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Combater o plástico descartável

Protótipos de bioplásticos

E se, para atacarmos o problema do excesso de plástico no ambiente, pudéssemos, simplesmente, sem problemas de consciência, deitá-lo fora depois de o usar? Não estamos a sugerir um regresso aos produtos de uso único a irem parar implacavelmente ao lixo, entrando no ambiente sem prazo de desaparecimento. Falamos de bioplástico, ou seja, como aponta o nome, um plástico preparado para ser consumido pela natureza sem a atropelar, biodegradável e compostável.

 A ideia, na verdade, já esteve mais distante. Por isso, aderimos ao projeto europeu Circ-Pack, para avaliar não só o comportamento dos consumidores perante as inúmeras embalagens de plástico que existem no mercado, como para perceber qual a recetividade a este novo tipo de plástico.

Nesta fase do projeto, foram apresentados sete protótipos de embalagens feitas de plástico desta natureza a grupos de consumidores portugueses, belgas, croatas, espanhóis, italianos e turcos. Ou seja, oriundos dos países que participaram no inquérito realizado no ano passado, sobre as suas expectativas em relação a esta solução.

Os protótipos usados:

  • tabuleiro para acondicionamento de alimentos;
  • frasco de champô;
  • sacos (um modelo pequeno para colocar frutas e legumes, normalmente de uso único, e outro maior, para transporte das compras, que pode ser reutilizado);
  • embalagem de pensos higiénicos;
  • caixa de detergente para a roupa;
  • cápsulas de café biodegradáveis.

Os participantes foram confrontados com os protótipos das embalagens feitas de bioplástico, e com as suas homólogas em plástico tradicional,  numa “prova cega”. A análise de cada par foi acompanhada de um questionário, para avaliar estes produtos com base em aspeto visual, resistência, utilização fácil e confortável, e facilidade em ser espalmado antes de ser deitado fora.

Consumidores avaliam bioplástico

A versão de bioplástico do tabuleiro para alimentos foi mais bem avaliada em termos da facilidade de compressão para ocupar menos espaço no lixo. Mas o seu homólogo, em plástico tradicional PET, levou a melhor na resistência e no aspeto, podendo – e devendo – ser colocado no ecoponto amarelo para ser reciclado.

No “campeonato” das cápsulas de café, as duas versões, de bioplástico e plástico tradicional, empataram no que diz respeito a manuseamento, facilidade de uso e mesmo resistência. Atualmente, são raras as iniciativas de recolha seletiva de cápsulas de plástico usadas, e a maior parte vai parar ao lixo indiferenciado.

E o tão familiar frasco de champô? O aspeto visual divide quase a meio a opinião dos voluntários: uns preferiram o bioplástico, outros o plástico tradicional, em PET. Já a resistência do frasco pendeu claramente para o segundo e, naturalmente, a facilidade em comprimir quando vazio foi mais favorável ao primeiro.

Outro empate deu-se na avaliação da embalagem do detergente em pó. Os participantes não notaram diferença entre as duas versões.

Mas o que vêm a ser os bioplásticos e o que os torna, em princípio, biodegradáveis? Por definição, são feitos de materiais de origem biológica. E, dependendo da forma como são transformados, podem ou não ser biodegradáveis. Se o forem, decompõem-se em vários elementos sob a ação de organismos vivos, depois de serem deitados fora. Porém, as coisas não são assim tão simples: há níveis diferentes de decomposição consoante o tipo de material.

O tema é tão complexo quanto as múltiplas formas de plástico que existem. Basta saber que, além de vários níveis de biodegradação, há polímeros (estruturas microscópicas que formam os plásticos) que exigem condições muito específicas para se degradarem corretamente e poderem ser usados na produção de composto, um fertilizante orgânico de origem natural. Confuso? Talvez. Alguns plásticos só se degradam a uma temperatura de 55ºC, difícil de alcançar fora do laboratório. Daí que ainda seja complicado dar uma definição cabal do que é biodegradável ou compostável, ou seja, matéria orgânica capaz de ser utilizada para outros fins.

Compostagem à vista

Temos um problema: parte dos despojos do plástico que depositamos nos contentores amarelos para reciclar poderá ter de voltar ao contentor do lixo, por ser biodegradável. As embalagens, os sacos ou as caixas em bioplástico poderão, desta forma, ter outro fim, como serem utilizados, com outros resíduos orgânicos (restos de frutas ou alimentos, por exemplo), para fertilizantes e adubos agrícolas.

Faltam pontos de recolha seletiva de resíduos orgânicos (próprios para a compostagem) em quase todo o País, e é preciso despertar as autarquias para o problema. Até porque temos metas europeias a cumprir, não só de reciclagem, mas também no aproveitamento de biorresíduos, para os quais olhamos ainda como lixo indiferenciado.

Em 2017 (dados da Agência Portuguesa do Ambiente), foram recolhidas de forma diferenciada perto de 81 mil toneladas de biorresíduos, o que corresponde a mais ou menos 8 kg diários por pessoa. Parece muito? Para se ter uma ideia, essa quantidade corresponde a 5% do potencial existente. No mesmo ano, a deposição de resíduos urbanos biodegradáveis em aterro foi de 43%, o que representa um aumento de 2% em relação aos valores de 2016. Isto contraria claramente os nossos objetivos no que diz respeito ao desvio de orgânicos dos aterros.  

O tempo para cumprir as metas já não é muito: até 31 de dezembro de 2023, o nosso país, bem como os restantes Estados-membros da União Europeia, terá de garantir que os biorresíduos são separados e reciclados na origem ou, em alternativa, recolhidos seletivamente e não misturados com outros tipos de resíduos. Até lá, temos de desenvolver pontos de recolha e torná-los viáveis.