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NETtalks: hackers atacam para alertar

21 janeiro 2015 Arquivado
nettalks

21 janeiro 2015 Arquivado

A Escola Secundária de Camões, em Lisboa, acolheu a 15 de janeiro a 18.ª e última conferência NETtalks, um projeto da DECO. Uma plateia cheia para aprender como evitar as armadilhas da navegação desprotegida na Internet.

Dois perfeitos desconhecidos subiram ao palco e, sem aviso, começaram a tratar pelo nome próprio alguns estudantes no público e a debitar informação sobre os seus passeios, viagens e relações. A assistência contorceu-se de espanto, primeiro, e, depois, libertou algumas gargalhadas perante os dois hackers. As personagens anónimas para muitos – mas conhecidos por Tiago Crispim e João Gonçalves, da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL) - ensaiaram uma performance de choque para demonstrar, ao contrário do que os jovens estão convencidos, que não se encontram devidamente protegidos na Internet, e, mais especificamente, nas redes sociais. “Os vossos perfis estão livres para qualquer pessoa”, afirmaram. Conselho: fechar os perfis nas redes sociais. Por este e outros motivos, as NETtalks, projeto desenvolvido pela DECOjovem, são oportunas e vão continuar disponíveis online para consulta.
João Honrado e João Serralha apresentaram a conferência e João Gonçalves e Tiago Crispim vestiram a pele de hackers para alertar sobre os perigos das redes sociais.
João Honrado e João Serralha apresentaram a conferência e João Gonçalves e Tiago Crispim vestiram a pele de hackers para alertar sobre os perigos das redes sociais.
João Serralha e João Honrado, ambos da UAL, moderaram esta conferência. Confrontaram o facto de a quase totalidade dos presentes no auditório ter computador, telemóvel e Facebook com um número volumoso e contrastante: existem 770 milhões de adultos analfabetos no mundo, o que significa que desconhecem a Internet. Entre os 15 e os 24 anos, são 123 milhões de analfabetos e, em Portugal, estão identificados 1 em cada 20 habitantes. Ou seja, mais de 500 mil habitantes não sabem ler nem escrever. Em contrapartida, em todo o mundo, o número de telemóveis é esmagador: 6,8 mil milhões (há pessoas com mais de um aparelho). China, Índia, EUA, Indonésia e Brasil lideram neste aspeto. 

Nas redes sociais com pouca proteção
No auditório da Escola Secundária de Camões, apinhado de estudantes do 3.º ciclo e do secundário, o barulho é imagem de marca. Tratam as redes sociais por tu e para quem o sorriso instantâneo para o selfie tirado com o telemóvel, logo a seguir partilhado, é um gesto natural. Para os três alunos da Escolha Josefa de Óbidos com quem conversámos, aparentemente, as cautelas não estão esquecidas. Mas os nossos testemunhos confirmam as estatísticas: conhecem amigos que já foram vítimas de cyberbullying ou de roubo de identidade. 

De acordo com o projeto ““NETtalks: pensas que tudo o que vem à rede é fixe?”, coordenado por Fernanda Santos, da DECO, e Paula Lopes, da UAL, cerca de 45% dos jovens inquiridos afirmam ter conhecimento de humilhações, ameaças, chantagem ou difamação (cyberbullying) a amigos. Paula Lopes apelou: “ tenham cuidado com as partilhas e com a visibilidade que dão às vossas páginas”. Segundo os dados recolhidos junto de alunos do secundário, os jovens navegam uma a duas horas por dia na Net, mas há uma boa fatia que passa mais de oito horas, sobretudo nas redes sociais.

Facebook, Twitter e Instagram lideram as preferências dos jovens quanto a redes sociais. Todos alegam que, para se protegerem, só publicam fotografias com amigos em ocasiões festivas. Além disso, acreditam, só os seus amigos conseguem aceder aos seus conteúdos, não falam com desconhecidos e não aceitam pedidos de amizade de estranhos. Também não se localizam. Mas normalmente conhecem quem já tenha tido problemas. Isso fá-los ficar mais alertados para os perigos de uma navegação e utilização sem cuidados mínimos. 

