áudio, painéis de resolução 4K (já existem modelos 8K), opções de emparelhamento com dispositivos móveis, assistentes de voz ou a monitorização e controlo de equipamentos IoT (internet of things) são realidades ao alcance dos consumidores”, nota o responsável pelos testes de vídeo, áudio e fotografia na DECO PROTESTE.

A qualidade dos televisores atuais é bastante satisfatória, nomeadamente na imagem. Difícil é escolher, tal a panóplia nas lojas. É possível encontrar “televisores com diagonais de imagem entre as 24 (61 centímetros) e 86 polegadas (2,19 metros). Dentro destes, há LCD com retroiluminação LED (a generalidade dos aparelhos), com tecnologias que potenciam as capacidades dos ecrãs LCD, como os Quantum Dot ou NanoCell, ou mesmo os mais recentes painéis OLED (leds orgânicos que dispensam retroiluminação)”. Brinquedos que não são assim tão acessíveis: “Se considerarmos um modelo de 55 polegadas, temos os OLED a partir de mil euros e os Quantum Dot e NanoCell a partir de 600 e 500 euros, respetivamente.”

E, no futuro, como veremos televisão? Continuaremos a ver? António Alves prognostica: “Os televisores já começaram a ser e serão cada vez mais uma forma de monitorizar vários equipamentos conectados que existirão nos lares, como iluminação, estores, ar condicionado, smart doorbell, etc. Já surgiram ecrãs transparentes, outros que se recolhem num suporte — rollable screens. E os grandes ecrãs cada vez menos intrusivos na decoração serão outra tendência.” Além disso, a pandemia intensificou o exercício indoor, e os televisores adaptar-se-ão, com a “utilização de multiscreen ou com a disponibilização de apps para atividade física”.

Máquinas fotográficas com quebra nas vendas

Na mesma edição da PROTESTE, surgia um artigo sobre máquinas fotográficas reflex, que ainda são as mais procuradas. Os amantes da fotografia têm uma gama muito variada, “desde os modelos compactos, mais simples, às máquinas híbridas e SLR, mais aconselhadas para fotógrafos profissionais”. Mas, ao contrário dos televisores, este mercado — especialmente o das máquinas compactas — tem minguado, muito por culpa dos telemóveis e das suas câmaras cada vez mais sofisticadas. José Almeida, o nosso analista de mercado, confirma que o segmento “já estava a morrer lentamente nos últimos anos”. E a pandemia foi uma machadada: em 2020, venderam-se 44 mil máquinas fotográficas, o que equivale a uma “quebra de 40 por cento”. Talvez no pós-pandemia, “com o regresso das viagens, dos convívios e das atividades ao ar livre, haja alguns sinais de retoma”, vaticina o especialista.

Automóveis seguros e mais amigos do ambiente

Os automóveis são mais seguros, sofisticados e amigos do ambiente do que há 30 anos. Os cremes de beleza também melhoraram, mas continuam a prometer mais do que cumprem.

Conforto, segurança, potência, poupança… A lista não tem fim. Quando se trata de escolher um automóvel, há gostos para tudo, e quase todos os gostos têm um carro à medida, tal é a oferta disponível. Já era assim há 30 anos. Um artigo da edição de abril de 1991 oferecia um estudo de 37 modelos compactos. “A maioria dos portugueses prefere carros pequenos, na cilindrada e no preço. Os mais vendidos têm menos de 1400 cc e raras vezes ultrapassam os 2000 contos”, lê-se no cabeçalho. “Naquela altura, os artigos baseavam-se em revistas estrangeiras, e eram adaptados por mim”, recorda João Cidreiro Lopes, autor desta peça da PROTESTE na altura. “Assisti durante anos aos testes de segurança na Europa, em que os carros eram destruídos, e lembro-me do espanto com que a comunicação social e o público analisavam os resultados publicados.”

