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"A covid‑19 vai levar a uma alteração na estrutura da economia"

Como vão ser os próximos anos, depois do choque decorrente da pandemia, presos que estamos ainda a incertezas quanto ao seu fim? O economista Ricardo Reis, professor na London School of Economics, elabora cenários e aponta caminhos.

  • Texto
  • Deonilde Lourenço
29 outubro 2020
  • Texto
  • Deonilde Lourenço
Grande plano de Ricardo Reis, economista e professor da London School of Economics

4See/Luís Faustino

Há uma economia pré‑covid e uma economia pós‑covid?

Sim. Mas há duas perspetivas. Na primeira, temos uma economia em que a dívida é muito maior e alguns setores têm mais dificuldades. A estrutura é a mesma, mas estamos a retomá‑la, e a recuperação do choque demora alguns anos. Assim que o fardo aliviar, a economia será a mesma daqui a cinco ou dez anos. Será diferente no pós‑covid, mas só transitoriamente.

Na segunda perspetiva, a economia será permanentemente diferente. A covid‑19 levou a uma diferença no comportamento, na forma como nos relacionamos com a doença. Mesmo com uma vacina, a apetência para contactarmos outros seres humanos não será a mesma. O trabalho à distância vai ter um efeito permanente no mercado de trabalho. A covid vai ter efeitos permanentes? Vai. Mas vão persistir ou o mundo vai ser como era, daqui a três, quatro, cinco anos? Há muita incerteza. Estou mais convencido de que vai haver elementos do segundo cenário. Ou seja, mudanças na forma como consumimos e nos relacionamos com as pessoas, e que vão alterar a estrutura da economia.

O teletrabalho pode ser visto como positivo?

Com certeza, é uma mudança relativamente positiva. Agora, há soluços e, no curto prazo, há dificuldades em lidar com essa alteração. Vimos que, nos primeiros meses, as empresas acharam o teletrabalho maravilhoso. Perceberam que conseguiam acabar os projetos com as equipas em teletrabalho. Depois de um primeiro mês ou dois de ajustamento, tudo estava a correr às mil maravilhas. Para quê pagar uma renda no centro do Porto, quando podemos ter os trabalhadores em casa a fazer o mesmo? Os trabalhadores estão mais contentes, porque têm flexibilidade para cuidar das crianças.

Mas cada vez mais empresas dizem “bem, às tantas, não é bem assim”, porque entram novos membros e começam outros projetos que exigem criatividade. E aí, afinal, o teletrabalho não é tão produtivo, porque, na maior parte dos trabalhos qualificados, nos primeiros meses, um trabalhador que não conhece a cultura da empresa todos os dias pergunta vinte vezes ao colega do lado: “Como é que se faz isto ou aquilo?” É algo que em teletrabalho é muito difícil.

Como vê a eficácia das medidas económicas?

As primeiras medidas tomadas entre abril e maio, e, de certa forma, semelhantes às de outros países, são, no geral, ajuizadas e aconselhadas. Não tenho muitas críticas a apontar, embora reserve o direito de as fazer quando tivermos melhores dados. Tendo em conta a incerteza, o confinamento era importante. E torna‑se essencial o Estado apoiar financeiramente empresas e famílias, para evitar um colapso imediato. As moratórias do crédito, o regime de lay‑off, as medidas fiscais em termos de subsídios e o adiamento de pagamentos ao Estado durante uns meses fazem sentido.

A partir de junho, julho, agosto, temos falhas. Em termos de política económica, podia‑se ter gastado dinheiro na expansão da qualidade do serviço nos lares, de forma a impedir segundas vagas. Acho que houve falhas de curto prazo, e muito custosas. A longo prazo, surge o grande desafio que é, no processo de reabertura, e sabendo que o Estado vai ter de retirar apoios, porque não tem capacidade financeira para os manter durante muito tempo, permitir que a economia se ajuste a estas novas tendências assim que se perceber que há muitas pessoas com grande fadiga, e que nos próximos meses vão entrar em incumprimento. Aí, já sou um pouco mais crítico, porque não tenho visto o trabalho de fundo do Governo em estruturar esse programa de apoios.

Penso que seria melhor, considerando que houve tempo de preparação, começar a anunciar o que fazer durante os próximos seis meses, um ano, em vez de termos uma reação com uma segunda vaga, ou quando começarem as falências ou acabar o regime de lay‑off e outras medidas. Preocupa‑me não ter visto mais planeamento que permita às pessoas saber com o que lidar. O Governo poderia ter feito mais para reduzir essa incerteza. Tem havido sobretudo uma grande ênfase nos fundos europeus.

Os ganhos sanitários compensaram as perdas económicas das famílias e das empresas?

O confinamento, tendo em conta o que era a eclosão da pandemia, parece‑me que valeu a pena. Se, em termos das medidas dos meses de julho e agosto e das restrições que fizemos, poderiam ter sido mais ligeiras ou mais apertadas, parece‑me que mais apertadas não, mas talvez mais ligeiras. Acho que há uma discussão a ter. Olhando para o futuro, seria justificável fazer um novo confinamento? Em termos nacionais, pelo menos, parece‑me que não. O custo económico seria muito grande e sabemos hoje o que não sabíamos em abril. Que a mortalidade associada à doença não é muito alta nos mais novos, e fechar tudo, incluindo as escolas, parece‑me muito radical. Em termos de contágio, com medidas, como o uso escrupuloso das máscaras, o isolamento de determinadas regiões e populações, o melhor cuidado com as pessoas nos lares, com medidas mais inteligentes e com alvos mais restritos, em vez de um confinamento geral, podemos ter muito melhores resultados com menos custos económicos.

