Dossiês

30 anos de DECO PROTESTE: conta-me como foi

Há três décadas, o leite e o sono eram temas de reflexão na sociedade e na PROTESTE. Hoje, a qualidade do leite já não nos tira o sono, mas há outras causas – e mais graves – de insónia.

  • Texto
  • Sónia Graça e Nuno César
10 fevereiro 2021
  • Texto
  • Sónia Graça e Nuno César
capa da revista Proteste n.º 101, fevereiro de 1991

Quem nunca se interrogou sobre os benefícios e malefícios de beber leite? Uns adoram; outros não o toleram. Os especialistas dividem-se e, hoje, não há certezas absolutas. Há 30 anos, não era bem assim… “O conceito de que o leite é para as ‘crianças’ e de que um ‘homem’ não bebe leite é errado, assistindo-se hoje em dia, em vários países, inclusivamente no nosso, a um esforço no sentido de incentivar o seu consumo…” Começava assim o artigo da edição de fevereiro da revista PROTESTE, que, ao longo de oito páginas, destacava as vantagens do seu consumo. “Perfeitamente solidários com esta campanha internacional, deixamos três boas razões para continuar ou recomeçar a beber leite.” A primeira: “proteína em quantidade suficiente e de excelente qualidade”. A segunda: “a melhor fonte de cálcio”. E a última: “[alimento] bom e relativamente barato”.

Só que nem tudo ia bem. Um estudo da PROTESTE revelou que, “em mais de 80% dos casos, o leite pasteurizado não se encontrava nas condições mínimas que garantem a sua perfeita conservação”, nos locais de venda. A temperatura de conservação recomendada era entre os 0-6ºC, mas os técnicos da DECO encontraram muitas amostras acima dos 10ºC! Também não era incomum um “sobreaquecimento do leite, geralmente para fazer face a uma má qualidade microbiológica da matéria-prima no momento da pasteurização”.

Evolução extraordinária no leite

Esses problemas estão hoje ultrapassados. “A evolução ao longo dos últimos anos foi extraordinária, quer do ponto de vista nutricional e de higiene, quer do ponto de vista de segurança alimentar. É um produto no qual os portugueses podem confiar”, garante Dulce Ricardo, coordenadora da área alimentar do centro de competências alimentação e saúde da DECO PROTESTE.

“A evolução do leite foi extraordinária, quer do ponto de vista nutricional e de higiene”, destaca Dulce Ricardo, coordenadora dos testes alimentares da DECO PROTESTE. 
“A evolução do leite foi extraordinária, do ponto de vista nutricional e de higiene”, destaca Dulce Ricardo, coordenadora dos testes alimentares da DECO PROTESTE.
O leitor está porventura a pensar se os testes atuais também melhoraram. Dulce Ricardo não hesita: “Temos realizado testes cada vez mais precisos e completos, que, ao longo dos anos, têm sido complementados com mais parâmetros em termos de segurança alimentar. Por exemplo, já fazemos mais análises ao nível de pesticidas, antibióticos, mictoxinas, autenticidade…”

E do leite ao sono vai um passinho. Noutro artigo, de quatro páginas, a PROTESTE discorria sobre as perturbações do sono, os vários tipos de somníferos (título: “somníferos — em busca do sono perdido”) e outras formas de lutar contra a insónia.

Pandemia é um pau de dois bicos para a qualidade do sono

A certa altura, o jornalista quis pôr-nos a pensar: “Antes de recorrer aos somníferos, é melhor perguntar se sofre verdadeiramente de insónias. Talvez precise de menos horas de sono, ou talvez a impressão de passar horas e horas acordado não passe, de facto, de uma impressão. No caso de se confirmar que sofre realmente de insónias, consulte o médico…” Foi o que fizemos. Perguntámos à neurologista Teresa Paiva como vai o sono dos portugueses três décadas depois, e em plena pandemia. “A resposta não é uniforme, porque umas pessoas pioraram e outras melhoraram. Mas, em média, a qualidade do sono piorou e algumas doenças agravaram-se de forma significativa, como a insónia, a narcolepsia (excessiva sonolência durante o dia, com episódios intermitentes e incontroláveis de adormecimento), dores de cabeça e fadiga.”

Houve pessoas que viram o problema de sono aliviado, sobretudo quem tinha de enfrentar a lufa-lufa diária, “ir a correr para o emprego, levar os filhos à escola, estar nas filas de trânsito…” Ora, a pandemia trouxe uma paragem e, com isso, “estas pessoas viram o stresse reduzir-se de forma substancial, o que não é irrelevante: é um exemplo de que há outras formas de viver em sociedade que não passam por viver em stresse”, sublinha a especialista em medicina do sono.

