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Gravidez na adolescência potenciada por baixa escolaridade

14 março 2014
baixa escolaridade e gravidez

14 março 2014

Um projeto da Universidade de Coimbra põe a nu a necessidade de apostar na educação e informação dos adolescentes como forma de prevenir a gravidez indesejada na adolescência.

O projeto Gravidez na Adolescência em Portugal: Etiologia, decisão reprodutiva e adaptação, levado a cabo pelo Grupo de Investigação Relações Desenvolvimento & Saúde da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, com o apoio da Associação para o Planeamento da Família e a Direção-Geral de Saúde, está a recolher dados desde 2008 junto de 1675 adolescentes de todas as regiões de Portugal. A informação analisada até agora mostra que a gravidez na adolescência tem origens muito diversas. Contudo, há um traço comum que amplia a ocorrência do fenómeno: a baixa escolarização e/ou o abandono escolar.

Quando a contraceção falha
As causas mais apontadas pelos jovens para a ocorrência da gravidez são as falhas na utilização da contraceção, com maior peso na região Norte, a ausência da utilização da contraceção, com incidência significativa na região Centro, e o planeamento da gravidez ainda na adolescência, que assume maior importância nos Açores e no Alentejo. Na região da Madeira, a ausência de contraceção e a sua utilização desadequada são igualmente significativos. A nível nacional, a rede de cuidados de saúde primários (USF e centros de saúde) e alguns hospitais dispõem de consultas de atendimento de adolescentes e de planeamento familiar.

A maioria das gravidezes teve lugar no contexto de uma relação de namoro (em média de um ano), com homens mais velhos (por vezes já adultos), que se encontravam fora do sistema de ensino. O facto da maior parte da população adolescente em risco estar fora do sistema de ensino ou retida em anos escolares não normativos, restringe o seu acesso a uma educação sexual, veiculada em contexto escolar, adequada ao seu nível de desenvolvimento. Além do mais, muitos dos parceiros, por serem mais velhos e não frequentarem a escola, ficam fora do alcance dos programas de educação sexual e prevenção da gravidez. O que evidencia a necessidade de se apostar na informação não apenas a nível escolar mas também da comunidade.

Os dados analisados revelam ainda que, na maioria dos casos em que as jovens decidiram levar a gravidez por diante, o primeiro contacto com os serviços de saúde foi feito depois das 10 semanas de gestação, ou seja, fora do tempo legal que lhes permitiria ponderar a possibilidade de uma interrupção da gravidez. No entanto, entre aquelas que tiveram a possibilidade de interromper a gravidez, só uma minoria ponderou fazê-lo, tendo depois decidido prosseguir a gravidez maioritariamente por decisão própria ou de forma partilhada com o companheiro.

Aposta urgente na educação
Os responsáveis pelo projeto identificaram quatro linhas de ação para ajudar a combater a gravidez na adolescência:

  1. A nível nacional, educação das adolescentes e dos seus parceiros sobre possíveis falhas na utilização de métodos contracetivos, o risco de gravidez, a ação da contraceção de emergência, bem como a identificação e remoção das barreiras no acesso a essa forma de contraceção;
  2. Continuar a investir em políticas de saúde que visam a promoção da utilização da contraceção, sendo também necessário avaliar as razões que explicam os resultados obtidos na região Centro e na Madeira;
  3. Promoção de projetos de vida alternativos à maternidade como forma de redução das taxas de gravidez na adolescência em regiões como o Alentejo ou os Açores;
  4.  Sensibilizar as jovens para um despiste precoce de uma eventual gravidez, de forma a aumentar as oportunidades de decisão quanto ao prosseguimento ou interrupção da mesma.

Os responsáveis alertam ainda para a importância do papel dos profissionais de saúde junto da população adolescente que está fora do sistema de ensino e para a necessidade de integrar nas ações delineadas a população masculina com maior probabilidade de estar envolvida em casos de gravidez adolescente.