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Parar para pensar: um novo país está a nascer?

Com o digital, quase todos os setores de atividade conseguiram adaptar-se. No 7.º debate, especialistas discutiram as consequências sociais e económicas da pandemia ao nível nacional e internacional. Estaremos a caminhar para a desglobalização?

  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Filipa Nunes
14 julho 2020
  • Texto
  • Cécile Rodrigues e Filipa Nunes
Conferência Parar para pensar Novo País DECO PROTESTE

No penúltimo debate do ciclo de conferências “Parar para Pensar”, os convidados foram questionados sobre os efeitos da pandemia. Terá agudizado as desigualdades entre o interior e o litoral, mostrando um País que se desenvolve a várias velocidades? No plano internacional, com o fecho das fronteiras, com o travar da livre circulação das populações e com a procura crescente de produtos e serviços locais, será que estamos a assistir a um retrocesso da globalização? Será desejável que deste processo saia um país mudado, um novo país?

Todos os intervenientes saudaram a capacidade de resposta das empresas e dos serviços que, em muito pouco tempo, mostraram ser capazes de fazer face a uma nova realidade, adaptando-se, graças às novas tecnologias e à digitalização. Uma grande parte da população pôde continuar a trabalhar, com o teletrabalho, e muitos serviços puderam continuar a ser assegurados, nos mais variados domínios, com novas modalidades de interação, também elas fundamentalmente assentes no recurso à Internet e às tecnologias digitais. Os serviços públicos, eles próprios, adotaram muito rapidamente uma lógica mais digital. 

Investir mais no interior

As estratégias e os mecanismos desenvolvidos em resposta à pandemia, na saúde, educação e trabalho, mas não só, foram uma experiência positiva. Contudo, rapidamente nos apercebemos também de que ainda existem no país problemas, nomeadamente no que tem que ver com a cobertura de Internet, que dificultaram a implementação de algumas soluções de forma harmoniosa em todo o território. Recordemo-nos, por exemplo, de que o Governo teve de criar uma solução, a telescola, recorrendo a um canal de televisão público, precisamente porque nem todos os alunos dispunham de computador e de um acesso de qualidade à Internet.

“As crises expõem as maiores vulnerabilidades dos países mas trazem também ao de cima a sua capacidade de reorganização.  [...] Os tempos de exceção aceleraram muitas dinâmicas”, realçou Isabel Ferreira, Secretária de Estado da valorização do interior. Urge agora encontrar uma solução de equilíbrio, uma vez que o “país só será sustentável com um desenvolvimento harmonioso do todo”. 

Como referiu Jorge Coelho, Presidente do Conselho Estratégico Empresarial de Sintra, “Temos um país a várias velocidades. Foi preciso a covid para nos apercebermos da quantidade de zonas do país sem Internet. É preciso intervir rapidamente, com uma melhor gestão, que aposte na descentralização e na regionalização”, alerta. “Haverá portanto que consolidar o que já foi feito nalgumas regiões e ajudar as outras a desenvolverem-se. É uma questão de coesão territorial e social”, acrescenta. 

E, nesta matéria, as novas tecnologias e a digitalização podem ser um grande aliado. Quem queira viver no interior pode, hoje, fazê-lo mais facilmente, podendo continuar a trabalhar para uma empresa situada numa grande cidade, ou mesmo no estrangeiro. “No setor dos serviços não há necessidade de se estar fisicamente no local do trabalho”, diz-nos Pedro Mata, vice-presidente do Banco Credibom, para quem a nova realidade laboral e produtiva gerada pela pandemia veio para ficar, devendo ainda reforçar-se, permitindo, por exemplo, que todos os processos contratuais possam ser assinados digitalmente à distância.

Todos os intervenientes defendem que o desenvolvimento do interior passa por criar empregos atrativos. Segundo Isabel Ferreira, é preciso “criar ecossistemas inovadores”, com oportunidades de emprego, com carreiras profissionais e internacionais, e acesso aos serviços públicos essenciais, à saúde, à educação e à cultura. É necessário criar condições para que as empresas e os trabalhadores possam e queiram instalar-se no interior, com qualidade de vida. 

Essas condições passam, segundo os vários intervenientes no painel, pela criação de incentivos fiscais, pela simplificação de um conjunto de processos burocráticos, pela criação, de uma maneira geral, de um ambiente convidativo, com universidades e pólos empresariais e tecnológicos inovadores, como acontece já nalgumas regiões, mas também com escolas primárias e secundárias de qualidade. Muito foi já feito nessa matéria, reagiu a Secretária de Estado, e o Governo pretende continuar a trabalhar nesse sentido. 

Economia digital aproxima Portugal do resto do Mundo

Para Filipe Santos, reitor da Católica Lisbon School of Business and Economics, a digitalização é fundamental nesse sentido. Um país periférico como Portugal tem tudo a ganhar em investir numa economia mais digitalizada, para se afirmar no plano internacional. “Portugal é já hoje reconhecido com um dos melhores destinos turísticos no Mundo. Temos de o tornar agora mais atrativo para trabalhar e para viver.[...] É preciso atrair jovens qualificados, do País mas também estrangeiros, que fiquem com vontade de instalar cá as suas empresas”. 

Filipe Santos reforça que a digitalização anula a distância e aproxima-nos, portanto, do centro da Europa. É verdade que ao longo desta pandemia muitos países não tiveram alternativa senão buscar, sozinhos, soluções para os problemas com que se confrontavam, privilegiando tantas vezes os produtos e o comércio nacionais, consequência lógica do fecho das fronteiras. Várias empresas apostaram aliás nos produtos locais.

Felipe Ruiz, Administrador do LIDL, acrescenta que a cadeia de supermercados apostou na fruta, nos legumes e nos queijos locais e que não está presente apenas no litoral, mas em todo o território nacional, com 7000 colaboradores de norte a sul do País. Realçou que grande parte da produção nacional foi exportada, nomeadamente para a Alemanha. 

Globalização e solidariedade como resposta à pandemia

Assistimos há já algum tempo a um abrandamento do processo de globalização, surgindo um pouco por todo o lado projetos nacionalistas (EUA, China, alguns países do Leste da Europa). Por isso, e mais do que nunca, temos de reinvestir no processo de globalização e caberá à Europa e, enquanto seu Estado-Membro, a Portugal, promover uma verdadeira solidariedade global e um real desenvolvimento sustentável. 

A Europa deve, segundo Filipe Santos, desempenhar o papel de “reserva moral do Planeta”, tão importante numa altura em que o Mundo parece estar a dividir-se em dois blocos, conduzidos pelas atuais duas grandes potências Mundiais, os Estados Unidos e a China. 

Jorge Coelho realça a urgência de a Europa reagir e dar uma resposta à pandemia. Numa altura em que o País conta com mais de um milhão de pessoas em lay-off e com uma taxa de desemprego a aumentar, corremos o risco de uma grave crise social. A Europa deve promover a solidariedade global e o desenvolvimento sustentável. Tem, segundo Filipe Santos, capacidade para o fazer, mas muitos Estados-membros não têm mostrado essa vontade, colocando em risco o verdadeiro projeto europeu.

A Europa tem que se unir e mostrar a força da colaboração entre os seus Estados. Urge retomar o projeto de globalização. As guerras e as tensões geopolíticas que se observam atualmente no Mundo é o pior que pode acontecer para fazer face à atual crise sanitária, social e económica mundial. 

O debate, que aconteceu no dia 13 de julho, pode ser revisto na página do Expresso no Facebook.

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