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Consolidar créditos fica caro a longo prazo

Juntar vários créditos num só permite ganhar liquidez mensal, mas significa pagar mais juros, além das comissões e penalizações por reembolso antecipado.

  • Dossiê técnico
  • Margarida Zacarias
  • Texto
  • Sofia Frazoa e Filipa Nunes
04 junho 2020
  • Dossiê técnico
  • Margarida Zacarias
  • Texto
  • Sofia Frazoa e Filipa Nunes
puzzle com imagem de nota de euro

iStock

Com a pandemia da covid-19, quase 60% da população ativa teve uma quebra de rendimentos, o que dificulta o pagamento regular dos seus créditos. Numa fase inicial, muitas famílias puderam recorrer às moratórias de crédito públicas, criadas pelo Estado, ou privadas, disponibilizadas pelas instituições de crédito. Dessa forma, conseguiram um alívio nos seus orçamentos familiares ao não pagarem uma parte ou a totalidade das prestações. Porém, quando o prazo concedido terminar, os pagamentos terão de ser retomados e, se a quebra de rendimentos permanecer, muitas famílias não irão conseguir assegurá-los.

Face a este cenário, muitos têm procurado formas de reduzir as prestações. Uma solução tentadora é a consolidação de créditos (alguns com taxas altas): juntar numa só prestação as mensalidades do carro, eletrodomésticos, mobiliário e férias.

Consolidar créditos: mais juros e revisão do spread

A consolidação de créditos permite ganhar liquidez mensal, mas aumenta o prazo de todos os empréstimos (à exceção do crédito à habitação). Por exemplo, em vez de pagar as férias em 1 ou 2 anos, paga-as em 30. Logo, vai gastar mais dinheiro com juros a longo prazo.

São cada vez menos as instituições bancárias que aceitam consolidar, principalmente se não tiverem garantias, como uma hipoteca. A agregação pode ser feita ao crédito à habitação ou podem ser apenas agregados os créditos ao consumo e cartões de crédito.

Neste processo, os bancos podem aumentar o spread (margem de lucro que retiram destes contratos) porque a consolidação implica, na prática, negociar um novo contrato. Além disso, o crédito à habitação está indexado à taxa Euribor, que está atualmente baixa, mas prevê-se que suba nos próximos anos. 

Se não tiver um imóvel para dar como garantia ainda é possível encontrar algumas instituições de crédito que disponibilizam crédito ao consumo consolidado. Neste caso, a taxa de juro será superior ao praticado no crédito hipotecário e o prazo máximo são apenas 7 anos. Caso pretenda consolidar créditos com prazos superiores a 7 anos, só o conseguirá fazer num crédito hipotecário e, para isso, necessita de um imóvel como garantia.

Imagine um cenário em que paga mensalmente € 610 pelos créditos automóvel, pessoal e cartão de crédito. Como está com dificuldade em pagar todas as prestações, vai ao banco e pede para juntá-las. O banco apresenta-lhe a possibilidade de juntá-las num crédito hipotecário consolidado e, neste caso, terá de ter um imóvel para dar como garantia do crédito. O banco até aceita um imóvel que já tenha uma hipoteca a favor de outro banco porque já tem, por exemplo, um crédito à habitação, mas apenas se o valor total dos créditos for, no máximo, 80% do valor de avaliação. No entanto, uma situação destas é rara. Por norma, é-lhe exigido um imóvel sem nenhuma hipoteca.

Neste cenário que apresentamos, em caso de consolidação, o banco faz-lhe um novo empréstimo por 10 anos e fica a pagar € 219 por mês. Consegue uma folga mensal de € 391, mas no final dos 10 anos pagará mais € 5 256,69 do que se mantivesse o pagamento dos créditos originais. Ao manter o pagamento nos prazos iniciais, o custo seria € 3 896,36; optando pela consolidação em 10 anos o custo total do crédito será de 9153,05 euros. Como se trata de um crédito hipotecário com taxa variável, o valor poderá ser superior se a Euribor aumentar. Neste caso, como também foi consolidado o cartão de crédito, tinha de ser contactada a instituição que o emitiu para pedir o seu cancelamento, não bastava apenas pagar o valor em dívida. Se não solicitar o cancelamento, o cartão continua a existir e, se tiver anuidade, esta continuará a ser cobrada.

Prepare-se para pagar penalizações e despesas contratuais

A consolidação de crédito implica também custos adicionais de natureza legal relacionados com o novo contrato de crédito, como emolumentos e Imposto de Selo.

Além disso, terá de amortizar os créditos a consolidar, o que pode envolver penalizações. No crédito à habitação com taxa variável, o máximo de penalização é de 0,5% do valor amortizado. Para um crédito com taxa fixa, o valor sobe para 2 por cento. No caso do crédito ao consumo, se for anterior a 2009, o máximo a pagar é o valor previsto em contrato. Mas para créditos posteriores a essa data, a situação altera-se. Não são cobradas penalizações para os créditos com taxa variável. Já para os que têm taxa fixa, o máximo é de 0,5% do valor amortizado, descendo para 0,25% se estiver no último ano.

Consolidar os créditos é, assim, uma solução que deve ser analisada cuidadosamente e depende de cada caso. É verdade que permite desafogar o orçamento familiar. Para quem não consegue pagar todas as prestações e despesas mensais, pode ser uma solução. No entanto, a longo prazo, revela-se mais cara.

Faça as contas antes de decidir consolidar créditos

Avalie bem o seu orçamento antes de avançar para a consolidação de créditos. Faça uma lista de todas as suas receitas e despesas. Confirme se não consegue poupar cortando nalgum gasto a que não tem dado atenção.

Normalmente, o crédito à habitação é o que pesa mais no orçamento. Por isso, compensa tentar renegociar as condições com o banco, como o spread. Outra hipótese é o alargamento do prazo do empréstimo. Apesar de conseguir baixar a prestação mensal, também paga mais juros no final do crédito.

Só deve avançar para a consolidação de créditos se concluir que realmente não tem rendimentos para cobrir todas as despesas mensais. Nesse caso, consolidar pode ser uma forma de evitar o incumprimento. O nosso dossiê sobre soluções para travar o sobre-endividamento ajuda-o a identificar os primeiros sinais de perigo.

Se decidir consolidar, evite que o valor da mensalidade do crédito (taxa de esforço) seja superior a 35% do valor do seu rendimento mensal. Quando ultrapassa esse limite, a taxa de esforço é considerada elevada: torna-se mais difícil responder a uma redução imprevista dos rendimentos, provocada por situações como desemprego, cortes salariais ou doença. 

E não avance logo na primeira proposta que tenha. Solicite várias simulações, compare a oferta de vários bancos e opte pela que apresenta a TAEG (Taxa Anual de Encargos Efetiva Global) mais baixa. É nesta que terá refletido o custo total do crédito e a que for mais baixa representará o crédito mais barato. Outra questão importante quando decide consolidar créditos é o prazo do novo crédito. Contrate o prazo mais curto que lhe permita ter uma prestação confortável para o seu rendimento atual. Quanto maior for o prazo mais irá pagar em juros e mais caro ficará o crédito no final.

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