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Ronaldo e a queda de 4 mil milhões da Coca-Cola em bolsa: pura coincidência

Com um simples gesto – afastar duas garrafas de Coca-Cola da sua frente e substituí-las por uma garrafa de água – Cristiano Ronaldo provocava um dano de 4 mil milhões de dólares numa das empresas mais valiosas do planeta. Desmontamos uma teoria do outro mundo. 

  • Dossiê técnico
  • Rui Ribeiro
  • Texto
  • Maria João Amorim
23 junho 2021
  • Dossiê técnico
  • Rui Ribeiro
  • Texto
  • Maria João Amorim
latas de coca-cola

iStock

A notícia teve origem num texto do jornal desportivo espanhol Marca. Ao afastar duas garrafas de Coca-Cola do lugar em que estava sentado, na conferência de imprensa de antevisão do jogo entre Portugal e a Hungria, para o Euro 2020, Cristiano Ronaldo teria provocado um tsunami nas ações da Coca-Cola. Segundo o jornal, as ações da empresa tinham tombado mais de 4 mil milhões de dólares, ou seja, cerca de 3,6 mil milhões de euros. Com um simples gesto.

O resto há de ficar para a história: a notícia foi replicada vezes sem fim, as imagens tornaram-se virais, fizeram-se piadas mais ou menos inofensivas na internet e, mais importante do que isso, a opinião pública acreditou, parecendo-lhe absolutamente verosímil que uma atitude espontânea do grande craque pudesse provocar um rombo tão grande numa empresa de 240 mil milhões de dólares. Afinal, Ronaldo é Ronaldo. O verdadeiro e o mais poderoso “influencer” do mundo, como foi repetidamente apelidado.

Reações mais sérias da UEFA e da própria Coca-Cola também se fizeram ouvir.

Terá sido assim tão grande a queda nas ações da Coca-Cola?

Mas eis que é chegada a hora do necessário fact checking. E também do uso de algum bom senso. Perguntemo-nos: quando Ronaldo aparece a conduzir um Ferrari ou outro carro de luxo qualquer, as ações dessa empresa na bolsa sobem em flecha qual foguetão da NASA? Não. O facto de Ronaldo conduzir um Ferrari na sua vida privada não tem relevância para a cotação da empresa em bolsa. Estar ao volante de um possante carro contribui para a adrenalina do craque-condutor, seguramente, mas não para fazer subir ou descer a cotação da empresa. O mundo não é assim tão simples, muito menos o mundo das bolsas.

Do mesmo modo, afastar garrafas de Coca-Cola da frente, num gesto nada planeado, ainda que com o mundo inteiro de olhos postos na poderosa máquina de fazer dinheiro que é Ronaldo, não é suficientemente impactante para provocar um crash bolsista.

Sendo que – e este é o primeiro mito que cai por terra – é difícil chamar crash bolsista a uma perda de 4 mil milhões de dólares na Coca-Cola. É muito dinheiro, é certo, mas representa apenas 1,9% de queda na cotação da empresa em três dias, o que é manifestamente pouco e perfeitamente normal, mesmo numa única sessão de bolsa.

Muito diferente, porque ancorado no que, de facto, mexe com o valor de uma empresa, foi o que aconteceu, por exemplo, a 23 de setembro de 2020, quando as ações da gigante Tesla caíram 10,3%, depois de Elon Musk ter escrito no Twitter que as melhorias nas baterias do construtor automóvel não estariam disponíveis em larga escala antes de 2022.

Mas o gesto de Ronaldo foi visto e comentado por milhões e milhões de espetadores. Gerou debates sobre opções alimentares, estilos de vida mais saudáveis e como acabar com maus hábitos de consumo. Impossível não ter impacto, insistiu-se. Novamente, convocamos o bom senso: mesmo que o gesto de Cristiano tenha tido algum impacto na cotação da Coca-Cola, trata-se de um efeito de muito curto prazo, que não terá qualquer influência no futuro da empresa e na evolução do preço da ação a longo prazo. E nem a curto: caso o gesto de Ronaldo tivesse, de facto, provocado um cataclismo nas ações da Coca-Cola, a cotação de fecho do título nesse dia teria sido uma catástrofe com direito a arrancar cabelos, e não foi.

Pagamento de dividendos explica a coincidência

Ronaldo afastou de si o cálice de Coca-Cola na segunda-feira, dia 14 de junho, por volta das 14h45, hora de Lisboa. Ora, neste preciso dia, a cotação da Coca-Cola sofreu um ajuste técnico (todas as empresas passam pelo mesmo) referente ao pagamento do dividendo aos acionistas (remuneração acionista). Logo, parte da descida do valor das ações é explicada por este fator. A distribuição do dividendo leva a uma desvalorização teórica do título. Simplificando: é dinheiro que vai sair da empresa.

Na prática, trata-se da data a partir da qual as ações são transacionadas já sem concederem o direito relativo ao pagamento de dividendos. Por exemplo, para as empresas nacionais, para ter direito aos dividendos pagos pelas empresas cotadas em bolsa, o acionista necessita de comprar as ações, pelo menos, quatro dias úteis antes da data-valor (data efetiva) do pagamento de dividendos. Isto acontece porque, no terceiro dia útil antes da data-valor, as ações da empresa em causa iniciam o chamado período de cotação ex-dividendo. Nesse dia, o preço da ação cai, num valor aproximado ao do dividendo líquido, justamente porque quem adquire a ação a partir do dia ex-dividendo (ou seguintes) já não tem direito ao dividendo. Conclusão lógica: não faz sentido comprar em bolsa algo que depois não trará qualquer retorno. No caso das empresas internacionais, como a Coca-Cola, o número de dias entre a data do ex-dividendo e o pagamento de dividendos pode variar. O gigante americano só irá pagar dividendos a 1 de julho.

Portanto, comprar uma ação da Coca-Cola na sexta-feira anterior ao gesto rebelde de Ronaldo ou na segunda-feira do Coca-Cola gate são opções diferentes para o acionista: na sexta-feira, as transações tiveram direito ao dividendo e na segunda-feira não. A partir deste dia, as ações passaram a negociar sem direito à remuneração acionista: 0,42 dólares por ação. Daí a queda. 

Na sexta-feira, 11 de junho, as ações da gigante americana fecharam a valer 55,74 dólares. Preço que baixou na abertura de segunda-feira, 14 de junho, como consequência de as ações a partir daquele dia já não darem direito ao pagamento de dividendo. Na quarta-feira seguinte, a cotação fechou nos 54,67 dólares. Contas feitas, é uma queda acumulada de 1,07 dólares. Descontando o ajuste técnico do dividendo, a descida é ainda menor: 0,65 dólares por ação. 

Pura coincidência entre esta correção em baixa, de resto natural, e o desdém de Cristiano em relação à Coca-Cola? Sim.

Fim da história.

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