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“Papel reciclado, ou misto, proveniente de empresas certificadas, deve ser a escolha”

01 março 2013 Arquivado

01 março 2013 Arquivado

Especialista defende a compra de papel de origem sustentável e produzido por empresas certificadas, bem como a utilização de papel reciclado. Conheça o processo da reciclagem no nosso vídeo.

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O consumidor deve preocupar-se em obter papel reciclado em produtos que descarta rapidamente, como papel de higiene. No nosso vídeo, acompanhe as várias fases de reciclagem do papel até dar corpo a novos produtos, nas prateleiras dos supermercados.

Uma escolha ecológica do papel privilegia a origem das fibras. No nosso estudo a papel de origem sustentável, refletimos sobre esta questão. Recolhemos também a opinião de Maria Rosa Paiva, docente na Universidade Nova de Lisboa, em entrevista.

Que conselho dá a um consumidor que procure um papel sustentável, quanto ao tipo de fibra?
Sempre que possível, deve utilizar papel reciclado, ou misto, dependendo da finalidade. No entanto, é indispensável ter atenção à origem do papel, que deve provir de empresas certificadas. Infelizmente, chegam aos mercados europeus produtos originários de partes do mundo onde a produção de papel reciclado não só não respeita normas ambientais, como pode até colocar em perigo a saúde dos utentes.

O que pensa da afirmação: “Quando as pessoas utilizam papel, os produtores têm que utilizar mais árvores. Se queremos mais florestas produtivas, então teremos que utilizar mais papel”?
No contexto da economia global em que nos situamos, a frase aparenta não ter sentido. A área de plantações destinadas à produção de celulose não é seguramente calculada em função das necessidades dos habitantes de Portugal, uma vez que as exportações constituem um dos principais objetivos das empresas e uma fonte de riqueza para o país.
O papel deve ser utilizado com bom senso, ou seja, sem desperdícios desnecessários, nem restrições excessivas ao seu uso, o que poderia vir a afetar até aspetos culturais da sociedade. Seria um retrocesso da civilização reduzir drasticamente, por exemplo, a impressão de livros ou de obras artísticas, com a “justificação” de que estas se encontram digitalizadas. Quando visitamos um país emergente onde o papel constitui um bem raro, damo-nos então conta da sua importância.

Tendo em conta as características climáticas e do solo do nosso país, qual a espécie mais indicada para aliar o rápido crescimento e sustentabilidade ambiental?
Com a modesta extensão de 561 por 218 quilómetros, Portugal possui uma diversidade climática, geológica, ecológica e paisagística fora do comum, pelo que não é possível fazer generalizações. Como exemplo, os ecossistemas do Minho recebem até 2800 mm de pluviosidade anual, enquanto os do Baixo Alentejo menos de 400 mm por ano.
Ainda assim, pode assinalar-se o pinheiro bravo, Pinus pinaster, como espécie nativa de crescimento rápido, que se encontra no litoral oeste perfeitamente adaptada. Prova-o a exploração ininterrupta e sustentável do pinhal instalado na Mata Nacional de Leiria há 800 anos. No entanto, as características desta espécie não permitem a sua utilização em substituição do eucalipto, para produção de pasta.

Pensa que a Certificação Florestal (Sistemas FSC e PEFC) e as suas plantações têm um papel fundamental para o crescimento da área florestal nacional?
A fileira florestal constitui um pilar da economia de Portugal, correspondendo o valor das exportações de pasta, papel e cartão a 50,2 % das exportações florestais e a 4,7 % das exportações nacionais. A certificação é um requisito indispensável para todos os produtores florestais, devido às componentes ambiental e social, mas também a aspetos económicos, uma vez que promove a competitividade ao nível dos mercados globais.

A área total florestada ocupa 3,46 milhões de hectares, correspondendo a 38,8 % do território continental. Numa década, expandiu-se cerca de 3 por cento. Apenas cerca de um décimo desta área se encontra certificada.

