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“É possível viver com muito menos stresse”

Muitas pessoas viram os problemas de sono e ansiedade agravados durante a pandemia. Teresa Paiva fala da importância de adotar comportamentos positivos para lidar com a incerteza. E deixa um alerta: os níveis de violência não estão a baixar.

  • Texto
  • Sónia Graça e Nuno César
18 março 2021
  • Texto
  • Sónia Graça e Nuno César
Teresa Paiva, neurologista e investigadora

4See/Raquel Wise

O sono, a pandemia e os portugueses. Teresa Paiva, neurologista e investigadora, não tem dúvidas: a qualidade do sono piorou e algumas doenças agravaram-se de forma significativa durante a pandemia. A neurologista, que faz do sono um superpoder, revela pistas para enfrentar este período adverso. Estudar e aprender, fazer jogos e divertir-se com os filhos, pôr em prática capacidades artísticas, literárias ou manuais são atitudes altamente recomendadas. Pode ler a entrevista completa na edição de abril da PROTESTE que chega ao correio dos nossos subscritores a 26 de março.

Teresa Paiva pratica e ensina medicina do sono há quase quatro décadas. Em 1983, fundou o Centro de Electroencefalografia e Neurofisiologia Clínica, unidade multidisciplinar que presta cuidados a pessoas com distúrbios do sono. Foi responsável pelo primeiro mestrado em sono, no mundo.

A pandemia tirou-lhe o sono?

Sempre tive um problema, que é ficar acordada até tarde… tenho de ter cuidado. Na pandemia, isso aconteceu transitoriamente, mas já corrigi. De resto, o sono é o meu superpoder: quando estou cansada, durmo; quando preciso de pensar, durmo. Penso melhor e de forma mais criativa depois de ter dormido, quer seja de noite, quer seja após microssestas, as chamadas power naps.

Faz teleconsultas, desde março do ano passado. Como tem sido?

Gosto, mas é preciso paciência, porque algumas pessoas querem fazer a consulta sem [usar a] câmara. Outras vezes, já aconteceu estarem a conduzir, o que não permito… Mas, no geral, não afetou a intimidade. Consigo manter conversas muito intimistas.

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“Temos de estar preparados para o que der e vier, adotando atitudes positivas em todas as fases.”

Técnicas e conselhos para dormir melhor

Coordenou um inquérito sobre o impacto da covid-19 durante a primeira vaga. Quais foram as conclusões?

O estudo avaliou o sono das pessoas nessa fase, mas também as atitudes positivas e negativas, os comportamentos positivos e negativos, a saúde e o agravamento ou a melhoria da saúde. Considerámos cerca de cinco mil respostas. E, de facto, metade das pessoas pioraram, o que é um problema grave, e a outra metade melhorou ou ficou igual. O que isto nos ensina é que devemos aprender estratégias para melhorar, porque é possível não piorar e inclusive melhorar.

Que tipo de estratégias?

Quem tem comportamentos positivos, como encontrar hobbies, fazer coisas minimamente divertidas, manter a interação com familiares e amigos, praticar atividade física, alimentar-se corretamente, não ver televisão em demasia nem estar demasiado tempo nas redes sociais ou ao telemóvel, evitar dependências de álcool, tabaco ou jogos… tudo isto é altamente positivo e facilita uma boa adaptação à pandemia. E nós provámo-lo estatisticamente. Quem tem atitudes negativas, como passar a vida a queixar-se, a dormir para não pensar no assunto, a ver televisão ou nas redes sociais, a jogar ou colado ao telemóvel, sofre consequências muito mais negativas.

Estabeleceu-se uma relação clara entre covid-19 e insónia?

Sim. Em média, as pessoas começaram a dormir pior e menos horas. Mas outras dormem melhor. Cerca de 55% dormem pior e cerca de 45% dormem igual ou melhor. E entre os que têm insónia, uns pioraram e outros melhoraram. Aconteceu o mesmo noutras doenças, como a fadiga e a ansiedade. Há sempre esta dualidade. Um dos artigos que estamos a preparar chama-se precisamente “Who gets better, who gets worse?” (Quem melhora e quem piora?). Este estudo é muito rico e permite correlacionar o estado de saúde e os comportamentos, porque os comportamentos podem melhorar ou agravar a saúde. O que são comportamentos de risco? Fumar, consumir drogas, comer demasiado, sedentarismo, etc. O que são comportamentos benéficos? Alimentar-se de acordo com as regras, não fumar, não ingerir bebidas alcoólicas — ou fazê-lo moderadamente —, não estar muito tempo na internet nem nas redes sociais…

O que estudaram na saúde?

