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Guerra na Ucrânia: qual o impacto na energia?

A guerra está a provocar incerteza e volatilidade nos mercados mundiais, com consequências nos preços do gás natural, da eletricidade e dos combustíveis. O abastecimento de produtos energéticos não está em causa, mas há medidas a tomar para salvaguardar as necessidades dos consumidores e a acessibilidade económica a serviços públicos essenciais. Respondemos às principais dúvidas.

04 março 2022
impacto da guerra nos preços da energia

iStock

A entrada das forças militares da Rússia na Ucrânia terá um impacto social devastador que, para já, ainda é difícil de quantificar apesar dos milhares de refugiados que já atravessaram as fronteiras do país em busca de segurança e estabilidade. Na economia, contudo, já é possível observar alguns dos efeitos do conflito.

A invasão da Ucrânia deu origem a diversas sanções económicas por parte da União Europeia (UE) à Rússia nos últimos dias, tais como a proibição de importação de determinadas mercadorias provenientes da Rússia, a proibição da realização de transações com o Banco Central da Rússia ou a proibição de sobrevoo do espaço aéreo da UE por transportadoras aéreas russas. Estas medidas estão a ter impacto em todo o mundo, nomeadamente com consequências económicas como a subida dos preços de alguns bens.

Os preços da energia vão subir?

Nas semanas anteriores à invasão da Ucrânia pela Rússia, os mercados energéticos já antecipavam a tensão que se vivia. Com o espoletar da guerra, estes reagiram em alta, o que se fez sentir nos bolsos dos consumidores de imediato nos combustíveis líquidos (gasolina e gasóleo), com um aumento, e também nos preços do gás natural nos mercados grossistas, que chegará aos consumidores muito em breve e que, por sua vez, afetará os preços da eletricidade. Estes efeitos não deverão cessar a curto prazo.

Neste momento, há dois grandes fatores a contribuírem para o aumento dos preços. Por um lado, a volatilidade dos mercados, que antecipam sempre más notícias, "sobrerreagindo", e que podem levar a uma enorme inconstância nos preços enquanto a guerra durar. Por outro lado, a incerteza no abastecimento, relacionada com o receio de que a Rússia possa vir a cortar o abastecimento de produtos energéticos à UE, deixando o território sem uma alternativa imediata ao gás natural e ao petróleo que vêm da Rússia.

Se a guerra terminar, ou se existir um cessar-fogo, os preços da energia voltam a descer?

Antes da guerra na Ucrânia, já se sentia alguma instabilidade nos mercados financeiros. Os preços do gás natural e do petróleo, em particular, também já estavam em rota ascendente há algum tempo. O mundo estava ainda a recuperar dos efeitos da pandemia de covid-19 e já havia um défice de oferta e preços altos. Por isso, se o conflito terminar hoje, o risco não acaba de imediato e a volatilidade deverá estender-se durante um período médio ou longo. Assim, o expectável é que os preços se mantenham elevados, até que os circuitos económicos destas matérias-primas estabilizem e a incerteza diminua, afetando os preços do gás natural, dos combustíveis e da eletricidade.

O abastecimento de produtos energéticos está em causa?

Não. O País tem reservas estratégicas de combustíveis (líquidos, gás engarrafado e gás natural) para cerca de 90 dias. Essas reservas só deixarão de existir ou serão reduzidas se houver um corte global no abastecimento, e isso não aconteceu nem se prevê. Portugal não tem uma dependência significativa em matéria energética em relação à Rússia, pelo que esta questão não se coloca no atual panorama. Ainda assim, são de evitar os comportamentos que possam exercer pressão sobre algo que está acautelado pelo Estado, nomeadamente açambarcamentos de gás ou combustíveis.

O que pode fazer o Governo para mitigar os aumentos nos preços da energia e dos combustíveis?