Muito mudou desde 1990. Nesse ano, venderam-se em Portugal 213 719 ligeiros de passageiros e, em 1999, atingiu-se o ponto alto das últimas três décadas: 297 670 vendas. A troika trouxe ventos de contração, mas a partir de 2013 o mercado recuperou, até voltar a cair, em 2019.

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Evolução da venda de automóveis ligeiros de passageiros.
“A maioria dos portugueses só conhece o carro que tem e não sabe que poderia, quase sempre, ter feito uma escolha melhor”, provoca João Lopes. 
“A maioria dos portugueses só conhece o carro que tem e não sabe que poderia, quase sempre, ter feito uma escolha melhor”, provoca João Cidreiro Lopes.
Quanto às preferências, segundo a Associação Automóvel de Portugal (ACAP), a Renault continua a liderar, 30 anos depois. Mas a Peugeot roubou o segundo lugar à Fiat e a Opel foi ultrapassada pela Mercedes-Benz, que é hoje a terceira marca mais vendida.

Motores mais limpos

“Os carros são escolhidos pela beleza, preço e consumo. A grande maioria dos portugueses só conhece o carro que tem e não sabe que poderia, quase sempre, ter feito uma escolha melhor. Por isso, há mais Renault e Peugeot do que Honda e Mazda”, diz João Cidreiro Lopes. “Em 1990, os carros eram mais caros, tinham quase só motores a gasolina sem muitos cavalos e muito menos equipamento de segurança. Hoje, têm cada vez menos avarias, e estão cheios de extras”, avalia.

Helder Pedro conhece bem o setor — é secretário-geral da ACAP desde 1992 — e fala de uma mudança de fundo. “Os automóveis atuais são menos poluentes, mais seguros, mais confortáveis, mais baratos e melhores do que há 30 anos.” A principal alteração diz respeito às emissões poluentes: “Os motores dos carros novos nada têm que ver com os dos anos 90. Os automóveis novos em 2020, na União Europeia, não podem emitir, em média, mais de 95 gramas por quilómetro de CO2, sob pena de aplicação de penalizações pecuniárias pesadas. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, em 2000, as emissões médias de CO2 dos ligeiros de passageiros atingiram 172 gramas por quilómetro. Considerando a meta para 2020, estamos perante uma descida de 44,8% em 20 anos.”

Na segurança, houve “uma evolução significativa”, tanto nos sistemas de segurança ativa (ABS, travagem eletrónica assistida, controlo eletrónico de estabilidade e de tração, melhores pneus e travões, etc.), como passiva (cintos de segurança, pré-tensores de cintos, airbags frontais e laterais, barras protetoras nas portas, carroçarias com estrutura de deformação programada, etc.). Mecanismos que “reduziram de forma significativa a taxa de mortalidade em acidentes rodoviários”. E, acrescenta Helder Pedro, “passámos a ter uma oferta bastante alargada” em termos de energia utilizada, com o surgimento dos veículos elétricos, híbridos convencionais, híbridos plug-in, GPN e GNC, e também no segmento da tecnologia.

“Os carros atuais são menos poluentes do que há 30 anos”, remata Helder Pedro, secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal (ACAP) 
“Os carros atuais são menos poluentes do que há 30 anos”, remata Helder Pedro, secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal (ACAP).

Carga fiscal pesada

Comprar carro em Portugal sai muito mais caro do que em Espanha, porque a carga fiscal é das mais elevadas da Europa, reconhece Helder Pedro. “Há dois blocos de países: os que não têm indústria automóvel e tributam muito os automóveis, e aqueles onde existe indústria e que têm uma carga fiscal mais baixa. Numa inexplicável contradição, Portugal é um país onde a indústria tem a importância que conhecemos, mas onde temos um imposto especial (ISV) muito elevado e o IVA (23%) a incidir sobre aquele imposto. E, na reforma fiscal de 2007, e com a criação do imposto único de circulação, a carga fiscal anual aumentou na ordem dos 500% face ao anterior imposto municipal sobre veículos.” Daí a “crescente importação de carros de outros Estados-membros”. Este cenário, prevê a ACAP, não deve mudar “no curto prazo, porque não existe uma harmonização da fiscalidade sobre os carros na União Europeia, e cada país tributa como entende”. O dirigente receia um agravamento, “dado que os carros elétricos estão isentos de impostos, mas não há garantia de a situação se manter. Por outro lado, foram reduzidos ou abolidos os benefícios fiscais nos veículos híbridos”.

