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Parar para pensar em novos modelos de ensino

A pandemia obrigou as escolas, os professores e as famílias a improvisar um método de ensino de emergência. Passados três meses e meio, fizemos um balanço e debatemos o que se espera para o próximo ano letivo, na quarta conferência Parar para pensar. 

  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Filipa Nunes
01 julho 2020
  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Filipa Nunes
Conferência Papar para pensar Educação DECO PROTESTE

Educação foi o tema em discussão na quarta sessão do ciclo de conferências organizado conjuntamente pela DECO PROTESTE e pelo Expresso “Parar para pensar”. Os membros do painel, moderado pela jornalista da SIC Notícias Marta Atalaya, procuraram fazer um balanço das soluções implementadas no setor do ensino para fazer face à pandemia da covid-19 e, tanto quanto possível, antecipar o que poderá vir a acontecer nos próximos meses.

Globalmente, chegaram à conclusão de que, dadas as circunstâncias, as escolas foram capazes de dar uma reposta positiva ao desafio com que foram confrontadas. Agora importa investir na formação dos docentes para que, já no início do próximo ano letivo, se possa começar a retirar lições do que aconteceu e assegurar, se necessário, um ensino à distância de qualidade. Nos vídeos abaixo, pode rever alguns momentos da conversa.

 

Pandemia agudizou desigualdades no ensino

Os últimos meses representaram um enorme desafio para professores e alunos que, de um dia para o outro, tiveram de adaptar-se a uma nova realidade. Como apontou David Justino, Professor Catedrático no Departamento de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa e ex-Ministro da Educação, “não havia uma receita para lidar com a situação”. Com o encerramento generalizado das escolas, numa primeira fase, e a retoma parcial das aulas presenciais numa segunda, o corpo docente e os alunos tiveram de adaptar-se muito rapidamente a novas modalidades de ensino.

E se, no cômputo geral, se pode afirmar que todos, escolas, professores e alunos, se revelaram disponíveis e motivados para adquirir as necessárias competências para que o ensino à distância pudesse tornar-se uma realidade, a verdade é que nem todos partiram do mesmo ponto. De acordo com Alexandre Homem Cristo, cofundador e Presidente da QIPP, organização sem fins lucrativos que atua na área da educação, “era difícil organizar melhor uma situação de emergência [...] O ensino à distância foi uma solução de improviso e de grande disparidade”.

No momento em que se declarou a pandemia, alguns professores estavam mais preparados do que outros para usarem os computadores para darem aulas, para utilizarem as plataformas e para partilharem conteúdos pedagógicos com os seus alunos em formato digital. Por outro lado, e pelas mais variadas razões (falta de computador ou de acesso à internet em casa, impossibilidade de as famílias darem apoio), nem todos os alunos puderam beneficiar das aulas à distância, tendo muitos ficado totalmente à margem do processo.

No fundo, o ensino à distância veio agudizar as desigualdades já existentes. “Podemos ter a certeza de que houve alunos sem qualquer contacto com a escola, tendo esse contacto sido ineficaz no caso de outros, com um retrocesso das aprendizagens”, sublinhou David Justino, ideia partilhada por Nuno Almeida, B2B Enterprise Sales Manager da Samsung Electronics, que compara a situação que se viveu a uma tempestade. Segundo o especialista, o País dispõe da tecnologia e dos meios necessários, com uma boa cobertura em termos de fibra ótica e 4G, mas nem todos têm acesso a ela. Alguns alunos enfrentaram, por isso, a situação “em porta-aviões, outros em traineiras e, outros ainda, em jangadas de madeira”, com os alunos das zonas urbanas e do litoral melhor equipados para enfrentar os novos desafios do que os do interior do País.