Todas as doenças foram questionadas. E apenas 29% das pessoas que responderam dizem ser saudáveis. É quase assustador, porque as restantes admitem ter um problema qualquer. Um número significativo diz ter mais de quatro doenças. Portanto, a população portuguesa não é exatamente saudável. Neste estudo, ficou muito patente o excesso de obesidade e de pré-obesidade, uma taxa muito baixa de exercício físico, etc. E atenção: não estudámos as classes sociais baixas, porque quem respondeu tem internet e literacia digital.

Estamos a falar de pessoas indiferenciadas ou sobretudo de profissionais?

O grande objetivo foi avaliar grupos profissionais: médicos, enfermeiros, psicólogos, professores, dentistas, bombeiros… Mas também abrangemos a população em geral e doentes do sono.

Quem foi mais afetado?

Em muitos aspetos, o grupo dos médicos e enfermeiros. E isso está naturalmente relacionado com o facto de estarem na linha da frente. Os médicos e os enfermeiros começaram a dormir menos com a pandemia e têm níveis de stresse razoavelmente maiores. Quem está exausto, quem vê pessoas a morrer e se sente impotente perante isso tem problemas evidentes. Este foi o grupo que teve mais atitudes e comportamentos negativos durante a pandemia. E é fácil de perceber, porque a fadiga não permite bons comportamentos…

Pode dar exemplos?

Dormir menos, comer pior, estar mais preocupado, stressado, pessimista... O que eu faço, agora, é ensinar os meus doentes a terem atitudes positivas, que é uma variável importante com uma dimensão específica. Por exemplo, pessoas que aproveitaram a pandemia para estudar e aprender, para escrever artigos ou memórias, para fazer jogos e divertirem-se com os filhos, para pôr em prática algumas capacidades, sejam artísticas, literárias ou manuais… tudo isto são atitudes altamente positivas. Esta é a minha grande mensagem: o que é importante é que as pessoas transformem a tragédia da situação em algo positivo, em vez de se queixarem. Outra coisa importante é relativizar. Não temos bombas a cair-nos em cima, temos eletricidade, água, internet, podemos ver-nos uns aos outros [através de plataformas]… Há dez ou 15 anos, isso não era possível. É isto que ensino e discuto com os meus doentes.

O que a surpreendeu mais?

Quatro pessoas tiveram ideias suicidas. Quatro pessoas em cinco mil representam muito pouco, mas é extremamente grave do ponto de vista individual. Um dado importante foi sobre o número de pessoas com quem se vive: quem está pior, no que diz respeito à qualidade do sono e à qualidade do despertar, é quem vive sozinho — o que é expectável — e também quem vive com cinco ou mais pessoas — o que, num espaço fechado, pode aumentar a conflitualidade. Um dado curioso: as pessoas com mais literacia aguentam pior.

Tem recebido muitos novos casos desde que a pandemia eclodiu?

Sim. E casos cada vez mais complexos do ponto de vista clínico, existencial e psicológico. Hoje em dia, a necessidade de trabalhar com psiquiatras, psicólogos e outros especialistas é enorme, porque são necessárias várias opiniões e perícias. E na minha prática habitual, na primeira consulta, questiono a pessoa sobre se foi violentada na escola, na família ou no casamento — com delicadeza, é claro. Portanto, sinto necessidade de fazer isto por rotina porque a prevalência da violência é enorme. E a complexidade dos problemas de sono está muito relacionada com isso. A frequência com que, atualmente, vejo pessoas que sofrem violência doméstica, violência na escola ou no trabalho é elevadíssima, além das violências sexuais.

O que deve ser capitalizado para o futuro?

Devemos perceber que é possível viver com muito menos stresse. Depois, tomar atitudes sobre o futuro: não podemos continuar a comer carne como comemos e a manter pastagens de bovinos, o que implica uma reformulação alimentar e na agricultura. Não estou a dizer que se deve deixar de comer carne — não sou favorável aos extremos. Pode comer-se carne, mas pouco. Por outro lado, as grandes tecnológicas têm de mudar de atitude. Façam o dinheiro que quiserem, mas não pode ser à conta de coisas nocivas, porque isso terá um custo muito elevado coletivamente.

O que diria a alguém que começa a dormir pior ou a sentir mais ansiedade?

Primeiro, deve perceber porque está ansioso, se tem algum agravamento de saúde, como dores de cabeça ou tensão alta, se tem azia ou refluxo, etc. E se verificar que não existe nenhuma causa orgânica, deve relativizar, antes de mais. Não dormir uma ou duas noites não é uma catástrofe. E quanto menos se preocupar com isso, melhor. Se tem uma insónia que dura há mais de três meses e ocorre mais de três vezes por semana, deve consultar um especialista.

Deve-se dormir oito horas diárias, ou isso é um mito?

Sete a oito horas para os adultos, podendo ir até nove. Abaixo de seis horas é claramente perigoso.

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