Cremes mais acessíveis

Falemos agora de beleza. Os cremes hidratantes e antirrugas já mereciam destaque na PROTESTE, em 1991. “Tudo mudou desde há 30 anos, inclusivamente os preços, que são hoje mais baixos, com a possibilidade de utilização destes cremes pela maioria da população”, começa por dizer António Massa, presidente da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia. Além disso, atualmente, “para o desempenho de muitas funções e para eventos sociais, é necessário que a pele da face e de outras áreas visíveis tenha um bom aspeto, o que, naquela época, nem sempre era valorizado”.

A evolução, nota o médico, “tem sido marcada para melhor, pois o dinheiro aplicado em investigação tem sido muito, e com grande proveito. Sabemos bastante mais sobre a fisiologia da pele, o que permite a procura de produtos com melhores características”. E são mesmo eficazes? “A eficácia é mais notória ao fim de meses ou anos, e podemos dizer que a evolução é significativa.” E os antirrugas? “Também aqui os cremes são uma ajuda. Melhoram o aspeto. No entanto, quando elas são um pouco mais visíveis, a utilização de outras técnicas e de outros materiais, como a toxina botulínica e o ácido hialurónico, melhoram o aspeto da mesma.”

No teste mais recente, em outubro de 2020, todos os cremes antirrugas demonstraram pouca eficácia. E, tal como em 1991, provou-se que um preço elevado nem sempre significa boa qualidade. António Massa concorda: “O facto de ser mais caro não significa que seja melhor. Acredito que há fabricantes a incorporar os produtos que, na investigação, se revelaram de maior eficácia ou com melhores características em cremes, leites ou loções, que são colocados à venda a um preço muito superior ao de produção. Por outro lado, há um valor ligado à marca, mas posteriormente esse valor será ajustado por múltiplos fatores, sobretudo pela eficácia.”

Português é pouco investidor

Os eletrodomésticos já não fazem tanto ruído como no século passado. E os fundos de investimento explodiram. Os portugueses confiam mais nos primeiros, mas continuam cautelosos em relação aos segundos.

Comprar um eletrodoméstico que dure e dure e dure é o sonho dos consumidores. Há marcas com boa fama e compradores fiéis, mas na melhor máquina cai a nódoa… Além do mais, a oferta é tão variada que escolher o aparelho ideal pode ser a primeira dor de cabeça. A fiabilidade dos eletrodomésticos é um clássico. Nos idos anos 90, a revista já brindava os leitores com testes e questionários. Encontrámos um desses tesouros na edição de março de 1991: um inquérito em seis países dava conta do comportamento de aparelhos de frio, cozedura e lavagem. As máquinas de lavar loiça eram as mais problemáticas. E hoje em dia? “Os grandes eletrodomésticos registam, em geral, menos avarias do que nos anos 90, mas não fazemos comparações entre aparelhos diferentes”, esclarece Ana Almeida, especialista em fiabilidade da DECO PROTESTE. “Nos estudos de fiabilidade, o grande objetivo é comparar as marcas de um mesmo produto para podermos informar e aconselhar o consumidor.”

Portas e filtros traiçoeiros

Antes da viragem do século, o ruído era a queixa mais frequente e comum a todos os aparelhos. Hoje, não é um problema. “No estudo mais recente, de 2020, os problemas comuns aos grandes eletrodomésticos são os filtros (máquinas de lavar roupa, de secar e de lavar loiça) e as portas”, observa a especialista.