Setores‑chave, como o turismo, continuam com a atividade limitada. São precisos mais apoios sociais?

Não há muito espaço fiscal para dar muitos apoios. A ajuda que se dá a uns são impostos dos outros, existentes ou no futuro, e em relação ao futuro (ou seja, dívida), há um limite para a capacidade dos credores de nos emprestarem cada vez mais, tendo em conta o nível em que estamos. Sou a favor de mais apoios sociais? Em abstrato, sim. Mas, considerando que não podemos acudir a todos e que muita gente precisa de ajuda, tem de haver escolhas difíceis. O mais importante é pensar na filosofia dessa ajuda, e  separar entre pessoas em dificuldades – e para isso temos os subsídios de desemprego, os rendimentos sociais – e empresas. E aqui é que há, em termos de filosofia no sentido da política económica, essa diferença de proteger as pessoas do que são maus resultados, tendo em conta a solidariedade que temos, mas ao mesmo tempo não impedir o reajustamento que vai ser brutal, e tem de o ser, em que algumas empresas fecham e outras abrem.

Como analisa o Fundo Europeu de Recuperação, quanto ao montante atribuído e à utilidade?

É muito dinheiro [15,3 mil milhões]. Para um país muito endividado e com dificuldades em financiar‑se, como Portugal, é útil.  É positivo, mas depende da forma como o dinheiro é usado, e isso é que é o mais importante. No curto prazo, dá‑nos uma certa almofada financeira e afasta um pouco a possibilidade de uma crise de finanças públicas. Foi fundamental para manter a estabilidade na União Europeia. Acharia importante que tivesse havido um plano, para saber que instituições vão gerir o fundo, com que transparência, com que programa de incentivos, e depois deixar o mercado e as pessoas que apresentam os projetos direcionarem para onde vão os fundos.

Os bancos vão ter capacidade de lidar com o aumento do crédito em incumprimento, ou será necessária a ajuda do Estado?

É uma grande incógnita. Tendo em conta os rácios de capital e todas as mudanças na regulação, os bancos nos últimos meses resistiram de forma sólida a este choque. Um cenário relativamente otimista é, mesmo com o incumprimento de 10 ou 20%, os bancos resistirem sem ajudas do Estado. Se as consequências forem maiores, se a economia não recuperar nos próximos seis meses e os incumprimentos forem de 25 ou 30%, não há sistema que resista. Incluindo o dos bancos. Temos hoje melhores mecanismos para evitar o colapso do sistema financeiro, sem comprometer os cofres públicos como em 2010 ou em 2014. Temos outros mecanismos que permitem salvaguardar os depositantes.

A taxa de poupança dos portugueses é baixa. Como a podemos incentivar, uma vez que, na generalidade, o crédito é barato?

Nos últimos três ou quatro anos, a taxa de poupança até tem aumentado razoavelmente. Já foi mais baixa. Em relação ao futuro, primeiro, até que ponto o próprio sistema fiscal desencoraja a poupança e encoraja o consumo? Por exemplo, temos impostos que incidem muito sobre o rendimento e menos sobre o consumo. Até que ponto podemos mudar mais essa balança, para termos um sistema fiscal mais apoiado no IVA ou nos impostos sobre o consumo, e menos nos impostos do rendimento? Seria uma forma de estimular a poupança. Mas, em segundo lugar, tão ou mais importante é o facto de a economia portuguesa ser mais dinâmica, com mais projetos e empresas que conseguem crescer sem se depararem com barreiras do Estado. Ou seja, a falta de poupança, em parte, deve‑se também ao facto de haver poucos projetos produtivos em Portugal. O que queremos é que as pessoas poupem na criação de capital fixo, de investimentos, no estímulo à produtividade e na criação de empresas mais dinâmicas.

Não há margem orçamental para reduzir a tributação sobre os rendimentos financeiros. Pode ser a solução no pós‑crise?

Sim. É preciso ver até que ponto podemos estimular a poupança através da política fiscal. A discussão em Portugal tem sido um pouco inquinada, por ser sempre sobre como é que o Estado consegue arrecadar mais dinheiro, porque não o tem e está prestes a falir. Não é forma de gerir a política fiscal. Nunca é tempo de cortar um imposto, porque o que é preciso é aumentar os impostos possíveis, para pagar o crescimento galopante da despesa pública e a dívida pública do passado. Está na altura de começar a ter uma política fiscal cujo objetivo é também promover mais eficiência, competitividade e produtividade.

A redução acentuada do consumo privado vai continuar?

Não necessariamente. Depende muito da segunda vaga e da incerteza dos próximos meses e do reajuste que vai acontecer em 2021, entre setores da economia. Não era chocante se o consumo privado aumentasse no próximo ano, mesmo com alguma recessão. Mas o mais provável, sendo uma recessão, é que o consumo privado seja mais baixo no próximo ano do que foi este ano.

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