Sem intervenção governamental, dificilmente os consumidores conseguirão escapar ao reflexo que a subida de preços a nível internacional terá nos seus bolsos. Algumas medidas possíveis já foram tomadas pelo Governo, até antes da eclosão desta guerra, mas podem ser reforçadas e ampliadas. Se os preços de facto continuarem a subir, também haverá mais receitas fiscais.

Defendemos que, no curto prazo, o Governo deverá fazer algumas alterações a nível da fiscalidade – nomeadamente no IVA, com a aplicação da taxa reduzida para os serviços públicos essenciais energéticos, assim como no ISP, desagravando a fatura dos combustíveis –, mas também apostar em apoios diretos que permitam mitigar os efeitos da guerra nos preços sem reduzir a receita fiscal, num momento em que o País vive com um Orçamento em duodécimos e com um cenário macroeconómico completamente distinto do existente aquando da sua aprovação. Se os preços, de facto, continuarem a subir, como se prevê, também haverá mais receitas, sobretudo porque este tipo de produtos tem uma procura relativamente inflexível. O Executivo poderá, desta forma, absorver algum do impacto do aumento dos preços. Mas, perante o atual cenário, não é expectável que consiga eliminar totalmente esta pressão.

O que podem fazer os consumidores?

Do lado dos consumidores, também há pequenas medidas e alterações de comportamento que podem ajudar a diminuir o impacto deste conflito na fatura energética: poupar, investir e planear.

Poupar

Adotar algumas medidas de poupança é a forma mais imediata de reduzir a fatura da eletricidade ou do gás. Desligar as luzes quando saímos de uma divisão, evitar abrir muitas vezes o frigorífico, regular o esquentador para uma temperatura mais baixa ou desligar o fogão antes de o cozinhado estar pronto, aproveitando o calor residual, são apenas alguns exemplos.

Investir

Os consumidores que tenham essa possibilidade devem investir em aparelhos mais eficientes e com menor consumo. Retirar parte dos consumos da rede elétrica e de gás, seja através de soluções de autoconsumo, como os painéis fotovoltaicos, ou sistemas solares térmicos, é uma boa aposta. Considerar a aquisição de bombas de calor para aquecimento de água, muito mais eficientes e sustentáveis do que esquentadores ou termoacumuladores, é outra opção. Pondere também a possibilidade de realizar obras para melhoria da eficiência energética em casa. O Fundo Ambiental tem a decorrer alguns programas que permitem reforçar os índices de eficiência energética na casa dos consumidores.

Planear

Os preços dos combustíveis convidam a uma utilização mais ponderada dos automóveis. Para minimizar o consumo do carro, e o seu consequente impacto ambiental, adote uma condução mais tranquila, evite os congestionamentos, opte por soluções como o car sharing, aproveitando as deslocações de amigos ou familiares, ou utilize os transportes públicos.

Transição energética deverá acelerar

Uma consequência desta guerra que facilmente se antevê é um desenvolvimento mais acelerado de alternativas energéticas baseadas em energias renováveis. Os atuais preços das energias fósseis, como o petróleo ou o gás natural, deverão continuar a aumentar, o que pode ser um incentivo ao desenvolvimento de novas soluções e o mote para acelerar ou desbloquear algumas que já se encontravam previstas no plano europeu de descarbonização.

Importa referir que os choques petrolíferos levam, quase sempre, a investimentos em alternativas porque se torna mais viável investir em investigação e desenvolvimento do que pagar os preços dos combustíveis fósseis. O conflito entre a Ucrânia e a Rússia poderá, assim, ser um acelerador para a transição energética.

Além disso, podemos antever também algumas alterações geopolíticas. A União Europeia poderá despertar agora para a necessidade de diminuir a sua dependência energética face a países terceiros que, de um momento para o outro, podem usar este argumento como “arma”. Desta forma, o porto de Sines, em Portugal, poderá, por exemplo, tornar-se na porta de entrada de gás natural para toda a Europa. O sempre adiado mercado europeu de energia, com interligações efetivas, pode ter aqui o incentivo que faltava para se desenvolver em pleno.

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