Todos os convidados estiveram de acordo quanto a dizer que é hoje ainda difícil fazer um balanço exato da situação, uma vez que ainda estamos a meio do processo, em plena pandemia. Contudo, como realça Rita Coelho do Vale, Professora na Universidade Católica e retomando as palavras de David Justino, “Não devemos dramatizar.” Segundo a professora, “A pandemia obrigou a repensar a educação num formato nunca dantes visto tendo havido um feedback muito positivo graças ao esforço de todos e estamos hoje mais preparados para fazer face a este tipo de situação do que estávamos há três meses e meio.” Mas, sublinha a professora, o balanço é certamente diferente nos vários graus de ensino. Acredita que a adaptação ao ensino à distância foi mais fácil e positiva ao nível do ensino universitário e do 3.º ciclo, dada a maior maturidade e capacidade de gerir as tecnologias por parte dos alunos, do que no 1.º ou até do 2.º ciclo.

Novos desafios para o próximo ano letivo

Agora, importa preparar o próximo ano letivo, e retirar os necessários ensinamentos da experiência vivida. Dada a enorme incerteza quanto à forma como a pandemia irá evoluir ao longo dos próximos meses, com uma muito provável segunda vaga, temos de nos preparar para uma série de cenários. E haverá ainda que dar uma resposta a uma questão fundamental: agora que experimentámos novas modalidades de ensino, que percebemos que aquilo que, para muitos, era impensável é, afinal, possível, que futuro queremos para o ensino em Portugal? 

Fará sentido que, sabendo o que sabemos hoje, se volte, quando as circunstâncias permitirem, ao ensino tradicional, baseado quase exclusivamente em aula presenciais, ou devemos almejar um ensino de tipo híbrido? 

As opiniões variam. Nuno Almeida defende que não há tempo a perder. Nos dois meses que nos separam do início do próximo ano letivo, é fundamental fazer chegar a tecnologia aos mais desfavorecidos e apostar na modernização do ensino, na formação dos professores sobre a utilização dos dispositivos e das plataformas digitais de ensino à distância.

Teresa Calçada, Comissária do Plano Nacional de Leitura, defende que o conhecimento é hoje multimodal, com texto, imagem, vídeo, podcasts, e que, independentemente da pandemia, urge equipar as escolas com um plano tecnológico. É, reforça, a única forma de responder aos desafios do futuro do ensino. 

Já Alexandre Homem Cristo considera que a modernização do ensino não constitui uma prioridade, devendo a tónica ser colocada na necessidade de se regressar, logo que as circunstâncias o permitam, ao ensino presencial. O ensino não é só a transmissão de matéria e a aquisição de conhecimentos. “O digital não substitui o professor, nem o contacto social na escola nem a eficácia da relação ensino/aprendizagem” defende, mas reconhece que é difícil garantir, já em setembro, o regresso ao ensino presencial em segurança, com o distanciamento necessário. Exige um desdobramento de turmas, mais espaço, mais professores e um planeamento de recursos. Referiu o exemplo da Dinamarca onde as escolas vão alugar espaços mais amplos, como auditórios. E adiantou que o Ministério da Educação está a prever contratar mais professores, não sabendo se para desdobrar turmas e possibilitar o ensino presencial ou se para recuperar a aprendizagem e dar apoio aos alunos. 

Alguns, como Rita Coelho do Vale, consideram que a pandemia de covid-19 nos obrigou a reinventar a educação, adotando modalidades de ensino totalmente novas, que devem agora ser preservadas, não como substituto do ensino tradicional, mas como um complemento. O digital pode ser uma forma muito útil para, por exemplo, consolidar conhecimentos. Defende por isso um modelo de ensino híbrido, com um misto de aulas presenciais e apoio digital. 

David Justino lembrou que, todos os anos, as medidas para o início do ano letivo seguinte são sempre anunciadas no final de primeira semana de julho, pelo que se espera que, em breve, as escolas, os pais e os alunos sejam informados sobre a estratégia adotada pelo Ministério da Educação já para setembro.

O debate, que aconteceu nesta terça-feira 30 de junho, pode ser revisto na página do Expresso no Facebook

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