Curiosidade a talho de foice: os nossos testes de laboratório começaram a ser publicados logo no primeiro número da revista, imagine-se, em 1978. Já os estudos de fiabilidade vieram mais tarde, no início da década de 1990. “Estavam a dar-se os primeiros passos na recolha de informação sobre a experiência dos consumidores com a utilização dos eletrodomésticos. Em 2006, estes estudos passaram a ter alguma regularidade e, a partir de 2013, tornaram-se anuais.

Fogem do risco como o diabo da cruz

Se falarmos de fundos de investimento, a receita não é tão simples. A PROTESTE dedicava três páginas ao assunto, em 1991. “A aquisição de unidades de participação de fundos de investimento começa a entrar nos hábitos dos portugueses e não admira que venha a constituir, num futuro próximo, um instrumento prioritário de aplicação de poupanças”, lê-se no cabeçalho. A previsão não se concretizou. Ou, “pelo menos, não o desejável”, nota Jorge Duarte, especialista em fundos de investimento da DECO PROTESTE. E isso tem muito que ver com o perfil do investidor português: “Os baixos rendimentos de uma elevada parte da população e a reduzida literacia financeira obscurecem o potencial que os fundos podem ter para rentabilizar as poupanças. Quando se fala em mercados financeiros e se diz que não há garantia de reaver o capital, os aforradores fogem como o diabo da cruz.” Neste domínio, somos “avessos ao risco”.

As preferências “continuam a recair nos depósitos a prazo e nos certificados de aforro e tesouro”. Os planos de poupança-reforma (PPR) são outro produto que cativa. “No entanto, também aqui a preferência nacional vai para os seguros PPR, em vez de fundos PPR”, aponta Jorge Duarte.

Tsunami de propostas para pequenos investidores

A procura não acompanhou a oferta. “Pode dizer-se que passámos do oito para o oitenta. Antes do virar do milénio, o número de fundos devia rondar as duas centenas, e dedicados a poucos mercados. Agora, são milhares e continuam a crescer, sobretudo impulsionados pela oferta de ETF (fundos negociados em bolsa). Outrora, o pequeno investidor não tinha escolha; agora, é assoberbado por um tsunami de propostas”, admite o especialista.

Não vamos maçar o leitor com uma preleção financeira. Apenas um cheirinho: “Os tipos de fundos são bastante idênticos aos de há três décadas. Fundos de ações, obrigações, monetários, imobiliários e mistos permanecem. A principal diferença é que cobrem um sem-número de mercados. Por exemplo, tornou-se simples investir em ações exóticas, como as indonésias, obrigações em coroas suecas ou apostar em ienes japoneses. No início, as escolhas eram limitadas: fundos de ações portuguesas, europeias, obrigações em escudos. Agora, a diversidade também se reflete ao nível setorial e temático: há fundos dedicados a empresas de robótica, inteligência artificial, centrados nas alterações climáticas, respeitadores de critérios de sustentabilidade (ESG). O limite é a criatividade dos gestores…”

A verdade é que, apesar da “costela prudente”, muitos portugueses têm embarcado em aventuras e algumas acabaram bem mal, recorda Jorge Duarte. “Os dissabores com a compra de produtos estruturados e o escândalo da dívida do Grupo BES provaram que o risco está muitas vezes disfarçado.”

Roletas de casino

Mas há outro nível neste campeonato: “De forma bem mais consciente, muitos lançaram-se no mercado de warrants autónomos, produtos derivados de alto risco. Mais recentemente, a febre passou para os CFD, Forex e criptomoedas (bitcoin, etc.), que permitem elevados ganhos em pouco tempo… e perdas totais, também. Passou-se da total aversão ao risco para produtos mais parecidos com roletas de casino do que com investimento.”

A virtude, para variar, está no meio. “Um investimento racional, disciplinado e com um horizonte de longo prazo é o desejável. Aumentar gradualmente as poupanças através do investimento diversificado em fundos”, aconselha Jorge Duarte.

