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Posso confiar no contador inteligente?

ERSE: leituras estimadas acabam

O que é um contador inteligente (smart meter) e qual a relação com as redes inteligentes?

Chama-se inteligente ao contador de eletricidade, porque, além de medir, regista várias grandezas elétricas (como o consumo em intervalos de 15 minutos e a potência usada) e comunica, à distância, com os sistemas do distribuidor. Esta ação permite enviar leituras sem a presença do distribuidor ou do consumidor na instalação, bem como realizar outras operações, como a alteração da potência contratada ou a ativação e desativação do serviço.

Já as redes inteligentes são um conceito mais amplo. Englobam a gestão da rede elétrica com base na informação disponível nos vários contadores inteligentes, bem como na infraestrutura de comunicação dispersa pela rede. As redes inteligentes conseguem acomodar o crescimento das novas formas de produzir e de consumir energia, como a energia solar e os veículos elétricos, e aproveitam melhor a infraestrutura existente, minimizando os investimentos.

contadores inteligentes

Cristina Portugal é Presidente do conselho de administração da ERSE. 

Que benefícios pode trazer para o consumidor e para o sistema?

Logo que estejam reunidas todas as condições para a rede funcionar, ligada à infraestrutura de comunicação e aos sistemas informáticos dos distribuidores, a primeira das vantagens será a eliminação das estimativas. Este continua a ser um dos temas mais reclamados pelos consumidores. As faturas passarão a refletir o consumo real. Será ainda possível alterar a potência contratada ou o ciclo de contagem, à distância.

Globalmente, todo o sistema elétrico pode ser mais bem utilizado. Basta otimizar os investimentos necessários nos pontos efetivamente críticos e identificados a partir da informação disponível sobre a utilização da rede em cada momento.

Estes contadores poderão trazer maior qualidade de serviço?
Esse será outro benefício para os consumidores. A qualidade do serviço comercial, por exemplo, mede-se pela eliminação das estimativas nas faturas ou da presença do consumidor em operações como a alteração da potência contratada ou a ativação do fornecimento, num novo contrato. Mas também na qualidade técnica do serviço é de esperar uma maior capacidade em antecipar e verificar problemas na rede, evitando ou melhorando os tempos de reposição do serviço, em caso de interrupção.
Podem ser esperadas inovações tarifárias?
As tarifas têm vindo a evoluir, para dar mais opções de escolha aos consumidores, e vão ao encontro das funcionalidades que estes contadores apresentam, para maximizar a sua utilidade. As possibilidades de opção são quase ilimitadas — como tarifas horárias variáveis em cada hora —, dando aos consumidores um maior leque de opções para gerirem o consumo e a fatura de eletricidade. A ERSE não deixará, contudo, de acautelar sempre os consumidores mais vulneráveis, seja por razões económicas, seja por outras, que continuarão a ter opções ajustadas e tradicionais aos seus perfis de consumo.
O que motivou a substituição dos contadores que está a decorrer?

A implementação de redes inteligentes está consolidada em vários países da Europa e a evolução tecnológica tem reduzido bastante o preço dos contadores inteligentes. Em Portugal, o distribuidor já tem vindo a substituir os equipamentos que estão em fim de vida útil por esta tecnologia. Mas ainda é uma realidade minoritária no País.

A ERSE lançou, no início deste ano, uma consulta pública sobre uma proposta de regulamento, para definir e uniformizar os serviços prestados pelas redes inteligentes. Esta consulta foi muito participada (incluindo pela DECO) e bem recebida. Para a ERSE, é crucial que o consumidor de eletricidade beneficie da nova tecnologia, veja eliminados alguns focos de conflito e sejam abertas novas possibilidades que vão ao encontro das suas necessidades.

Quem suporta os custos da operação de substituição de contadores?
O distribuidor. Contudo, a proposta colocada em consulta pública prevê o pagamento de um incentivo. Este não está ligado à substituição dos contadores, mas depende da efetiva prestação de um conjunto de serviços avançados, definidos pelo regulador, que se traduzam numa melhoria do serviço prestado.
Os consumidores podem recusar a instalação do contador inteligente?

O contador não pertence ao consumidor, mas sim ao distribuidor, que é responsável por instalar, operar, manter e substituir. Como tal, os consumidores não podem recusar a substituição do contador, mas o distribuidor tem a obrigação de informar e esclarecer quanto à utilização do novo aparelho e dos novos serviços das redes inteligentes.

Na regulamentação proposta pela ERSE sobre redes inteligentes, foi dada uma especial atenção à proteção dos dados pessoais dos consumidores e ao acesso aos consumos detalhados, seja pelo próprio seja por terceiros com o seu consentimento.

Como está a decorrer a substituição dos contadores?
Em Portugal Continental, cinco dos 11 operadores de rede já substituíram ou começaram a substituir mais de 2 milhões de contadores de um total de mais de 6 milhões de clientes. Os novos contadores ainda só parcialmente estão integrados em redes inteligentes. Nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, estão em curso projetos-piloto de redes inteligentes.
Como se está a processar a substituição dos contadores inteligentes nos restantes países europeus?

Vários países europeus adotaram os contadores inteligentes em pleno. O primeiro foi a Itália. Em Espanha, a substituição está praticamente terminada. Há também países que já decidiram a substituição geral dos contadores, e estão a implementar esses planos, bem como outros que ainda não tomaram a decisão.

Mas a substituição generalizada dos contadores tradicionais pelos inteligentes é uma opção política e que, portanto, não cabe ao regulador.

Como e por quem vão ser geridos os dados relativos ao perfil de consumo dos cidadãos?
O distribuidor é o responsável pela leitura dos contadores e pela gestão dos dados de consumo. Os cidadãos terão acesso direto a esses dados, em formato eletrónico. O acesso aos consumos detalhados pelo comercializador ou outras entidades (para que o comercializador preste serviços de análise de consumos ou aconselhamento específico, por exemplo) só se fará com o consentimento do cliente.
Os consumidores vulneráveis continuam salvaguardados?
As redes inteligentes não terão qualquer impacto negativo sobre os direitos dos consumidores. Pelo contrário: melhoram o serviço prestado, fazendo uso da evolução tecnológica.
Da vossa experiência no processo de transição, têm conselhos que gostassem de partilhar?

Em Portugal, a experiência prática na oferta de serviços inovadores das redes inteligentes ainda é escassa. Como tal, é aconselhável avançar gradualmente, para que haja equilíbrio entre a inovação e os custos, designadamente no desenvolvimento dos sistemas dos distribuidores e dos comercializadores.

Será necessária alguma paciência por parte dos consumidores face à disponibilização de novos serviços. Na verdade, as redes inteligentes serão implementadas progressivamente e não chegarão a todos os clientes de imediato. Como tal, cabe aos agentes do setor elaborar e propor ofertas com base na informação disponibilizada pelos contadores, mas que os consumidores achem interessantes por lhes trazerem benefícios.

A ERSE supervisiona de forma continuada o mercado e as ofertas, atuando sempre que os interesses dos portugueses sejam postos em causa. Por outro lado, procurará reforçar o seu papel na divulgação de informação em matéria de energia, contribuindo para um consumidor cada vez mais esclarecido.