Primeiras impressões

Sapatos MBT: instáveis para andar melhor

07 junho 2011 Arquivado

07 junho 2011 Arquivado

Os sapatos "Masai" e as suas imitações prometem benefícios para os músculos e as articulações, mas não há estudos científicos que os comprovem.

A publicidade aos sapatos da MBT (Masai Barefoot Technology) destaca os efeitos na saúde e recomenda-os para evitar a dor nas costas ou exercitar os músculos. A MBT foi a primeira marca a fabricar estes sapatos e outras seguiram o exemplo. Os estudos até à data não permitem confirmar os benefícios, nem excluir possíveis riscos decorrentes do uso dos MBT.

Tendo em conta o preço destes sapatos, a rondar € 120, contrarie a criatividade publicitária e experimente na loja antes de comprar. Trata-se sobretudo da preferência de cada um.

Não há provas suficientes que permitam sustentar as alegações da publicidade aos sapatos da MBT ou de outras marcas.

Descalço como em África
O princípio de funcionamento dos MBT é explicado no sítio online da marca: a sola recria o modo de caminhar descalço dos Masai, uma tribo originária da África Oriental. Tal permite devolver ao pé a sua caminhada natural e reproduzir a instabilidade do andar descalço num terreno irregular. A sola dos MBT, graças à compensação, cria instabilidade e força o pé a balançar para a lateral e longitudinalmente, do calcanhar aos dedos do pé.

Faltam estudos independentes
No sítio da MBT, pode ler-se que os benefícios para a saúde são confirmados pela pesquisa científica, havendo referências pontuais a publicações. Prevalecem os resumos de estudos não publicados, os relatórios internos e os discursos em conferências, pouco relevantes para uma avaliação crítica e factual. Pesquisámos exaustivamente a literatura científica e concluímos que são necessários mais testes para confirmar as alegações da MBT.

Identificámos 15 estudos, sobretudo centrados na marcha de voluntários que usaram alternadamente MBT e sapatos normais. Foram analisadas as mudanças de ritmo, o equilíbrio e a pressão na planta do pé. Trata-se de estudos curtos e de pequena dimensão e, em mais de metade dos casos, com apoios do fabricante.

Destes estudos, verifica-se que os MBT provocam uma mudança no andar, mas cada pessoa reage de forma diferente. É difícil determinar as consequências globais, positivas ou negativas, dos MBT na caminhada.

As alterações dão-se a vários níveis, mas são limitadas: o tornozelo parece apoiar-se mais da compensação do que outras partes do pé, o que resulta na maior utilização dos músculos gémeo e tibial anterior. Mas os estudos nem sempre o confirmam e as consequências são incertas. Um pequeno estudo observou uma maior flexão do joelho durante a viagem, desaconselhável para quem tem problemas nessa articulação. Outro estudo mais recente, de 2011, mostra que a amplitude de movimentos do tornozelo aumentou, mesmo comparando com o andar descalço. Alguns especialistas defendem que a instabilidade provocada poderá causar fadiga e cansaço muscular.

Os estudos mostram que os MBT conferem uma certa instabilidade, especialmente quando o utilizador está parado, mas desconhece-se se isso contribui para um maior equilíbrio e estabilidade ou, pelo contrário, favorece as lesões. Nenhum avaliou a frequência de quedas ou entorses no tornozelo.

No geral, não há diferenças significativas nos vários estudos sobre o movimento e forças que afetam as articulações ou a atividade muscular.

Um estudo mostrou que os MBT fazem mover a pressão para a frente do pé, especialmente nos dedos: pode ser uma vantagem ou inconveniente, dependendo de como caminha.

Dois estudos avaliaram os benefícios em pessoas com osteoartrite no joelho e dor nas costas. No primeiro grupo, não se detetou efeitos. No segundo, composto por 17 pessoas, verificaram-se melhorias globais após 6 semanas. O estudo foi publicado numa revista oficial, mas os envolvidos são poucos e os próprios autores reconhecem a possibilidade de efeito placebo.

Publicidade muito criativa
Segundo a publicidade, a estrutura e a forma dos MBT, e de outras marcas com efeitos similares, permitem exercitar os músculos e relaxar a tensão que ameaça as articulações e as costas. São benéficos para o pescoço, o joelho e as articulações. Os MBT contribuem ainda para tonificar as nádegas e as coxas. Parado ou a caminhar em passo ligeiro, o utilizador do MBT queima mais calorias. Mais uma vez, não há provas suficientes que permitam sustentar estas alegações.

Entre os estudos que analisámos, há um do American Council of Exercise que mede o consumo de energia e a atividade de certos músculos. No teste, um pequeno grupo de alunos caminhou durante 5 minutos numa passadeira rolante, com diferentes combinações de velocidade e inclinação. Usaram diferentes marcas destes sapatos: MBT, Reebok EasyTone e Skechers Shape Up e, em seguida, sapatos normais da New Balance. Não foi possível concluir que os sapatos do tipo MBT sejam mais eficazes do que os outros.


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