Do leite ao sono perfeito

Há três décadas, o leite e o sono eram temas de reflexão na sociedade e na PROTESTE. Hoje, a qualidade do leite já não nos tira o sono, mas há outras causas – e mais graves – de insónia. Quem nunca se interrogou sobre os benefícios e malefícios de beber leite? Uns adoram; outros não o toleram. Os especialistas dividem-se e, hoje, não há certezas absolutas. Há 30 anos, não era bem assim… “O conceito de que o leite é para as ‘crianças’ e de que um ‘homem’ não bebe leite é errado, assistindo-se hoje em dia, em vários países, inclusivamente no nosso, a um esforço no sentido de incentivar o seu consumo…” Começava assim o artigo da edição de fevereiro da revista PROTESTE, que, ao longo de oito páginas, destacava as vantagens do seu consumo. “Perfeitamente solidários com esta campanha internacional, deixamos três boas razões para continuar ou recomeçar a beber leite.” A primeira: “proteína em quantidade suficiente e de excelente qualidade”. A segunda: “a melhor fonte de cálcio”. E a última: “[alimento] bom e relativamente barato”.

Só que nem tudo ia bem. Um estudo da PROTESTE revelou que, “em mais de 80% dos casos, o leite pasteurizado não se encontrava nas condições mínimas que garantem a sua perfeita conservação”, nos locais de venda. A temperatura de conservação recomendada era entre os 0-6ºC, mas os técnicos da DECO encontraram muitas amostras acima dos 10ºC! Também não era incomum um “sobreaquecimento do leite, geralmente para fazer face a uma má qualidade microbiológica da matéria-prima no momento da pasteurização”.

Evolução extraordinária no leite

Esses problemas estão hoje ultrapassados. “A evolução ao longo dos últimos anos foi extraordinária, quer do ponto de vista nutricional e de higiene, quer do ponto de vista de segurança alimentar. É um produto no qual os portugueses podem confiar”, garante Dulce Ricardo, coordenadora da área alimentar do centro de competências alimentação e saúde da DECO PROTESTE. O leitor está porventura a pensar se os testes atuais também melhoraram. Dulce Ricardo não hesita: “Temos realizado testes cada vez mais precisos e completos, que, ao longo dos anos, têm sido complementados com mais parâmetros em termos de segurança alimentar. Por exemplo, já fazemos mais análises ao nível de pesticidas, antibióticos, mictoxinas, autenticidade…”

E do leite ao sono vai um passinho. Noutro artigo, de quatro páginas, a PROTESTE discorria sobre as perturbações do sono, os vários tipos de somníferos (título: “somníferos — em busca do sono perdido”) e outras formas de lutar contra a insónia.

Pandemia é um pau de dois bicos para a qualidade do sono

A certa altura, o jornalista quis pôr-nos a pensar: “Antes de recorrer aos somníferos, é melhor perguntar se sofre verdadeiramente de insónias. Talvez precise de menos horas de sono, ou talvez a impressão de passar horas e horas acordado não passe, de facto, de uma impressão. No caso de se confirmar que sofre realmente de insónias, consulte o médico…” Foi o que fizemos. Perguntámos à neurologista Teresa Paiva como vai o sono dos portugueses três décadas depois, e em plena pandemia. “A resposta não é uniforme, porque umas pessoas pioraram e outras melhoraram. Mas, em média, a qualidade do sono piorou e algumas doenças agravaram-se de forma significativa, como a insónia, a narcolepsia (excessiva sonolência durante o dia, com episódios intermitentes e incontroláveis de adormecimento), dores de cabeça e fadiga.”

Houve pessoas que viram o problema de sono aliviado, sobretudo quem tinha de enfrentar a lufa-lufa diária, “ir a correr para o emprego, levar os filhos à escola, estar nas filas de trânsito…” Ora, a pandemia trouxe uma paragem e, com isso, “estas pessoas viram o stresse reduzir-se de forma substancial, o que não é irrelevante: é um exemplo de que há outras formas de viver em sociedade que não passam por viver em stresse”, sublinha a especialista em medicina do sono.