Jovens interessados e preocupados
José Ribeiro, de 16 anos, a frequentar o 9.º ano na Escola Secundária Josefa de Óbidos, só aderiu a uma rede social: Twitter. “Só deixo seguir quem conheço ou se tiver boa aparência. Não aceito um adulto que não conheço, mas já aceito um aluno de uma escola que sei qual é. Também não aceito pessoas de outros países”. Este aluno dá boas razões para estar no Twitter: “É muito seguro, porque só quem eu aceito que me siga é que consegue ver as minhas coisas. De outra maneira, não.” E porquê só esta rede social? “Cansei-me do Facebook”, justifica. Cancelou a conta, apesar de estar ciente que os seus dados continuarão acessíveis online. “Punha muita coisa: fotos com vários amigos, estados, o que estava a fazer, onde estava. No Twitter não me localizo, mas continuo a por fotos com amigos e tudo e mais alguma coisa, mas sinto que é mais privado”.

José Ribeiro, 16 anos: “Cansei-me do Facebook. O Twitter é muito seguro”.
José Ribeiro, 16 anos: “Cansei-me do Facebook. O Twitter é muito seguro”.
Bárbara Moreno, 16 anos: “O Twitter é mais para falar e não damos o nome real”.
Bárbara Moreno, 16 anos: “O Twitter é mais para falar e não damos o nome real”.
Do 10.º ano, Bárbara Moreno, de 16 anos, já está a par de alguns cuidados a ter na Net, “mas gostava de saber mais”. Também para esta aluna, o Twitter é mais seguro e, por isso, o detém em exclusividade. “O Twitter é mais para falar e não damos o nome real. No Facebook, as pessoas interessam-se mais pela vida das outras. Não dou informações verdadeiras, para não me procurarem. Ponho fotos, mas nada de grave. Sempre fui responsável nessas coisas e sempre tive medo que soubessem alguma coisa de mim. Já tive colegas que se expuseram com fotos demasiado ousadas e sofreram bullying virtual, não correu bem. Continuam nas redes sociais, mas agora têm mais cuidado”, assegura.
Margarida Martins, 17 anos: “Não ponho o meu nome nas redes sociais, só o meu apelido”.
Margarida Martins, 17 anos: “Não ponho o meu nome nas redes sociais, só o meu apelido”.
Para Margarida Martins, de 17 anos, no 10.º ano, “é interessante saber quais são os perigos da Internet, o que me podem fazer, especialmente porque estou ligada às redes sociais”. Tem perfil no Facebook e no Instagram, bem como no Twitter, mas este “criou só por criar”. Cuidados? “Não ponho o meu nome, só o meu apelido. Não partilho frequentemente fotografias. Não gosto de publicar muitas coisas e não aceito ninguém que não conheça, que não seja da escola. Não publico nada que sei que possa vir a fazer-me mal. Tenho uma amiga que já sofreu roubo de identidade. Ela denunciou o caso à polícia e depois pararam”.
Nuno Miguel Moreira, do Centro Internet Segura, Teresa Pombo, da Direção-Geral da Educação, e Paula Lopes, investigadora da Universidade Autónoma de Lisboa, contribuíram para a consciencialização das cautelas a ter online.
Nuno Miguel Moreira, do Centro Internet Segura, Teresa Pombo, da Direção-Geral da Educação, e Paula Lopes, investigadora da Universidade Autónoma de Lisboa, contribuíram para a consciencialização das cautelas a ter online.
Uma questão de bom senso
“Não estamos cientes da informação que disponibilizamos online”, afirma Nuno Miguel Moreira, do Centro Internet Segura. Firewall e anti-vírus são proteções básicas num computador, mas “quase ninguém tem antivírus no smartphone, por exemplo”. E devia. “A única forma de nos proteger é o nosso bom senso. Temos de ter consciência dos riscos”, assegurou. Um dos cuidados a ter é “não abrir certos e-mails”. Os descuidos na Internet têm comparação com a vida real: “Uma casa pode ter uma porta blindada e janelas com grades, mas se a porta estiver no trinco, não vale a pena ser blindada”, exemplificou. 

Já para Teresa Pombo, da Direção-Geral da Educação, “os jovens acham que estão seguros, mas não estão”. Centrando a sua intervenção no plágio, “que é crime”, Teresa Pombo alerta para várias situações: além de não se poder fotocopiar um livro integralmente nem filmar um concerto completo, também não se pode copiar conteúdos da Internet. “Deve-se identificar a fonte. Para usar fotografias, convém pedir autorização ao autor”, aconselha Teresa Pombo. 

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