Notícias

Responsabilidade social: em busca dos direitos humanos

10 dezembro 2015

A geografia do trabalho forçado e mal pago dispersa-se por vários continentes. Nas nossas investigações, encontrámos muitos casos de desrespeito pelos direitos humanos em países asiáticos, africanos e sul-americanos. 

Roupa e calçado

A hora de assumir responsabilidades não pode ser adiada pelas marcas de sapatos. Em pleno séc. XXI, a dignidade humana é atingida na Índia e no Brasil. Erradicar o trabalho forçado nos locais de produção de gado e melhorar as condições de higiene e segurança nas empresas são pontos de honra. É, por isso, imperioso contrariar o completo alheamento das marcas face às más práticas do setor, em todas as fases de produção, desde a matéria-prima até ao produto final.

O estado brasileiro de Mato Grosso é o maior produtor de gado e aquele onde predomina o trabalho quase escravo. Em 2011 foram salvos 91 trabalhadores em situação próxima de escravidão. Os trabalhadores agrícolas estão isolados das cidades e vilas, de forma que não conseguem deslocar-se. A viver em condições deploráveis, contraem dívidas junto do responsável e as obrigações acumulam-se. É frequente sofrerem violência física e psicológica, ou mesmo tortura e morte. Poucas medidas de segurança são adotadas nos matadouros e os acidentes mortais de trabalho são frequentes. Condições de trabalho degradantes levam à morte e doença trabalhadores nas fábricas de curtumes por inalação de produtos altamente tóxicos usados nos tanques de lavagem. A exaustão física devido ao regime intensivo é responsável por acidentes, por vezes, fatais no acabamento do calçado nas fábricas.

Sapatos em pele: escravidão no Brasil

Sapatos em pele: os perigos na Índia

Nas fábricas de calças de ganga, em países como a China, Marrocos, Turquia e Paquistão, o excesso de calor com temperaturas elevadas e fraca ventilação levam ao desmaio dos trabalhadores, que chegam a trabalhar 13 dias seguidos sem folgas. As horas extras não são pagas e os trabalhadores não recebem recibos de salário.

Os países produtores de algodão (China, Estados Unidos, Índia, Paquistão e Usbequistão) contratam trabalho infantil e forçado nos campos de algodão sob condições desumanas no Usbequistão. Há uma forte exposição de trabalhadores aos pesticidas sem proteções adequadas.

As cadeias de vestuário começam a ter noção de que a responsabilidade social e ambiental deve ser alargada a toda a cadeia de produção. Mas persistem falhas graves: condições laborais dos jovens entre os 16 e 18 anos, saúde e segurança e abatimentos no ordenado face ao incumprimento de objetivos exigentes, que levam os operários a fazer horas extraordinárias. Ameaças verbais e representação sindical são outros pontos críticos nalgumas fábricas da China e Vietname. Maior transparência, salários mais elevados e liberdade de associação são essenciais.

O modelo de consumo baseado numa “moda rápida”, que muda com frequência ao longo da estação, tem inconvenientes do ponto de vista ético, pois favorece a exploração dos trabalhadores. O nosso estudo na China e no Bangladesh revelou que algumas cadeias de roupa mostram uma maior preocupação com estas questões. As marcas devem garantir que os seus fornecedores produzem os produtos respeitando os direitos humanos, os trabalhadores e o meio ambiente.

.