“A qualidade do sono piorou e algumas doenças agravaram-se de forma significativa, como a insónia, a narcolepsia (excessiva sonolência durante o dia), dores de cabeça e fadiga”, alerta a neurologista Teresa Paiva. 
“A qualidade do sono piorou e algumas doenças agravaram-se de forma significativa, como a insónia, a narcolepsia (excessiva sonolência durante o dia), dores de cabeça e fadiga”, alerta a neurologista Teresa Paiva.

Insónia é, hoje, um fenómeno mais complexo

E quem se deu mal, perguntamos nós? “Quem tem atitudes e comportamentos negativos, como estar sempre a lamentar-se, quem tem dependências de tabaco, álcool, redes sociais e jogos. Tudo isso gera maior dificuldade de adaptação.” Já “quem consegue relativizar e fazer coisas positivas, como escrever, fazer exercício e aprender coisas novas, está mais bem-adaptado à adversidade”.

Um dado é certo: a insónia é, hoje, um fenómeno muito mais complexo do que nos anos 90. “Tenho casos mais difíceis, com muitas variantes, associados a violência na família e no trabalho, ou com uma mistura de doenças orgânicas e psicológicas”, nota a diretora clínica do Centro de Eletroencefalografia e Neurofisiologia Clínica, em Lisboa. A ciência avançou e, com ela, o diagnóstico e tratamento. Mas o futuro é sinónimo de complexidade e incerteza. “Haverá mais calamidades de todo o tipo: catástrofes ambientais, novos vírus… Isso passará a ser um dado frequente na nossa vida. E as pessoas têm de estar preparadas para isso”, conclui Teresa Paiva, em jeito de conselho.

DECO PROTESTE celebra 30 anos na linha da frente

Mudaram as inquietações dos portugueses, mas não perdemos o rumo nem a identidade. Dos pesticidas no tomate, em 1991, à maior prova de sobrevivência em plena pandemia covid-19, em 2021, celebramos 30 anos ao lado do consumidor. A entrada dos anos de 1990 foi decisiva para o crescimento da revista PROTESTE. De uma tiragem de 2500 exemplares no primeiro número, atingimos 200 mil por edição durante aquela década. Hoje, são já 370 mil.

Em janeiro de 1991, foi publicado o n.º 100. Mário Soares era Presidente da República e Aníbal Cavaco Silva, primeiro-ministro. Um ano antes, o crescimento contínuo da DECO e da revista justificavam a criação da editora: a Edideco, hoje DECO PROTESTE, responsável pelas publicações PROTESTE, DINHEIRO & DIREITOS, TESTE SAÚDE, PROTESTE INVESTE e guias práticos, que se tornaram uma referência na defesa dos consumidores. As décadas seguintes revelar-se-iam cruciais na afirmação e na consolidação da organização editorial.

Se agora lutamos contra as comissões bancárias, no passado, denunciámos e travámos as taxas no multibanco. A rede multibanco pretendia cobrar por cada operação, fosse uma transferência ou uma consulta do saldo. Num dia de 1994, desafiámos os portugueses a evitarem pagamentos por multibanco e a visitarem os balcões dos bancos. A cobrança nunca chegou a ser aplicada. Com movimentos cirúrgicos, também travámos a Portugal Telecom, empresa com a qual já havia antecedentes de uma relação pouco transparente. A taxa de ativação da chamada foi a última gota num copo já cheio. Movemos uma ação popular em tribunal, acompanhada de um boicote em que se pediu aos cidadãos para tirarem o telefone do descanso, num determinado dia de semana. Milhões de linhas ficaram interrompidas. A vitória em tribunal seria confirmada em 2003, após recursos da PT até ao Supremo. Em 2021, celebramos todos os meses com um regresso ao passado, na rubrica Conta-me como foi... há 30 anos.

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