Até que ponto a expansão florestal poderá ter limitado as espécies autóctones e os ecossistemas?
Em décadas anteriores, cometeram-se atentados ecológicos gravosos, tais como a eliminação de grandes extensões de montado e substituição por plantações de eucaliptos, como o triste caso da Serra d´Ossa, ou, em menor escala, por pinheiros. Porém, a instalação de plantações florestais encontra-se regulamentada, o que, em conjunto com uma progressão da consciencialização coletiva e com o trabalho desenvolvido pelas organizações de defesa do ambiente, tem contribuído para minorar este tipo de situações.

É muito preocupante o facto de a ex-Autoridade Florestal Nacional ter elaborado uma proposta que pretende alterar a legislação sobre arborização e rearborização, liberalizando a instalação de monoculturas, sem controlo. A aprovação dessa proposta representaria um enorme retrocesso para o país.

A instalação de plantações monoculturais pode resultar numa redução da biodiversidade ou num declínio dos serviços prestados pelos ecossistemas. Porém, o conjunto das áreas florestadas contribui, em paralelo, para uma redução líquida anual das emissões de Portugal de 2,4 megatoneladas de CO₂, correspondendo a um quarto das emissões totais do país. Nesta conjuntura, é muito importante aplicar aos povoamentos técnicas de gestão que fomentem a sustentabilidade, nomeadamente não encurtando os tempos de rotação das culturas, o que até certo ponto, contribui para mitigar os impactes ecológicos.

Em que medida as plantações florestais, geridas de forma sustentável, podem ter um papel determinante a prevenir incêndios florestais?
As principais preocupações relativas a potenciais impactes causados pelas monoculturas florestais centram-se na gestão da água do ecossistema, que pode ser afetada devido ao consumo excessivo das árvores, na erosão do solo e na conservação da biodiversidade, entre outros aspetos. No entanto, parte destas consequências nocivas podem ser minoradas através de técnicas corretas de mobilização do solo e de plantação, adubação, controlo de pragas e doenças, tempo de rotação da cultura e planos de colheita.

Quanto ao perigo que a biomassa florestal representa como matéria inflamável, convém recordar alguns factos. Embora nas últimas três décadas a implementação de medidas de prevenção contra incêndios florestais tenha sido intensificada, a extensão da área total ardida em Portugal aumentou, entre 1980 e 2010, mais de 40% por década. Na década de 2000 foram destruídos pelo fogo, em média, 125 mil hectares por ano. Tal aparente contrassenso poderá explicar-se com base na já demonstrada origem criminosa da maioria dos fogos florestais. Nesta conjuntura, quaisquer medidas de gestão florestal trarão uma contribuição modesta para a prevenção. Sendo o cerne do problema de cariz social, urge investir na sua resolução, implementando planos de ação dirigidos à verdadeira causa da catástrofe, mais do que aos sintomas da mesma.
A maioria das espécies de folhosas (por exemplo, carvalhos, castanheiros e sobreiros) apresenta menor combustibilidade do que os matos, resinosas e eucaliptos, sendo semelhante a suscetibilidade ao fogo destes três últimos tipos de vegetação.

Até que ponto as plantações de eucalipto, tão defendidas e utilizadas pela indústria papeleira, podem ter efeitos nefastos nos ecossistemas e são aconselhadas?
A cultura de eucalipto enquadra-se nalgumas regiões do país, onde constitui uma fonte de riqueza, enquanto noutras se torna nocivo para o meio e não deveria ser tolerada. Este princípio é universal, aplicando-se a todo o tipo de culturas.
Quanto às alterações causadas ao solo pelas plantações de eucaliptos, os poucos trabalhos publicados são inconclusivos. Regista-se geralmente uma diminuição da biodiversidade da fauna do solo. Os resultados dependem do enquadramento ecológico da plantação, sendo esta alteração tanto mais notória quanto mais seca for a região. No entanto, os micro-organismos e invertebrados do solo voltam a alterar-se poucos anos após a mudança da cultura. Não existem dados científicos que permitam estabelecer um período máximo de utilização do solo para cultura de eucaliptos.