“A qualidade do sono piorou e algumas doenças agravaram-se de forma significativa, como a insónia, a narcolepsia (excessiva sonolência durante o dia), dores de cabeça e fadiga”, alerta a neurologista Teresa Paiva. 
“A qualidade do sono piorou e algumas doenças agravaram-se de forma significativa, como a insónia, a narcolepsia (excessiva sonolência durante o dia), dores de cabeça e fadiga”, alerta a neurologista Teresa Paiva.
Teresa Paiva cita um inquérito realizado entre abril e setembro do ano passado, junto de nove mil pessoas, dos 18 aos 90 anos, de norte a sul do País, incluindo grupos diferenciados (de médicos e enfermeiros a professores e pessoal da aviação). A médica sublinha este ponto: “A qualidade do sono melhorou em 4% dos casos e manteve-se igual em cerca de 45 por cento.”

Insónia é, hoje, um fenómeno mais complexo do que nos anos 90

E quem se deu mal, perguntamos nós? “Quem tem atitudes e comportamentos negativos, como estar sempre a lamentar-se, quem tem dependências de tabaco, álcool, redes sociais e jogos. Tudo isso gera maior dificuldade de adaptação.” Já “quem consegue relativizar e fazer coisas positivas, como escrever, fazer exercício e aprender coisas novas, está mais bem-adaptado à adversidade”.

Um dado é certo: a insónia é, hoje, um fenómeno muito mais complexo do que nos anos 90. “Tenho casos mais difíceis, com muitas variantes, associados a violência na família e no trabalho, ou com uma mistura de doenças orgânicas e psicológicas”, nota a diretora clínica do Centro de Eletroencefalografia e Neurofisiologia Clínica, em Lisboa. A ciência avançou e, com ela, o diagnóstico e tratamento. Mas o futuro é sinónimo de complexidade e incerteza. “Haverá mais calamidades de todo o tipo: catástrofes ambientais, novos vírus… Isso passará a ser um dado frequente na nossa vida. E as pessoas têm de estar preparadas para isso”, conclui Teresa Paiva, em jeito de conselho.

DECO PROTESTE celebra 30 anos na linha da frente

Mudaram as inquietações dos portugueses, mas não perdemos o rumo nem a identidade. Dos pesticidas no tomate, em 1991, à maior prova de sobrevivência em plena pandemia covid-19, em 2021, celebramos 30 anos ao lado do consumidor. A entrada dos anos de 1990 foi decisiva para o crescimento da revista PROTESTE. De uma tiragem de 2500 exemplares no primeiro número, atingimos 200 mil por edição durante aquela década. Hoje, são já 370 mil.

Em janeiro de 1991, foi publicado o n.º 100. Mário Soares era Presidente da República e Aníbal Cavaco Silva, primeiro-ministro. Um ano antes, o crescimento contínuo da DECO e da revista justificavam a criação da editora: a Edideco, hoje DECO PROTESTE, responsável pelas publicações PROTESTE, DINHEIRO & DIREITOS, TESTE SAÚDE, PROTESTE INVESTE e guias práticos, que se tornaram uma referência na defesa dos consumidores. As décadas seguintes revelar-se-iam cruciais na afirmação e na consolidação da organização editorial.

Se agora lutamos contra as comissões no MB Way, no passado, denunciámos e travámos as taxas no multibanco. A rede multibanco pretendia cobrar por cada operação, fosse uma transferência ou uma consulta do saldo. Num dia de 1994, desafiámos os portugueses a evitarem pagamentos por multibanco e a visitarem os balcões dos bancos. A cobrança nunca chegou a ser aplicada. Com movimentos cirúrgicos, também travámos a Portugal Telecom, empresa com a qual já havia antecedentes de uma relação pouco transparente. A taxa de ativação da chamada foi a última gota num copo já cheio. Movemos uma ação popular em tribunal, acompanhada de um boicote em que se pediu aos cidadãos para tirarem o telefone do descanso, num determinado dia de semana. Milhões de linhas ficaram interrompidas. A vitória em tribunal seria confirmada em 2003, após recursos da PT até ao Supremo. Em 2021, celebramos todos os meses com um regresso ao passado, na rubrica Conta-me como foi... há 30 anos.

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