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Consolidar créditos sai caro a longo prazo

18 junho 2014

18 junho 2014

Juntar vários créditos num só permite ganhar liquidez mensal, mas significa pagar mais juros. Conte também com despesas de comissões e penalizações por reembolso antecipado.

São cada vez mais os portugueses que acumulam prestações sem conseguir pagá-las. Em 2013 fizemos um inquérito a 2230 famílias portuguesas. As estimativas revelaram-se preocupantes: um terço dos lares tinham de se governar com menos de € 1000 mensais. E 38% dos agregados admitiram chegar ao final do mês com um saldo negativo de cerca de 300 euros.

Face a este cenário, muitos têm procurado formas de reduzir as prestações. Uma solução tentadora é consolidar os créditos (alguns com taxas altas): juntar numa só prestação as mensalidades do carro, eletrodomésticos, mobiliário e férias.

Mais juros e revisão do spread
A consolidação de créditos permite ganhar liquidez mensal. Mas aumenta o prazo de todos os empréstimos (à exceção do crédito à habitação). Por exemplo, ao invés de pagar as férias em 1 ou 2 anos, paga-as em 30. Logo, vai gastar mais dinheiro com juros a longo prazo.

São cada vez menos as instituições bancárias que aceitam consolidar, principalmente se não tiverem garantias, como uma hipoteca. Normalmente a agregação é feita ao crédito à habitação. Mas os bancos podem aumentar o spread (margem de lucro que retiram destes contratos). Isso porque a consolidação implica, na prática, negociar um novo contrato. Além disso, o crédito à habitação está indexado à taxa Euribor, que está atualmente baixa, mas prevê-se que suba nos próximos anos.

Imagine um cenário em que os encargos mensais absorvem € 1788,33 do seu orçamento. Como está com dificuldades em pagar todas as prestações, vai ao banco e pede para juntá-las ao crédito à habitação, a pagar em 30 anos. Muito dificilmente o banco aceitará fazer a consolidação sem aumentar a margem de lucro. Mas se aceitar, para um spread que se mantenha a 1%, sem agravamento da Euribor, os seus encargos mensais baixam para 547,78 euros. Consegue uma folga de € 1240,55 todos os meses. Porém, no final dos 30 anos, terá desembolsado € 1613,14 a mais em juros. Se houver subidas na Euribor, poderá pagar muito mais.

O mais provável é o banco aumentar o spread. Se subir para 5% e a Euribor se mantiver constante, os seus encargos mensais passam para 906,22 euros. Consegue um alívio de € 882,11 por mês. Mas no final dos 30 anos, terá desembolsado mais € 130 649,01 em juros. O valor pode ser superior se a Euribor aumentar.

Com ou sem aumento do spread, consolidar permite reduzir os encargos mensais. Mas significa pagar mais juros a longo prazo.
Com ou sem aumento do spread, consolidar permite reduzir os encargos mensais. Mas significa pagar mais juros a longo prazo.

Prepare-se para pagar penalizações e despesas contratuais
A consolidação implica também custos adicionais de natureza legal relacionados com o novo contrato de crédito, como emolumentos e Imposto de Selo.

Além disso, terá de amortizar alguns dos créditos a consolidar, o que pode envolver penalizações. No crédito à habitação com taxa variável, o máximo de penalização é de 0,5% do valor amortizado. Para um crédito com taxa fixa, o valor sobe para 2%. No caso do crédito ao consumo, se for anterior a 2009, o máximo a pagar é o valor previsto em contrato. Mas para créditos posteriores a essa data, a situação altera-se. Não são cobradas penalizações para os créditos com taxa variável. Já para os que têm taxa fixa, o máximo é de 0,5% do valor amortizado, descendo para 0,25% se estiver no último ano.

Consolidar os créditos é, assim, uma solução que deve ser analisada cuidadosamente e depende de cada caso. É verdade que permite desafogar o orçamento familiar. Para quem não consegue pagar todas as prestações e despesas mensais, pode ser uma solução. No entanto, a longo prazo, revela-se mais cara.

Faça as contas antes de decidir
Avalie bem o seu orçamento antes de avançar para a consolidação de créditos. Faça uma lista de todas as suas receitas e despesas. Confirme se não consegue poupar cortando nalgum gasto a que não tem dado atenção. Pode fazer os cálculos com a ajuda da nossa ferramenta O meu dinheiro, que é fácil e intuitiva.

Normalmente, o crédito à habitação é o que pesa mais no orçamento. Por isso compensa tentar renegociar as condições com o banco, como o spread. Outra hipótese é o alargamento do prazo do empréstimo. Apesar de conseguir baixar a prestação mensal, também paga mais juros no final do crédito.

Só deve avançar para a consolidação se concluir que realmente não tem rendimentos para cobrir todas as despesas mensais. Nesse caso, consolidar pode ser uma forma de evitar o incumprimento. O nosso dossiê sobre soluções para travar o sobre-endividamento ajuda-o a identificar os primeiros sinais de perigo.

Se decidir consolidar, evite que o valor da mensalidade do crédito (taxa de esforço) seja superior a 35%. Quando ultrapassa esse limite, a taxa de esforço é considerada elevada: torna-se mais difícil responder a uma redução imprevista dos rendimentos, provocada situações como desemprego, cortes salariais ou doença.